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5. Reminiscência (72e-77a)

PLATON. Phédon. Monique Dixsaut. Paris: GF-Flammarion, 1991.

  • O resumo de Cebès recapitula as conclusões do Mênon ao afirmar que a alma aprendeu tudo num tempo anterior à encarnação humana, demonstrado pelo fato de que respostas corretas emergem quando se é interrogado adequadamente, sobretudo em geometria.
    • Simmias não consegue se lembrar completamente do argumento.
    • Sócrates estabelece duas condições da reminiscência: ter possuído o saber anteriormente e haver passagem da percepção à concepção.
    • Cebès enfatizava figuras geométricas e astronômicas como ponto de partida; Sócrates generaliza para “qualquer sensação”.
  • No Mênon, o exemplo geométrico servia para transformar opiniões corretas em saber verdadeiro, exigindo da alma esforço, consciência da ignorância e desejo de aprender por meio de um questionamento bem conduzido.
    • A perspectiva era a do sujeito do conhecimento, ou seja, da alma.
    • O esforço de reminiscência convertia a exterioridade das opiniões em interioridade de um saber impossível de perder por ser “ligado”.
    • A figura geométrica possuía estatuto ontológico de imagem, obrigando a reflexão a se transportar para o “lugar inteligível”.
    • O único saber que Sócrates afirmou possuir era a diferença entre opinião correta e saber verdadeiro (Mênon 98b).
  • No Fédon, ao partir de qualquer sensação, Sócrates distingue que o sensível, ao contrário das realidades matemáticas, não impõe a superação de si mesmo, mas apenas oferece ocasiões para ela, as quais dependem de um olhar filosófico.
    • O resumo de Cebès revelava o quanto a reminiscência podia ser mal interpretada ao se esquecerem as mediações necessárias.
    • A reminiscência requer a dupla mediação do desejo e da reflexão.
    • O desejo vincula a uma realidade ausente; a reflexão permite compreender esse ausência como aspiração à semelhança.
    • Os exemplos de Sócrates indicam que é necessário o olhar e a reflexão de um amante ou de um filósofo.
  • A sensação, que em 65d aparecia como obstáculo ao pensamento puro, adquire no Fédon o estatuto de condição necessária da reflexão, pois viver implica perceber para aprender e se lembrar.
    • A vida e a sensação constituem simultaneamente o mal e o remédio.
    • O desejo próprio dos filósofos autênticos permite apreender o que falta no dado sensível e constitui esse dado como ponto de partida para a reflexão.
    • O ponto de partida não é a sensação em si mesma, mas a sensação refletida como deficiência.
  • O objeto percebido adquire estatuto de imagem imperfeita apenas para aquele que deseja a realidade que esse objeto evoca, pois sem desejo a percepção não suscita reflexão nem reminiscência.
    • Para quem não ama, a lira é apenas uma lira, não ocasião de reminiscência.
    • Sócrates não analisa a percepção em si, mas a semelhança ou dessemelhança entre o objeto percebido e a realidade visada por meio dele.
  • A reminiscência pode partir do dessemelhante ou do semelhante, mas em ambos os casos conduz sempre à constatação de uma deficiência do objeto em relação à realidade evocada.
    • Do dessemelhante: da percepção de uma lira à concepção do amado a quem ela pertence; ou do retrato de Simmias ao pensamento de Cebès.
    • Do semelhante: do retrato de Simmias ao próprio Simmias, necessariamente acompanhado da reflexão sobre o que falta à imagem.
    • O amante de arte encontra menos deficiência no retrato do que no original; apenas quem deseja a realidade sente a dor do que falta.
    • Reminiscência a partir do semelhante ou do dissemelhante: “na verdade, não há diferença alguma” (74c).
    • Pedaços de madeira percebidos como iguais manifestam-se inevitavelmente como desiguais sob perspectivas diferentes; a passagem ao igual em si parte sempre do dessemelhante.
  • No Mênon a reminiscência exigia a consciência do desconhecimento; no Fédon acrescenta-se a consciência da deficiência dos objetos sensíveis, deslocando a atenção da alma que busca saber para a natureza dos objetos que podem dar lugar a tal saber.
  • Para que as coisas dadas na percepção possam ser referidas às realidades a que aspiram, é preciso tê-las conhecido “antes”, mas Sócrates deixa ambígua a natureza desse “antes”, propondo então a questão de se o saber é inato e conservado ou perdido ao nascer e reaprendido pela experiência sensível.
    • “Antes” pode significar um tempo em que a alma existia sem ainda viver no corpo.
    • “Antes” pode também significar uma prioridade ontológica e epistemológica: o Igual em si não pode ser abstraído de percepções de pedaços de madeira iguais, sendo antes a condição dessas percepções.
  • Simmias declara-se incapaz de escolher entre as duas alternativas propostas por Sócrates, única indecisão atribuída a um interlocutor principal em todo o diálogo, revelando a impossibilidade de ambas as opções em termos absolutos.
    • Que todos saibam tudo sem aprender é evidentemente falso; logo, todos esquecem, e o esquecimento parece ligado à encarnação.
    • Mas a capacidade desigual de reaprender contradiz um esquecimento igual para todas as almas, o que levaria a pensar, como Sócrates afirmará no Fedro, que certas almas “viram” mais do que outras.
    • Sócrates havia dito duas vezes (75c, d) que “nós” possuíamos o saber de todas as realidades em si antes de nascer.
    • Introduzindo o critério de “prestar contas justas”, Sócrates oferece a Simmias uma escolha possível: “temo muito que amanhã, a esta hora, não haja mais nenhum homem capaz, de um modo que valha a pena mencionar, de fazer isso…” (76b).
    • Todos têm o direito de se lembrar, mas nem todos podem ou desejam fazê-lo, o que no fim equivale à mesma coisa.
  • Platão refaz aqui o mesmo percurso do Mênon, passando de um saber adquirido no tempo mítico anterior ao nascimento para um saber que pertence à alma no tempo do “sempre”, concluindo pela necessidade igual de existência das realidades em si e da alma pensante.
    • A diferença em relação ao Mênon está na posição das realidades em si, que torna possível partir de qualquer sensação como figura do inteligível.
    • Para isso, o desejo do filósofo deve levá-lo a refletir não apenas o que percebe, mas a própria percepção.
    • No Mênon, a ausência do filósofo e das realidades inteligíveis impunha a construção geométrica como ocasião de reminiscência, e Sócrates colocava no futuro todo o trabalho de mediação.
    • No Mênon, Sócrates identificava a “totalidade do tempo” ao “sempre” (Mênon 86a-b), pois a diferença entre eternidade atemporal e duração indefinida supõe a existência de realidades transcendentes a toda espécie de duração.
  • A “necessidade igual” (76e) invocada por Sócrates entre os seres em si e a alma pensante transporta o argumento para um plano em que o “sempre” dos seres em si é ontológico, não cronológico, e sua anterioridade também o é.
    • No Timeu, os inteligíveis existem “antes” que o demiurgo crie o mundo e o tempo, e o que está antes do tempo não pode se inscrever numa cronologia.
    • A alma é concebida como atividade puramente pensante, eterna enquanto em contato com realidades elas mesmas eternas.
    • O movimento de fazer recair perguntas e respostas sobre a essência do que é (75c-d) chama-se dialética.
    • Plotino se lembrará disso e sistematizará essa tradução de “antes” em “acima”.
  • O exercício dialético tem como condição a reminiscência: a alma deve aprender o que não vem de fora e lhe pertence exclusivamente, sendo esse saber essencialmente o que conhece sua diferença em relação à opinião, mesmo verdadeira.
    • Não há inatividade das Ideias; a reminiscência não é reminiscência das Formas, mas de um saber que só pode versar sobre seres em si.
    • Para reaprender, é preciso se libertar de duas crenças: a de crer que se sabe (Mênon) e a de crer na realidade exclusiva das coisas sensíveis (Fédon).
    • A alma provavelmente só empreende tal libertação contando a si mesma uma história de pertencimento e parentesco.
    • O postulado de um saber total possuído e perdido pela alma resume-se a: viver não ensina nada; é de si mesma e somente de si mesma que o pensamento tem tudo a aprender.
    • A vida e a morte são assuntos de seres vivos, não assuntos do pensamento, e esse tempo não tem sentido para ele.
    • “Onde encontraremos, Sócrates, um exorcista habilidoso nesse tipo de questão, já que você nos abandona…?” (77e-78a).
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