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VICTOR COUSIN : L'EUTHYPHRON - ARGUMENT PHILOSOPHIQUE

1846 Oeuvres de Platon. Traduites par Victor Cousin (Volume 1-2)

Eutífron : Argumento filosófico.

Deus não sendo senão o bem em si mesmo, a ordem moral tomada substantivamente, todas as verdades morais se relacionam a ele como os raios ao centro, as modificações ao sujeito que as faz ser e que elas manifestam. Longe, portanto, de se combaterem, a moral e a religião se ligam intimamente uma à outra, tanto na unidade de seu princípio real quanto na do espírito humano que as concebe, e não pode deixar de concebê-las simultaneamente. Mas quando o antropomorfismo, rebaixando a teologia ao drama, faz do eterno um deus de teatro, tirânico e apaixonado, que, do alto de sua onipotência, decide arbitrariamente o que é bem e o que é mal; é então que a crítica filosófica pode e deve, no interesse das verdades morais, autorizar-se da obrigação imediata que as caracteriza, para estabelecê-las sobre sua própria base, independentemente de toda circunstância estranha, independentemente mesmo de sua relação com sua fonte primitiva, colocando-se assim de propósito sobre um terreno menos elevado, mas mais seguro, sabendo perder algo, para não perder tudo, e salvar ao menos a moral do naufrágio da alta filosofia. Tal é o ponto de vista particular sob o qual é preciso encarar o Eutífron. O adivinho Eutífron representa uma teologia insensata que se arroga o direito de constituir ao seu bel-prazer a moral; Sócrates, a consciência que reclama sua independência.

Sócrates apressa-se em reconhecer que há uma harmonia essencial entre a moral e a religião, que tudo o que é bem agrada àquele que devemos conceber como o tipo e a substância da razão eterna; mas ele pergunta por que o bem agrada a Deus, se poderia não lhe agradar, e se seria possível que o mal lhe agradasse? Não. Por que, então, o bem não pode deixar de agradar a Deus? É, em última análise, por isso somente que ele é bem; todas as outras razões que se podem dar supõem sempre essa e a ela retornam. É preciso, portanto, convencer-se de que o bem não é tal porque agrada a Deus, mas que agrada a Deus porque é bem, e que, consequentemente, não é em dogmas religiosos que se deve buscar o título primitivo da legitimidade das verdades morais. Essas verdades, como todas as outras, legitimam-se a si mesmas, e não necessitam de outra autoridade que não a da razão que as percebe e que as proclama. A razão é a si mesma sua própria sanção. Essa concepção do bem, e, para falar a linguagem do tempo de Sócrates, essa concepção do santo em si mesmo, desligado das formas externas que pode revestir, das circunstâncias que o acompanham, das consequências mesmo necessárias que dele derivam, considerado naquilo que há de próprio e de absoluto, em sua grandeza e sua beleza imediatas, é um exemplo da Ideia no sistema de Platão.

Tal é a parte um tanto geral do Eutífron. Mas seu objeto especial é a querela particular da moral com a teologia positiva de então, fundada na pluralidade dos deuses. Sócrates prova facilmente que a unidade da moral perece no politeísmo; que se o bem ou o santo é aquilo que agrada aos deuses, esses deuses sendo diversos, e frequentemente em guerra entre si, é impossível saber se o que é agradável a uns é agradável a outros, e ter uma regra fixa. Não se reproduzirá aqui essa controvérsia, que perdeu hoje toda importância filosófica; mas não se poderia segui-la e estudá-la com demasiado cuidado em Platão, como um monumento da moral que a teologia pagã havia feito à humanidade, e da coragem com a qual Sócrates atacou essa moral e o sistema religioso do qual ela emanava. Sob esse aspecto, o Eutífron apresenta um alto interesse histórico. Não se pode defender de uma atenção quase solene ao ler hoje esse pequeno diálogo, quando se pensa que é ali o primeiro manifesto de independência da consciência e da razão; a primeira discussão onde o sentimento moral ousou separar-se das formas religiosas que o corrompiam, e reivindicar, em nome de sua própria dignidade e da da natureza humana, o direito imprescritível de ser por si mesmo santo e sagrado.

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