Eutidemo
Brisson
Este diálogo, em que Sócrates encontra dois sofistas, permanece enigmático, pois a conversa não termina com uma crítica e condenação dos sofistas, como seria de se esperar. Pelo contrário, Sócrates acaba elogiando Eutidemo e Dionisodoro.
Sócrates encontra seu amigo de infância Critão, que dá nome a um diálogo e desempenha um papel importante no Fedão. Critão aproveita para questionar Sócrates sobre a conversa que ocorreu na véspera, no ginásio do Liceu, pois o viu sentado na companhia de um jovem, Clinias, conversando com dois homens já idosos que pareciam ser sofistas. Sócrates responde que se tratava de Eutidemo e Dionísodoro, que ensinam não apenas luta e manejo de armas, mas também a arte de se defender no tribunal e de silenciar qualquer interlocutor; e ele conta essa conversa.
Enquanto está sentado no vestiário do ginásio, Sócrates é abordado por Clinias e seu amante, Ctesippus. Em seguida, chegam Eutidemo e Dionisodoro, cercados por um grande público. Sócrates os cumprimenta e menciona suas habilidades. Os dois homens protestam, pois agora abandonaram qualquer outro ensinamento que não seja o da virtude. A partir de então, eles afirmam ser capazes de exortar qualquer homem ao amor pelo conhecimento e de envolvê-lo na prática da virtude. É então que Sócrates lhes pede para colocar sua nova competência à prova, tomando Clinias como interlocutor. Eutidemo questiona Clinias e refuta o jovem, obrigando-o a reconhecer que sua resposta está errada. Sócrates então explica ao jovem que os sofistas queriam exortá-lo a estudar a correção das palavras. Mas, antes de ceder a palavra aos sofistas, Sócrates faz questão de dar um exemplo do que deve ser uma exortação à filosofia. Todo homem aspira à felicidade e, para alcançá-la, deve possuir muitos bens. No entanto, a felicidade não depende apenas da posse de bens, mas também do seu uso. Ora, para ser bom, o uso deve ser guiado pelo conhecimento. A partir daí, o conhecimento se torna o fator essencial da felicidade, e a ignorância aparece como o mal. Mas em que consiste esse conhecimento?
Dionísodoro então toma a palavra para mostrar que querer que Clinias se torne um sábio é querer sua morte, pois então ele não será mais o que é (ou seja, ignorante). O tom se eleva, pois Ctesípo não consegue aceitar a ideia de que seu amado, Clinias, morrerá. Após uma intervenção apaziguadora de Sócrates, Dionísodoro retoma a palavra para levar Ctesípo a reconhecer que é impossível contradizer-se. Mas, como observa Sócrates, se é impossível contradizer, não se pode refutar e, portanto, não há lugar nem para a ignorância nem para o erro, consequências que tornam o ensino impossível (incluindo o que Eutidemo e Dionísodoro propõem). Segue-se então uma discussão entre Clinias e Sócrates, da qual se conclui que o amor pelo saber consiste na aquisição de um conhecimento cujo objeto ainda está por determinar.
Este diálogo continua sendo um testemunho essencial sobre os mecanismos que levam a um uso desviante da lógica e da linguagem. O Eutidemo constitui uma etapa importante na tradição de análise dos sofismas e dos paralogismos, mas o diálogo se concentra mais em sua encenação do que em sua análise sistemática, à qual Aristóteles se dedicará nas Refutações sofísticas.
Gredos
A obra apresenta com toda nitidez diversos momentos ou seções que podem dispor-se da seguinte maneira:
I. PRÓLOGO (271a-275c)
Diálogo inicial entre CRITÃO e SÓCRATES.
II. DESENVOLVIMENTO (275c-304b)
1. Relato do primeiro diálogo com os sofistas (275c-277c).
Interlocutores: EUTIDEMO, DIONISODORO, CLÍNIAS e SÓCRATES.
2. Relato da primeira exortação socrática (277d-282e).
Interlocutores: CLÍNIAS e SÓCRATES.
3. Relato do segundo diálogo com os sofistas (283a-288d).
Interlocutores: DIONISODORO, SÓCRATES, CTESIPO, EUTIDEMO.
4. Relato da segunda exortação socrática (288d-290e).
Interlocutores: CLÍNIAS e SÓCRATES.
5. Diálogo central entre CRITÃO e SÓCRATES (290e-293a).
6. Relato do terceiro diálogo com os sofistas (293b-304b).
Interlocutores: EUTIDEMO, SÓCRATES, DIONISODORO e CTESIPO.
III. EPÍLOGO (304c-307e)
Diálogo final entre CRITÃO e SÓCRATES.
A sequência dos relatos dos diálogos com os sofistas não exibe outro progresso senão o do maior número de falácias a que recorrem os vãos sofistas em seu afã de triunfar nas discussões. Bonitz e Gifford enumeraram vinte e uma, das quais o terceiro momento contém algo menos da metade. Não se trata, em todos os casos, de meras artimanhas verbais. Há as que encerram importantes e difíceis problemas filosóficos: a natureza do «é» predicativo (283d, 284c), a confusão do significado relativo com o absoluto (293c, 295e), a que conclui na impossibilidade de contradizer (285e), as que se relacionam com o princípio lógico de não contradição (298c), etc.
Precisamente, a lucidez que mostra Platão na exposição das falácias, e na natureza das questões envolvidas, levou alguns autores — como Th. Gomperz no século passado e I. M. Crombie no presente — a sustentar, pela vinculação que têm com temas filosóficos mais extensamente desenvolvidos em Teeteto e Sofista, uma datação posterior da composição do diálogo.
Por outro lado, a natureza e o número das falácias empregadas vinculam já desde a antiguidade este diálogo com as Refutações Sofísticas de Aristóteles, onde muitas delas aparecem analisadas. Em verdade, como diz G. Ryle, Platão trata dramaticamente no Eutidemo o que, depois, Aristóteles examina cientificamente em suas Refutações. E é tão chamativa a relação entre ambas as obras nesse aspecto, que até um autor do século passado — Karl Lüddecke — chegou a sustentar — negando, como Von Ast, autenticidade ao diálogo — que o Eutidemo não era mais que uma compilação realizada por um aristotélico dos exemplos que aparecem nas Refutações sofísticas. Com o que quis, seguramente, derrubar a apreciação famosa de V. Cousin: «a obra de Aristóteles intitulada Da Refutação dos Sofismas não é outra coisa que o Eutidemo reduzido a fórmulas gerais».
A sequência dos dois protrépticos socráticos oferece, em troca, um sustentado progresso. No primeiro, partindo da premissa de que todos os homens querem ser ditosos ou felizes, chega-se a admitir, de comum acordo, que o meio para isso são os bens, e que não basta somente possuí-los, mas faz falta saber usá-los. Em consequência, somente a posse de um conhecimento permite seu bom uso. No segundo protréptico indaga-se então acerca da natureza do conhecimento que é necessário possuir para lograr esse bom uso, mas a dificuldade do assunto não permite estabelecê-lo com alguma precisão.
O valor, no entanto, destes protrépticos socráticos não escapou, naturalmente, aos olhos dos antigos, e Jâmblico — fins do século III e começos do IV — os maneja e transcreve resumidamente em sua obra denominada precisamente Protréptico (vide nota 40 e, também, as linhas 293a5-6, transcritas por Jâmblico em 27, 9-10).
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