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2. Vigília e desobra

MARGEL, Serge. Le tombeau du dieu artisan: sur Platon. Paris: Éd. de Minuit, 1995.

O prefácio confessa antes de tudo um sentimento de leitor, difícil de definir, que se gostaria de partilhar com os futuros leitores do livro singular de Serge Margel.

  • O livro se justifica e se demonstra com exigência tal que um prefácio parece inútil ou abusivo, salvo se puder confessar esse sentimento antes de avançar uma hipótese que mal merece esse nome.
  • Os futuros leitores são imaginados primeiramente espantados, como convém aos filósofos, ao se depararem com questões de origem do cosmos, dos deuses e dos homens, da vida e da morte, do túmulo e da herança, da sobrevivência, do dom e do sacrifício, do leite, do sangue e do esperma.
  • O livro trata da questão da origem do mundo antes mesmo que seja possível perguntar por que há algo em vez de nada, como se essa questão não tivesse mais nenhum sentido e fosse preciso remontar ainda antes dela, antes do tempo que ela pressupõe.
  • Os leitores são imaginados também inquietos, reticentes ou seduzidos conforme o caso, a perguntar-se o que aconteceu, o que se promete, em que esse livro é um evento.
  • O evento busca fazer pensar de outro modo a eventualidade do que vem, ao falar do que pôde advir na origem do mundo, relendo de outra maneira o Timeu, o livro grego sobre o qual mais se escreveu desde que existe filosofia.

O afeto da primeira leitura prende-se ao ritmo do livro, que anuncia coisas muito novas sobre a herança mais arcaica e mais críptica dos conceitos de mundo, espaço e tempo.

  • Ao nível da forma e da estética, no sentido kantiano, o que se mede no cruzamento do tempo e do espaço é o ritmo.
  • O livro, ao mesmo tempo pudico e violento, acadêmico e provocante, avança com a lentíssima aceleração de um passo quase imóvel, de que se conhecem poucos exemplos.
  • Após uma dramatização minuciosa, discreta e paciente que parece se dar a eternidade do saber histórico e filológico, sobrevém um golpe de teatro, mas não se sabe bem se ele ocorre no momento mais retumbante, perto do fim.
  • Pergunta-se se tudo não foi deslocado antes, numa vigília absoluta, entre dois atos, nas linhas, em silêncio ou na voz baixa de um parêntese, ou mesmo no sussurro de uma nota erudita.
  • A Introdução não esconde nada nem suspende uma espera: ela diz claramente o alcance da tese final, mas como essa tese permanece a demonstrar, prometida em suma, nada se sabe enquanto a promessa não é cumprida.
  • O que é prometido desde a primeira página não são apenas as “figuras paradoxais do Demiurgo” nem apenas a evidenciação de uma “aporia” irrecusável pela violência de uma fidelidade ao texto de Platão.
  • O que a Introdução talvez prometa em silêncio é a aporia e o paradoxo no interior da própria estrutura de uma promessa, da promessa em geral.
  • O tempo se endivida junto a outro tempo, um tempo se deve ao outro e lhe deve o tempo que perde ou ganha; um tempo ganha velocidade sobre outro tempo.

O nome do Demiurgo indica alguém que trabalha, opera, fabrica, mas a singularidade do Demiurgo platônico segundo Margel é uma certa desobra, uma destituição fatal que o vota à inação e à morte simbólica.

  • Em grego, o termo pode designar um sapateiro, um pasteleiro, um médico, um magistrado: alguém que trabalha, opera, um artesão ou artista, às vezes um profissional, técnico ou praticiente.
  • O Demiurgo platônico, ao contrário de todos os outros, chega a um momento em que não faz nada: é impotente para inscrever o princípio de conservação na gênese, incapaz de prevenir a iminência da decomposição ou da aniquilação.
  • É como se uma pulsão de morte, um “princípio interno de morte” nos termos de Margel, estivesse em obra em seu opus e em seu corpus.
  • É como se, no instante mesmo da produção poiética do mundo como representação, um trabalho de luto autoimune trabalhasse em silêncio contra si mesmo, contra o próprio princípio de trabalho que deveria fazer de todo Demiurgo um produtor.
  • O Demiurgo sofre a improdutividade: pertence à sua natureza tolerá-la, mas ele também sofre por ela, pois é sensível ao seu modo, e só pode sê-lo a partir de um desejo de perfeição ao mesmo tempo finito e infinito.
  • Ele não pode e não quer, não pode querer ou não quer poder fazer o que deveria: um mundo duplamente representativo.

A duplicidade da representação é o alavanca mais eficaz da demonstração de Margel, pois supõe duas temporalidades.

  • À representação noética ou propriamente demiúrgica do mundo (que calcula o movimento dos planetas e regula o universo sobre o conhecimento e a idealidade do conceito e do número) corresponderia um tempo cósmico.
  • À representação genética do cosmos corresponderia um tempo que resiste à idealização pelo tempo cósmico por não medir nada além de uma incalculável despesa, uma perda irreversível de energia.
  • Sobre esse tempo de consumação ou incineração, Margel afirma algo muito grave, que o livro inteiro está lá para demonstrar: esse tempo genético, contra o qual o Demiurgo no fundo nada pode, não é segundo, mas primeiro; viria antes de tudo e antes de qualquer outro tempo.
  • Para designar o “antes” dessa precedência, Margel é obrigado às aspas: o que seria um tempo antes do tempo, um tempo pré-cronológico, uma anacronias do próprio tempo?
  • Margel define esse tempo de “pura consumação” como “prévio” e “anterior”, entre aspas, não apenas à ordem do mundo sensível mas à própria ordem planetária.
  • As aspas se impõem para designar a ordem não cronológica, a desordem acrônica ou anacrônica de um tempo antes de todo outro tempo, um terceiro e primeiro tempo antes dos dois tempos.
  • As aspas se impõem também porque Margel não quer dizer “a priori” nem “originário” nos termos de um discurso transcendental, fenomenológico ou ontológico: o tempo de que quer falar não é o de Kant, nem o de Husserl, nem o de Heidegger; a temporalização dessa promessa seria ainda mais “velha”.

A finitude impotente do Demiurgo, seu morrer, não é o Diabo nem o Mal, não é a Queda, nem o Pecado, nem a Paixão.

  • A conclusão do prefácio propõe avançar em dois tempos e segundo duas anacronias, dois descompassos em relação à sincronia, dois contratempos.
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