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Hípias Menor

Brisson

Hippias Menor propõe uma interpretação platônica de uma passagem da Ilíada (IX 308-314) em que Aquiles, apresentado como o mais simples e sincero dos heróis, seria, segundo a tradição, melhor do que Ulisses, “o de mil artimanhas”. Enquanto Hipias admite a interpretação tradicional, Sócrates decide submeter essa opinião comum a uma investigação tão séria quanto minuciosa (364b-365d). O argumento é simples: se o engano resulta de um ato intencional e de uma escolha racional, como concluir que Ulisses é pior do que Aquiles? Na verdade, é o homem competente, aquele que é o melhor em tal ou tal área, que sabe melhor enganar. Ora, se enganar é fazer o mal, como reconhece Hipias, chegamos a esta conclusão paradoxal e chocante: é aquele que é bom que faz o mal. Na verdade, Sócrates joga com a ambiguidade do adjetivo bom (agathós) e do superlativo melhor (áristos), que mudam de significado dependendo do contexto: em um contexto técnico, trata-se de competência, enquanto que, em um contexto ético, trata-se de conduta. No entanto, isso parece contradizer o princípio fundamental da ética socrática e platônica, segundo o qual a virtude e o conhecimento coincidem (365d-366c). Mas Hipias não parece compreender o que está em jogo no debate. Sócrates prossegue então sua análise questionando o sofista sobre as numerosas competências que ele afirma possuir (366c-369d). A mesma conclusão volta sob outra forma: se a justiça é uma ciência da alma e se o conhecimento é a condição para o engano, é preciso admitir que a alma mais justa será também aquela que melhor engana (369d-375a), uma consequência que é rejeitada tanto por Hipias quanto por Sócrates (375a-376b).

Como Aristóteles corretamente observa (Ética a Nicômaco VIII 3, 1145b), o tema da discussão é o que se entende por conhecimento (sophía). Se, como em Hipias, o saber (sophía) é entendido como a posse de um certo número de conhecimentos teóricos que proporcionam competências técnicas e capacidades práticas sem a intervenção de qualquer consideração ética, continuamos prisioneiros da doutrina epistemológica e ética dos sofistas: o saber torna-se um saber-fazer, em si mesmo indiferente ao bem e ao mal, que, por sua vez, permanecem à apreciação do agente. O diálogo não pode chegar a uma conclusão positiva, pois tal solução passaria por outra definição do saber (sophía), distinta do saber-fazer e indissociável de uma dimensão ética que culmina na consideração do bem.

Gredos

* A estrutura, o planejamento e a fundamentação argumentativa do diálogo intitulado Hípias Menor seguem rigorosamente o esquema socrático, embora a marca estilística de Platão seja onipresente, elevando a discussão a um patamar de absurdo raramente atingido em outras obras da mesma fase, o que sugere uma intenção deliberada do autor em expor a fragilidade intelectual do sofista Hípias ao abordar um debate fundamentado, incorrendo em desvios lógicos que tensionam a condução do pensamento. * A caracterização de Hípias revela um homem que, apesar de gozar de considerável estima entre seus contemporâneos por seu empenho na aquisição de conhecimentos diversos, carecia de uma escala de valores normativa que pudesse sustentar tal erudição, resultando em uma personalidade dominada pela vaidade e por uma pretensão de onissapiência e autossuficiência que se manifesta claramente após sua conferência sobre a obra de Homero. * O início do diálogo ocorre de forma indeterminada no tempo e no espaço, imediatamente após a exposição pública de Hípias sobre os poemas homéricos, momento em que Sócrates, instigado por Éudico, discípulo ateniense do sofista, propõe uma inquirição que visa determinar quem, entre as figuras de Aquiles e Odisseu, seria o melhor, expondo a incapacidade de Hípias em realizar a distinção necessária entre a excelência moral e outras acepções técnicas do termo. * A investigação sobre a superioridade de caráter dos heróis homéricos culmina em uma severa crítica ao modo de saber da sofística, demonstrando que o sofista é incapaz de oferecer uma solução para problemas aparentemente elementares e que a ausência de definições precisas gera uma vacilação que acomete tanto os supostos sábios quanto os inexperientes, evidenciando a limitação do pensamento sofístico em desvelar e definir conceitos universais em um tema dado. * A inclinação de Hípias para o saber enciclopédico, que prioriza a amplitude informativa em detrimento da profundidade analítica, é identificada como o estágio embrionário da história da literatura, uma vez que o estudo sistemático de personagens literários representava uma atividade intelectual inovadora, embora no contexto deste diálogo sirva apenas como pretexto para que Sócrates conduza o debate para o terreno do intelectualismo ético e da dialética pura. * A argumentação socrática estabelece que aquele que possui a competência técnica para realizar uma tarefa com perfeição é, paradoxalmente, o mais capacitado para executá-la de forma errônea por vontade própria, visto que apenas o perito pode falhar deliberadamente sem cometer um erro por imperícia, ao passo que o inexperto poderia realizar o ato correto apenas por mera casualidade ou sorte. * A transposição desse raciocínio para a esfera da moralidade conduz à conclusão aporetica de que seria próprio do homem bom cometer injustiça voluntariamente, enquanto o mau o faria involuntariamente, uma tese que o próprio Sócrates não pode admitir por intuição, mas que é imposta pela força dos raciocínios lógicos empregados na busca da verdade, revelando o conflito latente na filosofia platônica entre a demonstração dialética e as exigências objetivas do senso comum.

Gostaria que eu realizasse uma análise sobre as implicações éticas do paradoxo da injustiça voluntária na transição do pensamento de Sócrates para o de Platão?

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