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Laques

Ruiz & Lledó & Gual

* O diálogo intitulado Laques manifesta as propriedades fundamentais características das obras da primeira fase da produção de Platão, distinguindo-se por uma extensão concisa, uma estrutura dramática despojada de ornamentos excessivos e um encerramento aporético, voltando-se primordialmente para a tentativa de definir a virtude tradicional da andreia, ou valor. Como é recorrente nas inquirições de Sócrates, a investigação desta excelência específica surge intrinsecamente vinculada a questões de igual relevância, tais como a problemática da educação dos filhos e a tese de que tal virtude mantém uma relação de parte para o todo com a arete considerada em sua generalidade. A única conclusão dotada de validade neste colóquio reside no rechaço sistemático de opiniões admitidas sem o devido escrutínio analítico e no reconhecimento franco da ignorância dos interlocutores quanto à essência da virtude submetida a exame, o que impulsiona o compromisso com uma busca incessante pela verdade. * A delimitação temática desta obra sugere uma proximidade teórica com o Protágoras, diálogo que viria a reiterar e aprofundar alguns dos motivos centrais aqui delineados, enquanto a simplicidade do planejamento dialético e a ausência de terminologia filosófica especializada permitem inferir que a composição do Laques seja anterior a diálogos como Eutífron, Lisis e Cármides. A vivacidade da interação dialógica deve-se à habilidade de Platão em configurar a personalidade dos intervenientes com traços precisos, tirando proveito do contraste entre dois generais apresentados como peritos na matéria, o impetuoso Laques e o educado Nícias, cuja rivalidade no terreno intelectual confere ao debate um matiz humorístico que se soma à presença de Lisímaco, um cidadão honrado preocupado com a formação de sua descendência, e à figura de Sócrates, mestre na arte da interrogação ironicamente incisiva. * O cenário do encontro é um ginásio público em Atenas, logo após a assistência de uma representação de hoplomachia, um simulacro de combate com a panóplia completa do hoplita executado por um especialista, servindo como ponto de partida para as inquietações de Lisímaco, filho de Aristides, o Justo, e Melésias, filho de Tucídides, o antigo opositor político de Péricles. Ambos os pais, herdeiros de figuras ilustres mas que não realizaram feitos dignos de sua ascendência nobre, buscam na educação um meio para que seus filhos superem a mediania histórica e restaurem o renome da linhagem, refletindo o clima social de uma Atenas democrática onde os sofistas se ofereciam como instrutores de virtude para a juventude. A hesitação destes cidadãos quanto à utilidade pedagógica da hoplomachia e a valorização de uma formação em artes marciais sinalizam tanto o caráter conservador de sua classe quanto uma profunda desorientação acerca dos fundamentos da educação futura. * A presença de Laques e Nícias, ambos estrategos de renome na história militar de Atenas, introduz perspectivas divergentes sobre o conceito de valor, sendo que Laques, que viria a falecer na batalha de Mantineia e que testemunhou a bravura de Sócrates na retirada de Delion, é retratado como um homem de caráter veemente, nobre e elementar. Em contrapartida, Nícias emerge como uma figura de cultura refinada, responsável pela educação musical de seu filho sob a orientação de Dâmon, discípulo de Pródico, e familiarizado com o método socrático de investigação. A tensão entre ambos torna-se evidente quando Nícias, aludindo às premissas socráticas, sustenta que o valor é uma forma de saber, especificamente uma episteme daquilo que é temível ou confortador, o que desperta a oposição de Laques, o qual previamente postulara que o valor seria uma virtude do temperamento, situada em uma esfera alheia à racionalidade, proposição esta que já havia sofrido a refutação socrática. * O desenvolvimento da discussão culmina na constatação de que nenhum dos generais, apesar de sua fama e experiência, é capaz de oferecer uma explicação racional da virtude pela qual teoricamente se destacariam entre os atenienses, uma vez que a definição intelectualista proposta por Nícias revela-se inespecífica ao parecer aplicar-se à virtude em sua totalidade e não apenas ao valor. A crítica socrática à conduta de Nícias, sugerindo que o general deve comandar os adivinhos e não ser comandado por eles, ressoa como uma observação mordaz sobre a indecisão histórica deste general na expedição contra a Sicília e seu trágico final, conforme os relatos de Tucídides. O diálogo encerra-se com a promessa de Sócrates de retomar o debate sobre a educação dos jovens, deixando estabelecido que o reconhecimento da própria falta de conhecimento é o estágio indispensável para qualquer processo formativo autêntico.

Brisson

* A preocupação central manifesta por Lysimaco e Melesias, herdeiros diretos das linhagens ilustres de Aristides e Thucydides, reside na constatação de uma deficiência formativa herdada de seus progenitores, os quais, ocupados com as exigências da administração pública, não lhes proveram a educação necessária para a conquista da gloria e do renome, impulsionando a busca por um modelo pedagógico superior que assegure o futuro de sua própria descendência. * A convocação de Nicias e Lakhes, figuras de proeminente atuação na esfera militar e política de Athenas, para testemunharem uma epideixis, ou demonstração técnica, de hoplomakhia executada pelo mestre de armas Stesilas, constitui o ponto de partida para um escrutínio rigoroso sobre a validade dessa disciplina específica como instrumento de aperfeiçoamento moral e técnico dos jovens. * O dissenso inicial entre Nicias e Lakhes acerca do valor educativo do combate em armas revela uma oposição retórica marcada por discursos extensos e antagônicos, em que o primeiro defende a utilidade da prática enquanto o segundo manifesta um ceticismo profundo, evidenciando a necessidade de uma mediação superior que transcenda a mera opinião e se ancore em um saber especializado sobre a formação humana. * A transição do debate para uma estrutura verdadeiramente dialética ocorre com a intervenção de Socrates, que redireciona o foco da discussão da técnica exterior para o cuidado com a psykhe, ou alma, postulando que qualquer deliberação sobre o ensino deve ser precedida pela identificação de um perito na cura e no desenvolvimento das almas, embora o próprio Socrates reconheça sua impuissance e limite sua atuação ao exercício do elekhos, o método de refutação por meio de perguntas e respostas breves. * A investigação sobre o cuidado da alma conduz inevitavelmente à necessidade de definir a arete, ou virtude, pois se torna impossível determinar o tratamento adequado a uma faculdade sem que se compreenda a sua excelência própria, optando-se, em razão da complexidade do tema, por examinar apenas uma de suas partes constituintes, a coragem, como objeto de análise imediata. * A primeira tentativa de definição proposta por Lakhes, que identifica a coragem como o ato de manter a posição nas fileiras de combate sem recuar diante do inimigo, é prontamente invalidada por Socrates ao demonstrar que tal descrição é insuficiente por ser restrita ao âmbito militar e ignorar a multiplicidade de contextos em que a coragem se manifesta, exigindo uma compreensão mais universal do conceito. * A segunda proposição de Lakhes define a coragem como uma firmeza refletida da alma, porém Socrates submete essa tese a uma crítica rigorosa ao apontar que nem toda firmeza acompanhada de reflexão constitui virtude, ao passo que existem atos de firmeza irrefletida que guardam em si o caráter de coragem, sugerindo que tal atributo deve estar vinculado a um saber que Lakhes não consegue circunscrever com precisão. * Nicias introduz uma nova perspectiva ao conceber a coragem como o conhecimento daquilo que deve inspirar temor ou confiança, uma tese que sofre a oposição imediata de Lakhes, o qual questiona a exclusividade desse saber ao notar que ele não parece pertencer nem ao médico, nem ao adivinho, nem a outras categorias de especialistas técnicos. * A análise socrática sobre a proposta de Nicias revela que, se a coragem é um conhecimento do que é temível ou não, ela não pode ser acessível de forma indiscriminada, mas pertence apenas àqueles que possuem uma ciência certa sobre os perigos, devendo tal conhecimento abranger não apenas as circunstâncias presentes, mas também as realidades passadas e as expectativas futuras. * A reformulação final de Nicias, que expande a coragem para a ciência de todos os males e de todos os bens em todas as épocas, acaba por dissolver a especificidade do objeto de estudo, pois ao tentar definir uma parte da virtude, o interlocutor acaba por definir a totalidade da arete, resultando em um estado de aporia em que o fracasso da discussão demonstra a necessidade imperativa de que todos os presentes busquem um mestre capaz de instruí-los sobre estas questões fundamentais.

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