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Íon

Brisson

Ion é um rapsodo: vestido com roupas coloridas, ele declama poemas do alto de um palco, acompanhando-se com uma cítara, em concursos realizados durante festas organizadas pelas cidades. Quando abordado por Sócrates, Ion acaba de chegar a Atenas para participar do concurso que acontece durante a festa das Panateneias. Ion, que se considera o melhor dos rapsodos, dedica-se a Homero, o melhor dos poetas, cujos poemas interpreta e cujos versos também explica. Ion escolheu Homero porque ele é um poeta inspirado pela divindade. Ora, por meio do rapsodo, estende-se, entre o poeta e seus ouvintes, uma corrente pela qual a inspiração se transmite como um ímã cujo poder misterioso atrai simultaneamente vários anéis de ferro. O rapsodo, que não possui nenhuma arte, nenhuma técnica quando consegue tocar aqueles que prestam atenção à sua interpretação, também não a possui quando faz o trabalho de exegeta. Nenhum dos temas abordados por Homero escapa à competência do rapsoda; mas é preciso admitir que, competente em todas as coisas, ele não é, na verdade, competente em nada. Portanto, ele não possui nenhuma arte, nenhuma técnica, nenhum conhecimento, como é o caso de muitos desses especialistas cuja vaidade Sócrates denuncia.

Este breve diálogo aborda a poesia não do ponto de vista da arte ou da técnica, mas do ponto de vista da inspiração. É isso que lhe valeu um estatuto muito especial entre aqueles para quem a poesia dá acesso a um “outro lugar”.

Gredos

==== Da Autenticidade e do Percurso Filosófico do Diálogo Ion ==== * A controvérsia acerca da inautenticidade do diálogo Ion, inaugurada por Constantin Ritter em 1910 a partir de evidências estilísticas, confronta-se com a percepção de que a densidade e a profundidade desta obra encerram temas fundamentais do pensamento de Platão, sendo considerada por H. Flashar como um texto exemplar que inicia uma trajetória filosófica culminando nas Leis, após perpassar as reflexões contidas no Mênon e no Fedro, o que reafirma a significância deste escrito para a compreensão integral da filosofia platônica e de sua evolução temática ao longo do tempo.

==== Da Função Pedagógica do Rapsodo e da Natureza da Inspiração ==== * O personagem do rapsodo Ion revela a importância histórica desses cantores itinerantes que estabeleceram os fundamentos da educação na Grécia Antiga e se organizaram em agremiações voltadas à transmissão da tradição homérica, de modo que o interesse desta obra reside em postular que o contato com a poesia não advém de uma tekhne ou de um aprendizado metodológico, mas de uma predisposição sagrada que opera por meio de uma cadeia magnética que magnetiza todos os seus eslabões, conectando a Musa ao rapsodo e este ao seu público, conforme a tradição de inspiração presente em Homero e Hesiodo e anteriormente mencionada por Demócrito.

==== Do Conflito entre a Inteligência Racional e o Entusiasmo Poético ==== * A estrutura dialógica do Ion, centrada nos monólogos de Sócrates, ultrapassa a interpretação puramente irônica proposta por Goethe em 1796 para estabelecer uma distinção ontológica entre o conhecimento racional e a inteligência, denominada nous, que permite a organização de saberes em sistemas conceituais fundamentados, e o fenômeno do arrebatamento ou entusiasmo, no qual o poeta atua como um transmissor de mensagens das quais ele próprio é incapaz de oferecer uma explicação racional por estar submergido em um estranho poder cósmico que lhe retira a clareza intelectual. * A caracterização do poeta como uma coisa leve, alada e sagrada, somada à descrição de que os poetas são aqueles que nos dizem que, como as abelhas, colhem os cantos que nos oferecem de fontes melífluas presentes em certos jardins e bosques das musas, serve para Platão situar essa forma de apreensão poética em um plano inferior ao rigor oferecido pela técnica, uma vez que o sujeito lírico não possui o domínio sobre o saber que manifesta e depende de uma influência externa para realizar sua atividade.

==== Da Aporia Linguística e do Fundamento Político do Logos ==== * A persistência da aporia acerca do objeto específico da atividade poética no contexto do diálogo deriva da ausência de uma compreensão do logos como entidade histórica dotada de entidade própria, elemento que seria desenvolvido posteriormente no Crátilo e no Fedro, indicando que os elos da corrente magnética descrita por Sócrates podem ser interpretados como a própria linguagem, o vínculo intersubjetivo fundamental que, de acordo com a Política de Aristóteles, possibilita a fundação da realidade concreta da polis na retícula abstrata das palavras.

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