Versões em espanhol
Patricio Azcárate
Sócrates, que na Apologia só conseguiu manter-se filósofo na condição de se separar da Constituição religiosa de Atenas, renasce e transforma-se, neste diálogo, por uma espécie de compensação, em um cidadão inflexível na obediência às leis da república. Submeter-se às leis é uma obrigação absoluta; é o dever. Esse é o objetivo deste diálogo.
Os amigos de Sócrates, depois de terem convencido o diretor da prisão onde ele aguardava o dia de sua morte, enviaram-lhe um deles, Critão, para que lhe suplicasse veementemente que salvasse sua vida fugindo.
Todas as razões que uma amizade ardente pode inspirar para abafar os escrúpulos de uma alma reta. Critão as invocou com a mais afetuosa insistência. Mas a terna solicitude que se destaca em sua linguagem disfarça, sem atenuá-la, a fraqueza dos motivos que comumente inspiram, em circunstâncias críticas, a probidade acomodatícia da plebe. Assim o compreendeu Sócrates. Aos lamentos de Critão, em razão da desonra e do desespero que amargavam seus amigos, e do destino reservado a seus filhos condenados à orfandade, ele opôs esta alternativa inevitável: a fuga é justa ou injusta? Pois é preciso decidir em todos os casos, não por razões de amizade, de interesse ou de opinião, mas por razões de justiça. Mas a justiça lhe proíbe fugir, porque seria desobedecer às leis, ato injusto em si mesmo, exemplo funesto para a boa ordem pública, ingratidão, [90] enfim, para com essas leis que presidiram, como mães e amas, ao seu nascimento, à sua juventude e à sua educação. Existe um compromisso tácito entre o cidadão e as leis; estas, ao protegê-lo, têm direito ao seu respeito. Ninguém ignora esse pacto; ninguém pode subtrair-se a ele; ninguém se livra, ao violá-lo, dos remorsos de sua consciência, qualquer que seja o desvio que tenha tomado para enganar a si mesmo.
Tal é a doutrina inflexível pela qual Sócrates, destruindo pedra por pedra o frágil edifício da moral de Critão, que é a moral do povo, prefere o cumprimento rigoroso de seu dever à sua saúde. Poderia ser de outra forma? Que contradição resultaria se o mesmo homem que antes, na praça pública, na presença de seus juízes, se alegrara com sua morte como o maior bem que lhe poderia acontecer, tivesse renegado, fugindo, essa coragem e essas sublimes esperanças do dia de seu julgamento! Sócrates, o mais sábio dos homens, se tornaria um covarde e um mau cidadão. O próprio Critão foi reduzido ao silêncio pela firme razão de seu mestre, que se despede dele com estas palavras admiráveis: «Sigamos o caminho que Deus nos traçou. Deus é o próprio dever, porque é sua origem: cumprir o dever é inspirar-se em Deus.»
Gredos
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O “Críton” como um diálogo breve da primeira época de Platão, centrado na decisão definitiva de Sócrates
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A obra distingue-se dos demais diálogos por não buscar uma definição geral de um conceito nem refutar um raciocínio, mas sim por ter como objetivo adotar uma posição definitiva diante da iminência da execução.
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O conteúdo do diálogo está estreitamente ligado à “Apologia de Sócrates”, funcionando como uma confirmação da personalidade do filósofo e uma justificativa da atitude adotada em sua defesa perante o tribunal.
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A trama baseia-se no convite feito a Sócrates para fugir da prisão, uma incitação que partiu não apenas de Críton, mas também de outros amigos e estrangeiros, motivada pela dor, irritação e pelo desagrado geral dos atenienses diante da iminente condenação.
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O exame dos princípios éticos diante da iminência da morte
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Sócrates propõe a Críton que reexaminem os conceitos e pontos de vista que antes consideravam corretos para verificar se, na nova situação, permanecem válidos ou devem ser rejeitados, submetendo a razão ao crivo da consistência.
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O heroísmo é apresentado como o resultado de uma decisão pessoal e única que alinha a conduta a uma ideia ou dever moral, e Sócrates demonstra ter tido clara intuição dessa necessidade antes mesmo de comparecer ao tribunal.
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A argumentação de Sócrates estabelece que nenhuma circunstância, como o perigo ou a opinião pública, deve prevalecer sobre a razão; se os raciocínios são bons, devem ser seguidos, sendo esta a base para sua recusa em fugir.
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A relação do diálogo com a “Apologia” e com o “Fédon”
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Apesar de a continuação cronológica dos eventos levar ao “Fédon”, que narra a morte de Sócrates, não há uma relação direta entre os dois diálogos, sendo que Platão posteriormente decidiu emoldurar o diálogo sobre a imortalidade da alma entre as primeiras luzes do dia da morte e as últimas palavras do mestre.
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A prosopopeia das Leis como argumento central para a recusa da fuga
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As Leis, personificadas no diálogo, apresentam argumentos que buscam tornar coerente o comportamento de Sócrates com toda a sua vida anterior, contrastando sua conduta com a acusação apresentada por Meleto.
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As Leis argumentam que, ao optar por viver em Atenas e usufruir de seus benefícios por toda a vida, Sócrates estabeleceu um acordo tácito de obediência, e fugir agora violaria esse contrato, destruindo as próprias leis e a cidade.
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Embora alguns raciocínios possam soar estranhos às concepções modernas de Estado, a prosopopeia atua com máxima eficácia ao mostrar que a fuga tornaria o comportamento de Sócrates incoerente com os princípios que sempre defendeu.
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O dramatismo, a autoria e a posição do “Críton” na cronologia das obras de Platão
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A obra adquire um dramatismo especial porque a confirmação dos princípios é feita por um homem a quem restam apenas algumas horas de vida, conferindo um peso singular à argumentação sobre a adequação da conduta a um dever moral.
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