platao:timeu:derrida:epinoia

4. Epinoia

MARGEL, Serge. Le tombeau du dieu artisan: sur Platon. Paris: Éd. de Minuit, 1995.

O Tombeau fala de um antigo Novo Testamento, da morte simbólica de um ser situado entre os mortais e os deuses imortais, do sepulcro santificado desse ser único, e do dom, do sacrifício de si, da aliança e da promessa.

  • O Cristo, porém, está ausente do livro de Margel: não há sequer uma evocação analógica, uma referência comparativa, uma alusão preterida, nada.
  • Esse silêncio não é inadvertência nem distração de um leitor que, por disciplina de análise interna, se teria fechado com Platão e recusado, por rigor de historiador e de sábio, misturar contextos; é preciso buscar outras razões para justificá-lo.
  • O silêncio não é absoluto sobre a coisa cristã em geral, mas especificamente sobre o Cristo e sobre qualquer analogia possível entre a história do Demiurgo e uma revelação neotestamentária.
  • Dois sinais rompem o silêncio absoluto: dois parerga do Tombeau, uma epígrafe e uma nota de rodapé, antes da deposição no túmulo e ao pé da tumba.

Primeiro parergon cristológico: a epígrafe, tomada das Confissões de santo Agostinho, imensa meditação sobre a possibilidade do futuro e a profecia divina.

  • Agostinho é referência comum, e muito respeitada, de Husserl e de Heidegger quando falam do tempo.
  • Agostinho não diz algo sobre o tempo nem o descreve: ele fala a Deus, dirigindo-lhe uma pergunta e uma demanda numa prece meditante sobre como Deus ensina às almas o que deve acontecer, como ensina o futuro sendo que nada é futuro para ele.
  • A epígrafe coloca em evidência o paradoxo de uma promessa (palavra que Agostinho não pronuncia) e a aporia de um discurso sobre o futuro que não prediz nem apenas antevê, mas faz advir.
  • O que Agostinho considera inconcebível, senão insustentável: a promessa transborda o ensinamento, ou seja, toda teoria, todo saber do que é, toda ciência ôntica, ontológica, antropológica ou teológica; é além do saber que uma promessa é possível, e uma prece.
  • A diferença entre o Deus cristão (infinito) e o Demiurgo (finito) é que a promessa do primeiro é sustentável, ou antes não é insustentável; mas para ser promessa, ela deve poder permanecer insustentável, pois uma promessa apenas sustentável permanece finita.
  • A estrutura da promessa torna precária a diferença entre o finito e o infinito, entre um Demiurgo e Deus Pai eterno, e com isso também entre o Demiurgo e os deuses imortais, o que afeta a distinção fundadora de todo o Timeu.

Segundo parergon cristológico: a nota de rodapé, que situa uma mediação possível entre o conceito de epinoia no Timeu e um contexto cristológico.

  • A epinoia (projeto, desígnio, mas também o pensamento que vem depois, retrospectivamente) marca o afastamento, no espírito do Demiurgo, entre o conhecimento puro e um momento de reflexão representativa, reprodutiva e involuntária, espontânea; é também o afastamento entre a projeção e seu objeto ideal.
  • Margel recorda a grande controvérsia entre Eunômio o Ariano e Basílio de Cesareia sobre a consubstancialidade do Pai e do Filho, o Inengendrado e o Engendrado.
  • Margel escreve que a preposição epi do termo epinoia, ainda muito próxima do conceito utilizado por Platão, permitiu, num contexto cristológico, engendrar uma distinção que asseguraria uma espécie de mediação interna, tanto temporal quanto ontológica, entre a inteligência eidética do Pai (o nous) e os atributos carnais do corpo do Filho.
  • Abre-se assim um outro nó no entrelaçamento infinito das relações entre pelo menos dez fios irredutivamente distintos: a fé em geral, a fé cristã, a religião cristã, a teologia (para a qual Margel recorda que se deveria levar em conta ao menos quatro categorias de theios no Timeu), a teologia cristã, a teologia em geral, a filosofia em geral, a filosofia grega, a filosofia de Platão e o Timeu.
  • A questão que fica em aberto: como delimitar um contexto, por exemplo um “contexto cristológico”, enquanto não se tiver rigorosamente discernido entre esses fios? E quando se terá feito isso?
platao/timeu/derrida/epinoia.txt · Last modified: by 127.0.0.1