GÓRGIAS (ESPANHOL E PORTUGUÊS)
* A investigação dialética se inicia em um recinto indeterminado onde Socrates, acompanhado por Khairephon, interpela Gorgias acerca da essência da atividade que este professa, resultando na definição preliminar da retorica como uma arte que versa sobre os discursos; contudo, a análise socrática demonstra que tal delimitação é insuficiente, visto que outras artes também se utilizam da palavra, exigindo-se a precisão de que a retorica se ocupa do maior bem humano, qual seja, a produção da persuasão em assembleias e tribunais sobre o justo e o injusto. Ao distinguir entre a ciência, que é invariavelmente verdadeira, e a crença, que admite a falsidade, Socrates constata que a retorica é apenas artífice de uma persuasão que gera convicção desprovida de conhecimento cientifico, permitindo que o orador prevaleça sobre especialistas técnicos perante a multidão, embora tal poder não deva ser utilizado para fins injustos, sob pena de contradição dialética, uma vez que aquele que conhece verdadeiramente a justiça deve agir de forma justa. * A transição para a interlocução com Polos revela a tese de que a retorica não constitui uma arte autêntica fundamentada em princípios racionais, mas sim uma prática empírica e uma rotina de adulação comparável à culinaria, atuando como um simulacro que visa o prazer imediato em detrimento do bem real da alma. Nesse estágio, postula-se que cometer injustiça representa o maior mal que um indivíduo pode sofrer, invalidando a percepção comum de felicidade associada a figuras como Arkhelaos da Macedonia, pois o injusto que não é punido permanece em um estado de infelicidade superior àquele que paga por suas faltas, visto que o castigo atua como uma medicina necessaria para a alma enferma. A utilidade da retorica é, portanto, subvertida, servindo apenas para que o culpado denuncie a si mesmo a fim de se libertar da injustiça interior, em vez de ser utilizada para a defesa de crimes ou a manipulação de julgamentos. * Kallikles introduz uma ruptura radical ao defender o direito natural do mais forte, operando uma distinção fundamental entre a physis e o nomos para argumentar que a moralidade convencional é uma construção dos fracos para cercear os poderosos, e que a verdadeira excelência reside na satisfação plena de desejos ilimitados. Socrates refuta essa visão ao demonstrar que o prazer e o bem não são identicos e que a vida moderada é ontologicamente superior ao desenfreio das paixões, recorrendo a alegorias de procedência pitagorica para ilustrar a desordem de uma alma insaciável. A discussão culmina na constatação de que a finalidade da vida não deve ser a busca pelo agradável, mas a realização do bem, o que exige que a oratoria politica seja subordinada à justiça e à temperança em vez de se limitar à adulação da massa popular. * A critica à praxis politica de Athenas estende-se aos estadistas Temistocles, Cimon, Milciades e Perikles, os quais são descritos como servidores que apenas saciaram os apetites materiais da cidade sem promover o aperfeiçoamento moral dos cidadãos, função esta que Socrates reivindica para si como o único autêntico praticante da arte politica por buscar o bem real em vez do aplauso efêmero. A defesa do filosofo perante a iminência da morte e da incompreensão social reside na integridade de uma vida destituída de atos injustos contra os homens e os deuses, assegurando que o fim da existência biológica seja suportado com serenidade por aquele que se manteve puro de crimes. * O encerramento da obra ocorre por meio da exposição de um mito sublime acerca do juizo das almas no Hades, onde se estabelece que, após a morte, o indivíduo é julgado em sua nudez absoluta, sem as vestes ou o prestigio terrenos que poderiam induzir os juízes ao erro. O destino final das almas, entre as ilhas afortunadas e o Tartaro, é determinado pela saúde etica do ser, sendo que o castigo serve como purificação para as faltas reparáveis e como exemplo eterno para as injustiças incuráveis cometidas por detentores do poder, reforçando a conclusão de que o melhor gênero de vida consiste na pratica incessante da justiça e de todas as virtudes como preparação para o destino transcendente da alma.
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