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3. Mênon e Anytus (Mênon 86d-96d)
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A transição para a segunda parte do diálogo opera uma inversão entre a exibição dramática da ignorância e a investigação dialética da virtude como saber.
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A primeira metade da obra define a identidade de Meno como o arquétipo da não-virtude, indissociável de sua incapacidade de apreender totalidades.
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A tese de que a virtude é conhecimento, discutida formalmente na sequência, encontra seu correlato prático na demonstração de que a ausência de virtude provém da cegueira intelectual.
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A unidade do diálogo repousa na simetria entre o que é encenado através do caráter dos interlocutores e o que é enunciado proposicionalmente por Socrates.
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O exame da hipótese de que a virtude é conhecimento resulta em um impasse provisório sobre a possibilidade de sua transmissão por meio do ensino.
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Socrates adota o método hipotético, inspirado na geometria, para investigar se a natureza da virtude permite que ela seja ensinada.
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A identificação da virtude com o conhecimento baseia-se na premissa de que apenas o que é guiado pela inteligência pode ser verdadeiramente vantajoso e bom.
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A conclusão de que a virtude deve ser ensinável é imediatamente confrontada pela inexistência empírica de mestres, sejam eles sofistas ou cidadãos ilustres de Atenas.
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“Visto que a virtude é algo bom, ela é vantajosa; mas para que algo seja vantajoso, deve ser usado corretamente, ou seja, com conhecimento; portanto, a virtude é conhecimento, seja no todo ou em parte.”
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A entrada de Anytus introduz uma nova dimensão ao problema da mediação, contrastando a opinião sobre o todo com o apego de Meno às partes.
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Anytus personifica a adesão incondicional às tradições da cidade e o desprezo dogmático pelos sofistas, mesmo sem possuir experiência direta com eles.
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Enquanto Meno se perde na multiplicidade dos casos particulares sem atingir a unidade, Anytus professa um conhecimento do todo que ignora a complexidade das partes.
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Socrates caracteriza Anytus como um mantis (vidente) por sua pretensão de julgar essências sem o crivo da experiência ou da análise dos componentes individuais.
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“Você deve ser um vidente, Anytus, pois de que outra forma você saberia sobre eles, julgando pelo que você mesmo me diz, eu não consigo imaginar.”
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O conflito entre a ensinabilidade teórica da virtude e a ausência prática de professores revela a insuficiência de uma definição puramente técnica de saber.
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A busca por professores entre os grandes homens do passado de Atenas fracassa ao demonstrar que pais virtuosos frequentemente não conseguem transmitir sua excelência aos filhos.
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Meno manifesta perplexidade diante da contradição entre os discursos que ora afirmam, ora negam a possibilidade do ensino da virtude, como exemplificado nos versos de Theognis.
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A incapacidade de Meno em conciliar as opiniões divergentes reflete sua cegueira para a síntese proposta pelo mito da reminiscência.
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“Você vê como ele se contradiz?”
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A dialética entre Socrates, Meno e Anytus expõe a necessidade de um conhecimento que transcenda a mera técnica (techne) e a opinião herdada.
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O diálogo sugere que se a virtude for conhecimento, trata-se de um saber de ordem distinta daquele possuído por artesãos como o sapateiro.
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A mediação entre o todo (defendido por Anytus) e as partes (colecionadas por Meno) só é possível através da recordação de uma verdade que a alma já habita.
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A paralisia da investigação em Meno e o dogmatismo em Anytus servem como obstáculos que a anamnesis visa superar ao reintegrar o saber na interioridade do sujeito.
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