A Alma, "o movimento capaz de se mover ele mesmo
O ateniense. — Eis uma nova questão a ser colocada, à qual, mais uma vez, nós mesmos daremos a resposta. Se todas as coisas se confundissem e ficassem imóveis, como a maioria dos nossos sábios ousa afirmar, qual movimento, dentre aqueles de que falamos, deveria necessariamente surgir primeiro? Evidentemente, aquele que se move por si mesmo. De fato, nenhum outro antes dele poderia lhe dar o impulso, já que, antes dele, não havia nenhum impulso nessa massa. Assim, princípio universal e primeiro dos movimentos, seja para o que era imóvel, seja para o que é movido, o movimento que se move a si mesmo é, afirmamos, necessariamente o mais antigo e o mais poderoso de todas as mudanças; quanto àquele que, posto em movimento por outra coisa, move outras coisas por sua vez, ele é apenas o segundo.
Clinias. — Nada mais verdadeiro.
O ateniense. — Já que nossa discussão chegou a este ponto, respondamos à seguinte pergunta.
Clinias. — Qual?
O ateniense. — Se vemos essa primeira mudança se manifestar em uma coisa feita de terra, água ou fogo, seja separada ou misturada, que caráter diremos que ela realiza?
Clinias. — Você está me perguntando se diremos que essa coisa vive, uma vez que se move por si mesma?
O ateniense. — Sim.
Clinias. — Que ela vive, sem dúvida.
O ateniense. — E então, para todo ser em que vemos uma alma, não é o mesmo? Não devemos concordar que ele vive?
Clinias. — Sim.
O ateniense. — Pare aí, por Zeus! Você não aceitaria conceber, a respeito de qualquer objeto, três coisas?
Clinias. — O que você quer dizer?
O ateniense. — Uma é a essência; a outra, a definição da essência; a terceira, o nome. Por outro lado, a respeito de cada ser, duas questões podem ser levantadas.
Clinias. — Quais são essas duas questões?
O ateniense. — Às vezes apresentamos o nome e pedimos a definição; outras vezes, apresentamos a definição e pedimos o nome.
Clinias. — O que queremos dizer com isso não é
algo como isto?
O ateniense. — Como o quê?
Clinias. — Certas coisas, e, entre outras coisas, certos números, podem ser divididos em dois: quando é o caso de um número, seu nome é “par” e sua definição “um número que se divide em duas partes iguais”.
O ateniense. — Sim, é isso que quero dizer. Ora, não é a mesma coisa que expressamos em ambos os casos, quando nos pedem a definição, dando o nome; ou quando nos pedem o nome, dando a definição? E, pelo nome par, pela definição “número divisível em dois”, não designamos a mesma coisa?
Clinias. — Absolutamente.
O ateniense. — Qual é, então, a definição daquilo que tem o nome de “alma”? Temos outra a fornecer além daquela de há pouco, “o movimento capaz de se mover a si mesmo”?
Clinias. — Movimentar-se a si mesmo, essa é, então, você afirma, a definição desse mesmo ser que tem o nome de “alma” em nossa linguagem comum?
O ateniense. — É exatamente isso que afirmo. Se assim é, lamentamos ainda alguma insuficiência nesta prova, dada por nós, de que a alma é idêntica ao princípio da geração e do movimento e, da mesma forma, dos seus contrários, para todos os seres presentes, passados ou futuros, quando descobrimos nela precisamente a causa universal de toda mudança e de todo movimento?
Clinias. — De modo algum; pelo contrário, demonstramos adequadamente que a alma é o mais antigo de todos os seres, uma vez que a demonstramos como princípio do movimento.
O ateniense. — Não é verdade, então, que o movimento produzido externamente em qualquer ser e que nunca lhe confere o poder de se mover por si mesmo vem em segundo lugar e até mesmo em tantos lugares abaixo quanto se possa imaginar, visto que é uma mudança em um corpo realmente privado de alma?
Clinias. — É verdade.
O ateniense. — Absolutamente correto e plenamente real, absolutamente e perfeitamente verdadeiro seria, portanto, essa prioridade de origem que reconhecemos à alma em relação ao corpo, e essa situação secundária e posterior do corpo, uma vez que, por natureza, a alma comanda e o corpo obedece.
Clinias. — Absolutamente verdadeiro.
O ateniense. — Ora, lembramo-nos do que havíamos concordado anteriormente, que, se a alma fosse demonstrada como mais antiga que o corpo, o que é da alma seria igualmente mais antigo que o que é do corpo.
Clinias. — Perfeitamente.
O ateniense. — Costumes, caracteres, vontades, raciocínios, opiniões verdadeiras, atenções, lembranças seriam, portanto, anteriores à comprimento, largura, profundidade e força dos corpos, pelo fato de que a alma seria anterior ao corpo.
Clinias. — Necessariamente.
O ateniense. — Não devemos, então, necessariamente admitir que a alma é a causa do bem, do mal, do belo, do feio, do justo, do injusto e de todos os opostos, uma vez que afirmamos que ela é a causa de tudo?
