Hiparco
Brisson
Sócrates e um interlocutor anônimo, que poderia ser um discípulo, procuram definir o que é o homem avarento, e sua discussão só é interrompida por uma apologia a Hiparco, o filho mais novo de Pisístrato, que foi tirano de Atenas no século VI.
Quatro definições são propostas pelo interlocutor.
1) Segundo a primeira, o homem ganancioso é aquele que acredita poder tirar proveito de coisas que não têm nenhum valor (225a-226e). Mas, se fosse esse o caso, estaríamos lidando com uma maioria de tolos, e ninguém seria ganancioso.
2) É preciso, portanto, atenuar essa primeira definição, dizendo que o homem avido quer tirar proveito de coisas que ele considera muito valiosas, quando na verdade elas não têm nenhum valor (226e-227d). Ora, se o dano é considerado um mal, o proveito deve ser considerado um bem. Consequentemente, o homem ganancioso busca o bem e, nesse caso, todos os homens são gananciosos, uma consequência que contradiz a primeira definição.
3) Para sair do impasse, uma terceira definição é proposta (227d-228b): o homem ganancioso é aquele que imagina poder tirar proveito de coisas das quais as pessoas honestas não procuram tirar proveito. Mas essa definição não é melhor do que a anterior, pois todos os homens, sejam eles honestos ou não, buscariam o bem. É então que o interlocutor desorientado acusa Sócrates de querer enganá-lo. Este último protesta (228b-229e), argumentando que sempre obedeceu à ordem de Hiparco: “Não engane seu amigo”.
4) Depois de retomar a discussão em outras bases (229e-230e), o interlocutor propõe uma nova definição que considera como vantagem qualquer posse que se adquire sem gastar nada ou gastando menos para receber mais (230e-231a). Mas, nesse contexto, como toda vantagem é um bem, voltamos (231b-c) ao que foi dito anteriormente. Além disso, essa definição de vantagem deve envolver não apenas a quantidade, mas também o valor (231c-e). E o que tem valor é útil e, portanto, um bem (231e-232b). E como todos os homens, honestos ou não, gostam do ganho, é forçoso concluir que todos os homens são gananciosos (232c).
Thrasylle classifica este diálogo na quarta tetralogia, que também inclui os dois Alcibiades e os Rivais. Mas Eliano (Histórias variadas VIII, 2), no início do século III d.C., expressa dúvidas sobre sua autenticidade, que de fato parece muito difícil de defender pelas seguintes razões: na República e nas Leis, a ganância é denunciada por Platão; na época de Platão, os assassinos de Hiparco eram considerados heróis, defensores da democracia; além disso, a técnica de discussão, que não leva a nenhuma conclusão positiva, assemelha-se às práticas em uso na Nova Academia.
Gredos
==== Da Autenticidade e da Classificação na Tradição Filosófica ==== * A investigação acerca da natureza da ganância, tema que na Republica IX é vinculado à região mais abjeta da alma individual e às configurações oligárquicas das organizações políticas, é conduzida sob o esquema de busca socrática por definições, embora a autenticidade do diálogo seja refutada de forma quase unânime pela erudição contemporânea, incluindo Souilhe, ao passo que Friedlander sustenta sua integridade dentro do corpus e Evans defende que a obra integra uma tetralogia autêntica composta por Minos, Hiparco, Teages e Rivais. * A inserção do Hiparco na quarta tetralogia por Trasilo, juntamente com Alcibiades I, Alcibiades II e Rivais, contrasta com a omissão operada por Aristofanes de Bizancio em suas trilogias e com as dúvidas históricas registradas por Eliano no século III, sugerindo que, embora a linguagem preserve a pureza do estilo ático dos séculos V e IV e guarde analogias superficiais com Eutifron, Hipias Maior, Menon e Protagoras, a obra pode ser o produto de um autor socrático familiarizado com a produção de Platao. * A análise de Souilhe situa a composição do texto em um período não posterior à publicação das obras de Tucidides na primeira metade do século IV, concluindo que o autor anônimo devia conhecer os primeiros diálogos de Platao, dos quais extraiu temas recorrentes na literatura corrente da época para compor uma peça que, apesar de possuir pouco interesse intrínseco para alguns críticos, permanece como um registro da recepção do pensamento socrático.
—
==== O Episódio Histórico de Hiparco e a Ironia Pedagógica ==== * O texto apresenta um interlúdio dedicado ao elogio fantástico e acentuadamente irônico de Hiparco, filho de Pisistrato, descrevendo sua iniciativa de estabelecer estátuas de Hermes com inscrições de máximas morais que visavam sobrepujar os preceitos de Delfos na orientação ética dos súditos, operando como um elemento de paródia que sublinha a pretensão de autossuficiência moral do tirano frente à sabedoria oracular. * A caracterização do tirano como alguém que erigiu monumentos com o próprio nome para educar o povo revela uma crítica velada à superficialidade da transmissão da virtude através de fórmulas prontas, exacerbando os elementos de burla que permeiam a discussão e que Friedlander identifica como componentes essenciais da ironia que sustenta a estrutura do diálogo.
—
==== As Definições da Ganância e os Impasses Lógicos ==== * A primeira tentativa de delimitação da ganância postula que os codiciosos seriam aqueles que buscam extrair proveito de objetos desprovidos de valor real, proposição que é invalidada pela constatação de que, se o agente possuísse ciência dessa insignificância, seria caracterizado meramente pela estultícia e não pela ganância, o que levaria à conclusão de que a existência de homens verdadeiramente codiciosos seria impossível, visto que ninguém busca o que reconhece como nulo. * A segunda formulação sugere que os gananciosos imaginam erroneamente que coisas de baixo valor são valiosas devido ao amor ao lucro, concebido como o oposto do prejuízo e, portanto, como um bem; todavia, tal tese implica que o ganancioso aspira ao bem como todos os outros seres humanos, o que anula a especificidade moral do vício e conduz a uma contradição lógica em relação às premissas de que a ganância é uma falha de caráter distinta da busca universal pela felicidade. * A terceira via argumentativa define o codicioso como aquele que acredita conseguir lucro em circunstâncias nas quais indivíduos honrados se absteriam, mas, ao aceitar que o lucro é intrinsecamente um bem e que a realização de um bem não pode produzir o seu oposto, Socrates conduz o interlocutor à perplexidade de admitir que todo lucro é um bem, provocando um embaraço conceitual que resulta no reproche ao filósofo por sua tática de confusão dialética.
—
==== A Conclusão Aporética e a Universalidade da Aquisição ==== * A fase final da investigação retira a afirmação de que ganhar é invariavelmente um bem devido à existência de ganhos malignos, porém, ao definir a ganância como a simples aquisição de algo positivo, conclui-se que todos os homens, independentemente de sua estatura moral, seriam necessariamente gananciosos, demonstrando a incapacidade da opinião comum em delimitar o conceito com o rigor exigido pela ciência ética. * O encerramento do debate sem uma saída adequada evidencia a incapacidade da sofística em desvelar e definir um conceito universal, reforçando o problema do intelectualismo ético de Socrates no qual a virtude é identificada com o saber, e revelando que o desvio da lógica observado no desenvolvimento do diálogo serve para expor a vacilação dos supostos sábios diante de problemas aparentemente elementares.
—
