platao:politico:gredos
M.ª Isabel Santa Cruz
GREDOS. Diálogos de Platón.
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O desenvolvimento do diálogo O Político articula-se em cinco grandes momentos, passando da definição preliminar do político como pastor do rebanho humano até sua definição final como tecelão real.
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O método de divisão dicotômica serve de ponto de partida, tendo como gênero inicial a arte ou ciência, da qual o político é indubitavelmente possuidor.
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A transição entre as seções se dá de modo natural, e o diálogo mantém cuidadosa articulação interna entre os diferentes temas.
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Uma breve introdução fixa o tema em estreita conexão com o desenvolvido no Sofista (257a-258a).
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Platão não se limita a aplicar o método de divisão dicotômica, mas introduz uma reflexão sobre sua natureza e as normas a que se deve ajustar para um uso correto.
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O Jovem Sócrates comete o erro de dividir apressadamente o gênero criação em criação de animais e criação de homens, o que serve de pretexto para uma verdadeira lição de método.
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A divisão correta deve respeitar as articulações da realidade: cada seção resultante deve ser simultaneamente uma parte e uma espécie, e não apenas uma parte.
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Platão distingue eidos de meros: toda espécie é sempre parte, mas nem toda parte é necessariamente uma espécie; a divisão deve sempre se fazer por espécies.
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Como eidos significa tanto espécie quanto forma, e essas noções são inseparáveis para Platão, a ordem lógica e a ontológica se correspondem plenamente, e a divisão correta é aquela que separa respeitando as articulações naturais da realidade (262a-264b).
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As prolixas divisões realizadas ao longo do diálogo carregam uma boa dose de ironia, dirigida provavelmente ao uso excessivo desse procedimento entre os acadêmicos.
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Corrigido o erro do Jovem Sócrates, a divisão prossegue até a definição do político como pastor do rebanho humano, que o Jovem Sócrates considera o termo da investigação, mas que o Estrangeiro julga imprecisa e incompleta.
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Pastor é uma noção demasiado ampla e geral, que abrange não apenas o político, mas uma multitude de indivíduos igualmente dedicados à criação do rebanho humano (267b-c).
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O próximo passo consiste em separar o político de todos os demais pastores, o que exige evidenciar e corrigir o erro da definição inicial (267d-268c).
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Para corrigir a definição e inserir a política no quadro mais amplo do cosmos, Platão recorre a um extenso mito sobre a reversão periódica do universo e suas consequências para as condições da vida humana.
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O mito, introduzido quase abruptamente e em contraste com o tecnicismo precedente, tem significação cosmológica aparentada com a do Timeu, antecipando-o em alguns aspectos.
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No primeiro período, em que o deus conduz o universo, a inteligência impõe plena ordem sobre todo elemento corpóreo; no segundo, abandonado o universo pelo deus, a tendência dissolvente o arrasta para a região infinita da dessemelhança (273d).
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O mito adverte que é impossível tratar a política e a função do político sem considerar as reais condições da vida humana: o político que se busca não é um personagem lendário da era de Cronos, mas um homem de carne e osso, de natureza e formação semelhantes às de seus súditos.
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A definição do político deve portanto partir da estrutura real da sociedade e do modo de vida concreto dos homens.
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Concluído o mito, o Estrangeiro recorda que ele serviu para evidenciar o duplo erro da definição inicial, e propõe deslocar o acento de criação para cuidado, distinguindo o cuidado compulsivo do voluntariamente aceito.
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Chega-se assim a uma segunda definição: o político é aquele cuja função é oferecer cuidado a um rebanho humano que o aceita de bom grado (274c-277a).
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O Jovem Sócrates considera novamente alcançado o termo da busca, mas o Estrangeiro ainda não está satisfeito, pois a definição não é clara nem completa.
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Para elaborar a definição com mais precisão, recorre-se a um procedimento ainda não ensaiado: o uso de um modelo, cujo emprego é previamente explicado.
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Para explicar o que é um modelo, usa-se outro modelo: o das crianças que aprendem as primeiras letras, partindo de sílabas simples e conhecidas para compreender as mais complexas e desconhecidas.
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O uso de um modelo supõe um procedimento por analogia e é método de ensino, não de descoberta: a escolha do modelo pressupõe o conhecimento prévio da analogia estrutural entre ele e aquilo para o qual é escolhido.
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O modelo escolhido para a política é a arte de tecer vestidos de lã, porque o Estrangeiro já sabe de antemão que a estrutura da tecelagem coincide com a do arte político (279a-283b).
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A prolixidade empregada para definir a arte de tecer serve de pretexto para introduzir uma reflexão sobre o arte de medir e a justa medida, questão de primeira magnitude no diálogo (283b-287b).
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Há dois tipos de medida: a que considera a relação de uma coisa com seu contrário, e a que considera a relação com a justa medida; a primeira é relativa, a segunda é absoluta e se serve de um padrão permanente.
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Todas as artes buscam preservar a justa medida, evitando o excesso e o defeito, e é nessa preservação que reside o critério para julgar a bondade de seus produtos.
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O padrão absoluto adquire diferentes modalidades segundo o âmbito em questão: o conveniente, o devido, o oportuno, conforme o que a situação demande (284e).
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Essas modalidades são expressões diversas do âmbito perfeito e paradigmático das Formas imutáveis, que afloram nessa seção central do Político e sustentam seu andaime.
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Com as lições do mito e da justa medida incorporadas, retoma-se a definição do político sobre o modelo da tecelagem, distinguindo-o de todas as demais funções sociais e dos falsos políticos.
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Passam-se em revista os diferentes funcionários subordinados ao político rei (287b-290e), que são excluídos, assim como os pseudopolíticos, coro de sofistas embusteiros que fingem ser políticos sem o ser (290e-291d).
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Enumerados os diferentes regimes de governo possíveis, insiste-se em que o verdadeiro político é aquele que possui a arte de governar, independentemente de ser rico ou pobre, de governar com ou sem o consentimento dos súditos, com ou sem leis (291d-293c).
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O Jovem Sócrates aceita tudo, exceto que o político possa governar sem leis (293e-294a), o que introduz uma reflexão sobre a natureza da lei, mostrada como recurso necessário e inevitável na ausência do verdadeiro político dotado de arte (294a-300a).
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Os regimes de governo são reordenados conforme sua maior ou menor bondade, sendo todos eles meras imitações diante do único regime perfeito e paradigmático: aquele chefiado pelo homem dotado de arte.
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O político é definido finalmente como tecelão real, cuja obra de coordenação funda-se no saber dos padrões absolutos e perfeitos, saber que o coloca acima da lei.
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Vigor e moderação constituem a trama e o urdume da sociedade, e o arte político consiste em saber tecê-los adequadamente para produzir o mais harmonioso e belo dos tecidos (309a-311c).
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O político que possui o saber não é senão o filósofo: se no Sofista a figura do filósofo se delineava por contraposição à do sofista, que se refugiava nas trevas do não ser, no Político o filósofo se exibe positivamente, como tecelão real que coordena a sociedade por ser o único a possuir o saber do mundo das Formas e de seu adequado entrelaçamento.
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Isso explica por que Platão nunca escreveu um diálogo chamado Filósofo, nem tinha intenção de fazê-lo.
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