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Ignorância e reminiscência

SALLIS, John C. Being and logos: reading the Platonic dialogues. 3. ed ed. Bloomington: Indiana Univ. Press, 1996.

  • O Menon é uma apresentação concreta do lado da prática de Sócrates pelo qual ele está ligado à cidade, cumprindo seu serviço distintivo principalmente por meio de seu envolvimento com a ignorância.
    • Na sua forma mais evidente, esse envolvimento com a ignorância consiste em expor a ignorância dos homens e, principalmente, a ignorância de sua própria ignorância.
    • O Menon é uma apresentação da exposição da ignorância de Mênon realizada por Sócrates em palavra e em ato.
    • No Menon, Sócrates não apenas é acusado de picar aqueles com quem entra em contato (embora, significativamente, como “arraia” e não como “moscardo”), mas também, perto do fim do diálogo, um daqueles que mais tarde o acusaria publicamente, Ânito, aparece em cena e adverte abertamente Sócrates do perigo a que sua prática o expõe (94e).
    • A prática de Sócrates na cidade é um testemunho da relação intrínseca entre a ignorância e a sabedoria humana: expõe a ignorância dos outros não para se exaltar, mas para tornar concretamente manifesto como a ignorância e, sobretudo, a consciência dessa ignorância pertencem essencialmente à sabedoria propriamente humana.
  • Uma maneira mítica de falar sobre essa relação entre ignorância e sabedoria humana é concebê-la como ligada à reminiscência, e esse é o caminho tomado no Menon.
    • A sabedoria humana, nessa perspectiva mítica, é apresentada como essencialmente dependente da recordação daquilo que a alma conheceu numa existência anterior.
  • Em sua forma mais fundamental e unitária, a questão em jogo no Menon é a relação entre o todo e as partes, e grande parte do esforço interpretivo deve ser dedicado a considerar como essa questão unitária reúne em si os muitos temas abordados ao longo do diálogo.
    • O Menon traz à luz o comportamento apropriado do homem como aquele que medeia entre parte e todo, exibindo tal mediação como o que permite ao homem ser o que propriamente é.
    • Uma vez que aquilo que permite ao homem ser o que propriamente é constitui nada menos do que a própria virtude humana (arete: cf. Rep. 353b-e), o que o diálogo traz à luz é a virtude.
    • O Menon é, num sentido fundamental e múltiplo, um diálogo sobre a virtude.
  • Para estar em consonância com a determinação preliminar do modo do diálogo platônico, é imperativo que a tentativa interpretiva esteja sintonizada desde o início com as múltiplas dimensões do Menon e com o jogo que se desdobra no diálogo como um todo.
    • É preciso ver como a questão do todo e das partes é fundamental em cada uma das dimensões do diálogo: como é retomada no logos e posta de modo a reunir em unidade os vários temas explicitamente discutidos; como é a questão mais fundamental no mito que Sócrates narra no centro do diálogo; e, finalmente, como é retomada na dimensão do ergon ao ser refletida no que se exibe sobre os caracteres do diálogo.
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