Eutífron
É por ocasião de sua convocação pelo Arconte-rei, após uma queixa apresentada contra ele por Meleto, que Sócrates, acusado de impiedade, encontra o adivinho Eutífron, que, por sua vez, acusa seu pai em uma história complexa relacionada à interpretação das leis religiosas. Entre Sócrates e Eutífron inicia-se uma discussão sobre a definição do que é piedoso e do que é ímpio.
Inicialmente, Eutífron apresenta seu caso como a ilustração perfeita da natureza do que é piedoso. Sócrates não tem dificuldade em mostrar que não se trata de uma definição, mas de um exemplo. É então que Eutífron propõe uma segunda definição: “O que é caro aos deuses é piedoso, enquanto o que não lhes é caro é ímpio”. Inicialmente, Sócrates leva Eutífron a admitir que sua definição deve ser válida para “todos” os deuses ao mesmo tempo; em seguida, ele se lança em uma refutação particularmente sutil da segunda formulação que resulta dessa precisão e que implica a autonomia do piedoso em relação aos deuses. A piedade existe por si mesma e em si mesma, e seu conteúdo não depende da boa vontade dos deuses. Em suma, existe uma “forma” de piedade – seja essa ou não uma primeira alusão à doutrina das formas inteligíveis, como pensam alguns comentadores. Após um interlúdio, Sócrates propõe a Eutífron ajudá-lo a explorar a hipótese de que “tudo o que é piedoso é necessariamente justo”. Ainda é preciso determinar em que consiste a justiça que corresponde à piedade. Eutifron responde que ela diz respeito ao cuidado (therapeía) devido aos deuses. É então que Sócrates propõe definir esse cuidado como um serviço (hupēretikḗ). Mas, no grego antigo, o termo contém uma ambiguidade, como é o caso em francês, dependendo se é usado na expressão “fazer o serviço” ou na expressão “prestar serviço”; no primeiro caso, o serviço visa apenas agradar, enquanto no segundo contribui para produzir um resultado. Ora, Eutífron entende o termo no primeiro sentido, enquanto Sócrates o entende no segundo. Envergonhado e chocado com essa má-fé, Eutífron propõe uma nova definição: “a piedade consiste em saber dizer e fazer o que é agradável aos deuses, por ocasião das orações e dos sacrifícios”. Mas esta última definição, como Sócrates observa, é apenas uma nova formulação da segunda, que já foi refutada.
Eutifron participa da defesa de Sócrates. Acusado de impiedade, Sócrates refuta, na pessoa de Eutifron, o próprio personagem que deveria saber em que consiste a piedade e, portanto, a impiedade. Além disso, quando é acusado de corromper os jovens, Sócrates encontra um filho que, apesar de suas funções religiosas, não hesita em levar seu próprio pai ao tribunal.
* A diferenciação entre o Eutífron e o Críton estabelece-se pelo fato de que, enquanto o segundo se ocupa das deliberações práticas e existenciais subsequentes ao julgamento, o primeiro dedica-se ao escrutínio teórico da piedade, sem que os resultados da discussão imponham a Sócrates uma decisão definitiva sobre o curso de sua vida, mantendo uma estrutura dialógica que se assemelha às outras inquirições da juventude platoniana voltadas para a busca de definições universais, embora sua vinculação temática com a acusação de impiedade movida por Meleto o insira em um contexto de relevância jurídica e apologética singular. * O diálogo explora a possibilidade de Sócrates, na condição de suposto discípulo de Eutífron, municiar-se de um saber técnico sobre o sagrado para confrontar a denúncia de impiedade, entretanto, a argumentação progride com o mesmo desprendimento metodológico aplicado a temas como a beleza ou a verdade, sem que o pensamento íntimo do filósofo se revele para fins de uma exculpação direta, evidenciando que, após as obras fundamentais do processo, o personagem socrático transita de um sujeito que vive o seu papel histórico para um personagem dramático que o representa dentro da encenação filosófica. * A caracterização do personagem Eutífron destaca-se pela sua certeza inabalável na piedade de suas ações, manifesta na resolução de processar criminalmente o próprio pai por negligência na morte de um assalariado que havia assassinado um servidor doméstico, revelando uma convicção moral que, embora conduza a conclusões absurdas sob o olhar de Sócrates e da família, não denota malícia, mas antes a limitação de um homem comum que acredita agir em conformidade com o que é sagrado sem discernir as contradições intrínsecas ao seu posicionamento. * O apaixonamento dialético no Eutífron é deliberadamente reduzido em favor da precisão analítica, registrando-se o pensamento pessoal de Sócrates em apenas uma instância significativa, na qual ele manifesta sua discordância fundamental em relação aos relatos mitológicos tradicionais que descrevem os deuses em contínuas querelas e hostilidades mútuas, sugerindo que a piedade verdadeira não pode estar alicerçada em uma concepção de divindade marcada pelo conflito ou pelo arbítrio passional. * A estrutura do diálogo demonstra que o enquadramento em circunstâncias processuais, embora reitere os motivos da Apologia, não é suficiente para determinar a data de composição da obra, uma vez que o encadeamento rigoroso das definições e a ausência de uma tomada de posição apologética imediata indicam que a obra serve mais como um exercício de dialética sobre a virtude do que como uma defesa biográfica do mestre condenado.
