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Alma, parente das ideias

Fédon, 78c-80c

— Então, disse Sokrates, portemo-nos para o ponto onde tínhamos chegado em nosso raciocínio anterior. Essa essência — é de sua maneira de ser que prestamos um justo relato tanto quando questionamos quanto quando respondemos —, será que ela se comporta sempre semelhantemente permanecendo a mesma que si mesma, ou será que ela é ora assim, e ora de outro modo? O igual em si, o belo em si, o «o que é» cada coisa em si mesma, o verdadeiramente ente, será que jamais isso pode acolher em si uma mudança, qualquer que seja aliás essa mudança? Ou bem, como o que é cada um desses seres comporta em si e por si uma única forma, será que isso não permanece sempre semelhantemente o mesmo que si, sem acolher em momento algum, sobre ponto algum, de modo algum, nenhuma alteração?

— Que eles permaneçam semelhantes e mesmos que si mesmos, é uma necessidade, Sokrates, respondeu Kebes.

— E para as múltiplas coisas que são belas, homens, cavalos, vestiduras por exemplo, ou para quaisquer coisas do mesmo gênero podendo ser ditas iguais, ou belas, em suma para todas aquelas que são designadas pelo mesmo nome que os seres de que falo? Será que elas permanecem as mesmas? Ou bem, totalmente ao contrário desses seres, não são elas por assim dizer jamais e de modo algum as mesmas, e nem sequer vis-à-vis de si mesmas que nas relações que as ligam umas às outras?

— No caso delas, disse Kebes, isso se passa desta forma: jamais elas permanecem semelhantes.

— Ora, umas tu podes percebê-las ao mesmo tempo pelo tato, a vista, e todos os outros sentidos; mas as outras, aquelas que permanecem mesmas que si mesmas, é absolutamente impossível apreendê-las de outro modo que não pelo ato de raciocínio próprio à reflexão pois elas são invisíveis, as realidades desse gênero, elas não se dão a ver.

— É perfeitamente verdadeiro, disse ele.

— Estabeleçamos portanto, queres bem? duas espécies entre as coisas que são, uma que se pode ver, enquanto a outra é invisível.

— Estabeleçamos, disse ele.

— Estabeleçamos também que aquela que é invisível é sempre mesma que si mesma, enquanto aquela que se pode ver jamais o é.

— Estabeleçamos isso também, disse ele.

— Então, continuemos, disse Sokrates: o que nos constitui, não é por um lado um corpo, e, por outro lado, uma alma?

— Nada mais, disse ele.

— Com qual de nossas duas espécies podemos portanto afirmar que o corpo tem o mais de semelhança e de parentesco?

— Isso ao menos, disse Kebes, é evidente para todo mundo: com o visível.

— Então a alma? é uma coisa visível ou invisível?

— Visível? não por homens em todo caso, Sokrates! disse ele.

— Mas o visível e o não-visível, sem dúvida, é bem em relação à natureza humana que os definimos, nós outros! A menos que tu, tu tenhas outra natureza em mente?

— Não, a natureza humana.

— Bom. Portanto, para a alma, que dizemos? Que se pode ou que não se pode vê-la?

— Que não se pode vê-la.

— Coisa invisível, por conseguinte?

— Sim.

— Ter uma alma, isso se assemelha mais ao que é invisível do que um corpo; ele, em revanche, se assemelha mais ao que se pode ver?

— De toda necessidade, Sokrates.

— Mas esse ponto aí, não o tínhamos justamente estabelecido há já um bom momento, quando dizíamos: todas as vezes que a alma tem recurso ao corpo para examinar alguma coisa, utilizando seja a vista, seja a audição, seja qualquer outro sentido (por «ter recurso ao corpo» eu entendo: «utilizar os sentidos para examinar alguma coisa») então ela é arrastada pelo corpo na direção do que jamais permanece mesmo que si, e ei-la em presa à errância, à turbação, ao vertigo, como se ela estivesse ébria, tudo isso porque é com esse gênero de coisas que ela está em contato?

— Sim, absolutamente.

— Quando, ao contrário, é a alma mesma, e somente por si mesma, que conduz seu exame, ela se lança aí, para o que é puro e que é sempre, que é imortal e sempre semelhante a si? E como ela é aparentada a esta maneira de ser, ela permanece sempre em sua companhia, cada vez precisamente que, se concentrando ela mesma em si mesma, isso lhe se torna possível. Acabou-se então a sua errância: na proximidade desses seres, ela permanece sempre semelhantemente mesma que si mesma, visto que ela está ao seu contato. Esse estado da alma, é bem o que se chama o pensamento?

— É verdadeiramente muito belo, e muito verdadeiro, o que dizeis, Sokrates.

— Portanto, eu repito: com qual de nossas duas espécies — segundo as definições que nós demos anteriormente e ainda há instante — a alma oferece, a teu aviso, mais semelhança e parentesco?

— A meu aviso, disse Kebes, se se segue essa via de pesquisa, todo mundo, e mesmo o cérebro mais lento, estará pronto a conceder que, em grosso e no detalhe, a alma é uma coisa que oferece mais semelhança com o que existe sempre da mesma forma preferencialmente ao que não o faz.

— E o corpo?

— Com a outra espécie.

— E agora, encara a questão também deste ponto de vista: quando uma alma e um corpo estão juntos, a natureza prescreve a um ser assujeitado e comandado, ao outro comandar e dirigir. Sob essa nova relação, qual dos dois, a teu aviso, é semelhante ao que é divino, e qual ao que é mortal? Mas talvez não creias que o que é divino seja naturalmente feito para comandar e dirigir, e o que é mortal para ser comandado e obedecer?

— Eu? Com certeza que sim.

— Então, a qual dos dois a alma se assemelha?

— É a evidência mesma, Sokrates: a alma se assemelha ao divino, e o corpo ao que é mortal.

— Examina então, Kebes, disse ele, se chegamos bem, em função do que precede, à conclusão seguinte: o que é divino, imortal, objeto para a inteligência, que possui uma forma única, que é indissolúvel e sempre semelhantemente mesmo que si mesmo, eis com o que a alma oferece o mais de semelhança. Em revanche, o que é humano, mortal, inacessível à inteligência, multiforme, sujeito à dissolução, e que jamais é mesmo que si, é ao contrário com isso que o corpo oferece o mais de semelhança. Será que nós podemos, meu caro Kebes, ir contra estas afirmações e dizer que se passa de outro modo?

— Não, nós não podemos.

— Muito bem. Se assim é, é portanto ao corpo que convém dissolver-se rapidamente, e à alma ser totalmente indissolúvel, ou quase?

— Impossível de outro modo.

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