Do Justo
Traduzido da versão francesa de Luc Brisson
SÓCRATES
[372a] Podes dizer o que é o justo? A questão não merece ser discutida?
ANÔNIMO
Sim; merece, em minha opinião.
SÓCRATES
Pois bem, o que é?
ANÔNIMO
Que outra coisa seria senão aquilo que a legalidade considera como justo?
SÓCRATES
Não é dessa maneira que deves responder. É como se me perguntasses: «O que é o olho?», e eu te respondesse: «Aquilo pelo qual vemos.» E se me pedisses que o mostrasse, eu o mostraria. E se me perguntasses: «A que dás o nome de alma?», eu te responderia: «Aquilo pelo qual conhecemos», e se me colocasses esta nova questão: «O que é a voz?», eu te responderia: «Aquilo graças ao qual podemos discutir.» Cabe a ti fazer o mesmo e dizer para que nos serve o justo, tomando como modelo o que acabo de dizer para responder às questões colocadas.
ANÔNIMO
Não sou de modo algum capaz de responder dessa maneira.
SÓCRATES
Pois bem, já que não o podes fazer dessa forma, talvez seja mais fácil proceder de outra maneira. Vamos, quando procuramos distinguir o grande do pequeno, de que nos servimos? Da medida, não é?
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
E, com a medida, de qual técnica? Não é da técnica da medição?
ANÔNIMO
Da técnica da medição.
SÓCRATES
[373a] E para distinguir o pesado do leve? Não recorremos ao peso?
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
E, com o peso, a qual técnica? Não é à da pesagem?
ANÔNIMO
Sem dúvida.
SÓCRATES
E então, para procurar discernir o justo do injusto, de qual instrumento nos serviremos e, por meio desse instrumento, a qual técnica recorreremos de preferência? Sob esse aspecto, a coisa não te parece mais clara?
ANÔNIMO
Não.
SÓCRATES
Pois bem, retomemos do seguinte modo. Quando não estamos de acordo sobre o que é maior ou menor, o que nos decide? Os que sabem medir, não é?
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
E quando se trata de números, para saber se são grandes ou pequenos, [373b] quem decide? Os que sabem contar, não é?
ANÔNIMO
Certamente.
SÓCRATES
E quando é a respeito do justo e do injusto que estamos em desacordo uns com os outros, a quem nos dirigimos, quais são aqueles que decidem em todos os casos? Dize.
ANÔNIMO
Referes-te aos juízes, Sócrates?
SÓCRATES
Muito bem, encontraste. Vamos, tenta responder a esta nova questão. Como procedem os que sabem medir para determinar o que é grande e o que é pequeno? Não é medindo?
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
E para distinguir o pesado do leve? Não é pesando?
ANÔNIMO
Pesando, claro.
SÓCRATES
E para distinguir no número entre o grande e o pequeno? Contando, não é?
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
Pois bem, [373c] para distinguir o justo e o injusto? Responde.
ANÔNIMO
Não sei.
SÓCRATES
Falando, não é?
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
Logo, é falando que os juízes nos decidem, quando em seu julgamento se pronunciam sobre o que é justo e injusto.
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
E é medindo que os que medem se pronunciam sobre as dimensões grandes ou pequenas; é, com efeito, a medida que lhes serve para emitir um juízo nessa matéria.
ANÔNIMO
Assim é.
SÓCRATES
É pesando que os que pesam avaliam o que é pesado e o que é leve; é, com efeito, o peso que lhes serve para emitir um juízo nessa matéria.
ANÔNIMO
De fato.
SÓCRATES
É contando que os que contam se pronunciam sobre os números grandes ou pequenos; [373d] é, com efeito, o número que lhes serve para emitir um juízo nessa matéria.
ANÔNIMO
Assim é.
SÓCRATES
E é falando, como acabamos de admitir, que os juízes nos decidem no que concerne ao justo e ao injusto; é, com efeito, por meio da palavra que formulam um juízo nessa matéria.
ANÔNIMO
O que dizes é correto, Sócrates.
SÓCRATES
É bem verdade. E é a palavra, ao que parece, que serve para distinguir entre o justo e o injusto.
ANÔNIMO
Parece mesmo.
SÓCRATES
Em que pode consistir o justo e o injusto? Por exemplo, se nos fosse colocada a seguinte questão: já que é a medida, a técnica da medição e aquele que mede que decidem o que é grande e pequeno [373e], o que é então o maior e o menor? Responderíamos: o grande é o que excede em comprimento, e o pequeno o que é excedido em comprimento. E já que é o peso, a técnica da pesagem e aquele que pesa que determinam o que é pesado e o que é leve, em que então consistem o pesado e o leve? Responderíamos: é pesado o que faz descer o prato da balança, e leve o que o faz subir. Do mesmo modo, portanto, se nos fosse colocada a seguinte questão: já que é a palavra, a arte judiciária e o juiz que decidem para nós o que é justo e o que é injusto, em que consistem o justo e o injusto? Que poderíamos ainda responder a essa questão? Ou será preciso admitir que ainda não somos capazes de dar uma resposta?
ANÔNIMO
Não somos capazes.
SÓCRATES
Em tua opinião, é de livre vontade [374a] que os homens cometem a injustiça ou é contra a vontade? Eis o que se quer dizer. Em tua opinião, é de livre vontade que os homens praticam atos que são justos e atos que são injustos, ou é contra a vontade?
ANÔNIMO
Sem dúvida, de livre vontade, Sócrates, pois são maus.
SÓCRATES
Por conseguinte, é de livre vontade, pensas, que os homens são maus e injustos?
ANÔNIMO
É a minha opinião, não é também a tua?
SÓCRATES
Não, ao menos se se deve crer no poeta.
ANÔNIMO
Qual?
SÓCRATES
Aquele que disse:
Ninguém é infeliz de livre vontade, nem feliz contra a vontade.
ANÔNIMO
Mas, Sócrates, o antigo provérbio tem razão ao afirmar que frequentemente os poetas mentem.
SÓCRATES
Ficaria surpreendido [374b] se, ao menos neste ponto, nosso poeta tivesse mentido. De resto, se tens tempo, poderíamos examinar se ele mente ou se diz a verdade.
ANÔNIMO
Sim, tenho tempo.
SÓCRATES
Vamos, o que, em tua opinião, é coisa justa? Mentir ou dizer a verdade?
ANÔNIMO
Dizer a verdade, evidentemente.
SÓCRATES
Logo, mentir é coisa injusta.
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
E o que é justo, induzir em erro ou não induzir em erro?
ANÔNIMO
Não induzir em erro, certamente.
SÓCRATES
Logo, induzir em erro é coisa injusta.
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
E ainda, o que é justo: prejudicar ou prestar serviço?
ANÔNIMO
Prestar serviço.
SÓCRATES
Segue-se que fazer dano é coisa injusta? [374c]
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
E ainda que dizer a verdade, não mentir e prestar serviço são coisas justas, enquanto mentir, fazer dano e induzir em erro são coisas injustas.
ANÔNIMO
Sim, por Zeus, absolutamente.
SÓCRATES
E mesmo quando se trata de inimigos?
ANÔNIMO
Não, não quando se trata de inimigos.
SÓCRATES
Então é coisa justa fazer dano aos inimigos, e coisa injusta prestar-lhes serviço?
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
Então é também coisa justa fazer dano aos inimigos induzindo-os em erro, não é?
ANÔNIMO
Como não o seria?
SÓCRATES
Mas então, prestar serviço aos amigos, [374d] não admites que seja coisa justa?
ANÔNIMO
Ao menos a meus olhos.
SÓCRATES
Evitando induzi-los em erro ou induzindo-os em erro para lhes prestar serviço?
ANÔNIMO
Mesmo induzindo-os em erro, por Zeus.
SÓCRATES
De fato, é coisa justa prestar-lhes serviço induzindo-os em erro; não mentindo, porém, ou mesmo mentindo?
ANÔNIMO
Mesmo mentindo, isso continua sendo coisa justa.
SÓCRATES
Segue-se, ao que parece, que mentir e dizer a verdade são igualmente coisas justas e coisas injustas.
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
Do mesmo modo, induzir em erro e não induzir em erro são coisas justas e coisas injustas.
ANÔNIMO
Parece que sim.
SÓCRATES
Do mesmo modo, fazer dano e prestar serviço são coisas justas e coisas injustas.
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
São, ao que parece, as mesmas coisas que todas [374e] são igualmente justas e injustas.
ANÔNIMO
Para mim, isso é evidente.
SÓCRATES
Escuta bem. Tenho um olho direito e um olho esquerdo, como todos.
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
Uma narina direita e uma narina esquerda?
ANÔNIMO
Claro.
SÓCRATES
Uma mão direita e uma mão esquerda?
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
Mas então, já que são as mesmas partes de meu corpo que qualificas ora de «direitas» ora de «esquerdas», se eu te perguntasse quais são elas, serias capaz de responder: as que estão deste lado são à direita, enquanto as que estão daquele lado são à esquerda?
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
Retornemos à questão examinada. Já que são as mesmas coisas que qualificas ora de «justas» ora de «injustas», podes dizer quais são justas e quais [375a] são injustas?
ANÔNIMO
A dizer a verdade, parece-me que são justas todas aquelas dessas coisas que são feitas quando convém fazê-las e no momento oportuno, enquanto são injustas aquelas que são feitas quando não convém fazê-las.
SÓCRATES
Parece que tens razão. Logo, aquele que faz cada uma dessas coisas quando convém age conforme a justiça, enquanto aquele que o faz quando não convém age injustamente?
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
Por conseguinte, é praticando ações justas que um é justo, e praticando ações injustas que o outro é injusto?
ANÔNIMO
Assim é.
SÓCRATES
Mas qual é o homem que é capaz, quando convém e no momento oportuno, de cortar e queimar, ou de fazer emagrecer?
ANÔNIMO
O médico.
SÓCRATES
Porque sabe como proceder, ou por outra razão? [375b]
ANÔNIMO
Porque sabe como proceder.
SÓCRATES
E quem é capaz, quando convém, de cavar, arar e plantar?
ANÔNIMO
O agricultor.
SÓCRATES
Porque sabe como proceder, ou por outra razão?
ANÔNIMO
Porque sabe como proceder.
SÓCRATES
Não ocorre o mesmo com o resto? Aquele que sabe como proceder é capaz de fazer o que convém quando convém e no momento oportuno, enquanto aquele que não é especialista não é capaz de fazer o que convém.
ANÔNIMO
É assim que ocorre.
SÓCRATES
E, por conseguinte, no que diz respeito a mentir, induzir em erro e prestar serviço, aquele que sabe como proceder é capaz de fazer cada uma dessas coisas quando convém e no momento oportuno, enquanto aquele que não é especialista [375c] não é capaz de fazê-lo.
ANÔNIMO
O que dizes é verdadeiro.
SÓCRATES
Em suma, aquele que faz isso quando convém é justo?
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
É, portanto, graças ao saber que ele realiza esses atos.
ANÔNIMO
Como poderia ser de outro modo?
SÓCRATES
É, portanto, graças à ciência que aquele que é justo é justo.
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
E não é pelo contrário daquilo que o torna justo que o homem injusto é injusto?
ANÔNIMO
Parece que sim.
SÓCRATES
Ora, o justo é justo graças ao saber.
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
Logo, é por ignorância que o injusto é injusto.
ANÔNIMO
Aparentemente.
SÓCRATES
Há, portanto, razões para que esse saber que nos foi legado por nossos antepassados seja a justiça, e que a ignorância seja [375d] a injustiça.
ANÔNIMO
Aparentemente.
SÓCRATES
E é de livre vontade que os homens são ignorantes ou contra a vontade?
ANÔNIMO
Contra a vontade.
SÓCRATES
Logo, é contra a vontade que são injustos?
ANÔNIMO
Parece que sim.
SÓCRATES
E as pessoas injustas são más?
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
Logo, é contra a vontade que as pessoas são más e injustas?
ANÔNIMO
Sim, totalmente.
SÓCRATES
E é porque são injustas que cometem a injustiça?
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
Logo, é contra a vontade que as pessoas são más e injustas?
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
Logo, é realmente contra a vontade?
ANÔNIMO
Certamente.
SÓCRATES
Mas, evidentemente, não é contra a vontade que se age de livre vontade?
ANÔNIMO
Certamente não.
SÓCRATES
E é porque se é injusto que se comete a injustiça.
ANÔNIMO
Sim.
SÓCRATES
Mas é contra a vontade que se é injusto.
ANÔNIMO
Contra a vontade.
SÓCRATES
Segue-se que é contra a vontade que se comete a injustiça e que se é injusto e mau.
ANÔNIMO
Contra a vontade, ao menos ao que parece.
SÓCRATES
Nesse ponto, então, o poeta não mentia?
ANÔNIMO
Não, ao que parece.
