Hípias Maior
Brisson
O Hipias Maior e o Hipias Menor têm como interlocutores principais Sócrates e o sofista Hipias de Elis. O Hipias Maior, como o próprio nome indica, é mais longo que o outro. Ambos se situam no mesmo local e no mesmo contexto: a discussão gira em torno de uma conferência (epídeixis) que Hipias acaba de fazer; a epídeixis era uma apresentação pública destinada a destacar a habilidade do orador e servir como vitrine publicitária. No Hipias Maior, Sócrates e Hipias se encontram três dias antes dessa conferência, enquanto no Hipias Menor, eles conversam logo após.
No Hipias Maior, Sócrates solicita a ajuda de Hipias para responder a uma pergunta que lhe foi feita por um interlocutor anônimo que o repreendeu por não explicar o critério que lhe permite distinguir entre o que é belo e o que é feio. O restante do diálogo trata, portanto, da definição do que é belo. Cada uma das definições propostas por Hipias, Sócrates e o interlocutor anônimo será examinada e refutada. Hipias começa dizendo que são coisas belas uma bela jovem (287e-289d), o ouro (289d-291c) e uma vida humana bem-sucedida (291d-293c). Esses três pontos de vista são rejeitados, pois se limitam a dar exemplos. O interlocutor anônimo que ajudou a refutar Hipias propõe, por sua vez, definir o belo como o conveniente (293c-294e): mas é preciso reconhecer que o conveniente é o que faz as coisas parecerem belas, não o que as torna belas. Por fim, Sócrates propõe três definições. Ele começa dizendo que o belo é o útil (295c-296d) ou o vantajoso (296d-297e); duas definições que são parcialmente refutadas. O diálogo termina com a assimilação, por Sócrates, do belo ao prazer que se obtém por meio dos olhos e dos ouvidos; essa definição (297e-303e) também é refutada ao final de uma discussão sobre a posse de uma mesma qualidade por vários seres ou de várias qualidades pelo mesmo ser. Finalmente, os interlocutores concordam em dizer que chegaram apenas a uma definição decepcionante e apenas verossímil do belo como prazer vantajoso.
No século XIX, as dúvidas levantadas contra a autenticidade do Hipias Maior baseiam-se nos seguintes elementos:
1) Aristóteles cita o Hipias Menor sob o título Hipias, sem nunca mencionar o Hipias Maior.
2) O Hipias Maior contém várias passagens cuja semelhança com trechos de outros diálogos é impressionante.
3) Por fim, o personagem Hipias é apresentado sem qualquer delicadeza, como se tivesse sido exagerado, o que é incomum em um diálogo platônico.
Gredos
===== A Natureza Aporética e o Problema da Autenticidade do Diálogo ===== * O Hípias Maior configura-se como um diálogo essencialmente aporético, uma vez que o problema central proposto permanece sem resolução ao término da discussão, apresentando uma extensão que duplica a do Hípias Menor e justificando assim a nomenclatura comparativa que os distingue na tradição manuscrita; embora a autenticidade da obra tenha sido alvo de contestações por parte de diversos filólogos nos últimos dois séculos, a ausência de questionamentos na Antiguidade e a profunda conformidade estilística, filosófica e formal com o restante do corpus de Platão sustentam sua atribuição ao autor.
===== A Investigação da Essência do Belo e a Estrutura Dialógica ===== * A questão fundamental debatida reside na definição do belo em si mesmo, buscando identificar a essência universal que deve submeter todas as coisas consideradas belas para que estas recebam tal denominação, estruturando-se a obra a partir de uma introdução artística que se estende até o ponto em que a investigação ontológica assume o protagonismo; a interdependência entre o tema e os interlocutores é absoluta, sendo impossível dissociar a busca pela verdade da presença de Sócrates e de Hípias, cujas participações são delineadas com tal precisão que cada linha do texto parece ter sido redigida considerando as características específicas de ambos.
===== A Dinâmica do Embate: Ironia, Agressividade e Personalidade ===== * A obra destaca-se pela intensidade da ironia socrática e por uma agressividade recíproca que ultrapassa os níveis habituais encontrados em outros diálogos platônicos, manifestando uma irritação por parte de Hípias e uma dureza satírica por parte de Sócrates que sugerem uma inimizade latente e pessoal; tal hostilidade difere do apaixonamento observado no embate com Cálicles no Górgias, pois no Hípias Maior a ironia é frequentemente direcionada à desqualificação da pessoa do interlocutor antes mesmo que os argumentos propriamente ditos sejam submetidos ao escrutínio dialético.
===== Hípias e a Representação Crítica da Sofística ===== * A decisão de Platão em confrontar Sócrates e Hípias em duas ocasiões distintas parece decorrer da relevância de Hípias como o sofista de maior prestígio em um período em que figuras como Protágoras já haviam falecido e Górgias atingira uma idade avançada, embora o retrato oferecido nas obras tenda a enfatizar a vaidade e a pretensão de onisciência do personagem em detrimento de seus méritos intelectuais objetivos; a representação de Hípias como um poço de vaidade serve como um instrumento pedagógico para evidenciar as limitações da sofística, ainda que tal juízo possa não fazer justiça à totalidade da estatura histórica e intelectual do sofista real.
===== A Transição Filosófica e a Teoria das Ideias ===== * O debate sobre o belo em si no Hípias Maior levanta a problemática de se este conceito já representaria o estágio inicial da teoria das ideias, assemelhando-se a passagens encontradas no Eutífron onde a busca pela unidade da virtude aponta para uma realidade transcendente; contudo, a análise do contexto geral indica que o pensamento ainda se encontra vinculado aos moldes da abstração socrática, tornando difícil a tarefa de determinar um ponto exato de ruptura onde a investigação conceitual termina e a formulação da metafísica das formas plenamente constituída tem início.
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