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platao:varia:discurso

Discurso mnemônico e discurso dialético

PLATON. Platon par lui-même. Sel. e trad. Louis Guillermit. Paris: Flammarion, 1995.

[SÓCRATES-FEDRO]

— S. Voltemo-nos para outro discurso, irmão consanguíneo do anterior, para ver como ele surge e até que ponto sua bela chegada prevalece em qualidade e vigor. — P. Qual é ele e como se desenvolve, na sua opinião? — S. É aquele que acompanha a ciência e que se escreve na alma daquele que se instrui; aquele que é capaz de se defender sozinho e que sabe diante de quem deve falar e calar-se. — P. Você quer dizer o discurso daquele que sabe, discurso vivo e animado, do qual se poderia dizer que o discurso escrito é uma simulação? — S. É isso mesmo. Mas diga-me: se um camponês sábio tivesse sementes que lhe fossem preciosas e das quais desejasse que dessem frutos, você acha que seria sério da parte dele ir semeá-las em pleno verão nos jardins de Adônis pelo prazer de vê-las florescer em oito dias? Se ele fizesse isso, não seria para se divertir durante uma festa? Quanto às que ele cuidasse seriamente, depois de semeá-las em terreno adequado, de acordo com as regras da arte agrícola, ele não se contentaria em vê-las chegar ao fim em oito meses? — P. Assim ele faria, Sócrates. — S. Aquele que possui o conhecimento do justo, do belo e do bem, será que podemos atribuir-lhe menos bom senso do que o camponês demonstra com suas sementes? — P. Certamente que não. — S. Portanto, ele não “escreverá sobre a água” com seriedade, a água negra da tinta servindo à pena para semear discursos incapazes de falar em sua defesa, incapazes de ensinar suficientemente a verdade. — P. É improvável. — S. De fato! jardins em caracteres de escrita, é, ao que tudo indica, para se divertir que ele os semeará escrevendo. Se ele escrever, reservando memórias, tanto para seu próprio uso, caso chegue à velhice esquecida, quanto para quem quer que siga seus passos, ele terá prazer em ver crescer suas delicadas culturas; enquanto outros se dedicarão a outros divertimentos, banquetes e confortos do mesmo tipo, ele, ao contrário, aparentemente passará o tempo nos jogos que mencionamos. — P. Jogo maravilhoso em comparação com a vulgaridade do outro, Sócrates, o do homem capaz de se divertir com discursos, fazendo da justiça e dos outros valores que você citou o objeto de suas invenções! — S. É um fato, meu caro Fedro, mas o ardor que se coloca nisso tem muito mais valor se, apoderando-se de uma alma que se presta a isso e usando a arte dialética, se plantam e semeiam discursos acompanhados pelo conhecimento, discursos capazes de socorrer tanto a si mesmos quanto àqueles que os plantaram, e que, longe de serem estéreis, são portadores de uma semente que dará origem a outros em outras naturezas, capazes de garantir sua perpetuação imortal e proporcionando àquele que os possui a maior felicidade de que um homem é capaz.

Fedro, 276a-277a

platao/varia/discurso.txt · Last modified: by mccastro