platao:varia:discurso-escrito

Irremediável fraqueza do discurso escrito

PLATON. Platon par lui-même. Sel. e trad. Louis Guillermit. Paris: Flammarion, 1995.

[SÓCRATES-FEDRO]

— S. O deus Toth, inventor da escrita, disse ao rei do Egito: “Eis a invenção que proporcionará aos egípcios mais conhecimento e memória: para a memória e o conhecimento, encontrei o remédio necessário”. — E o rei respondeu: “Deus muito industrioso, outro é o homem que se mostra capaz de inventar uma arte, outro é aquele que pode discernir a parte do dano e a parte da vantagem que ela proporciona aos seus usuários. Pai dos caracteres da escrita, você está, por complacência, atribuindo-lhes um poder contrário ao que eles têm. Levando aqueles que os conhecerão a negligenciar o exercício da memória, eles introduzirão o esquecimento em suas almas: confiando na escrita, eles se lembrarão do exterior, recorrendo a sinais estranhos, e não do interior, por seus próprios recursos; não foi, portanto, para a memória, mas para a lembrança que encontraste um remédio. E é a aparência, e não a realidade do conhecimento, que você proporciona aos seus discípulos, pois, ao permitir que se tornem eruditos sem serem instruídos, eles parecerão cheios de conhecimento, quando, na realidade, serão, na maioria das vezes, ignorantes e insuportáveis, pois se tornarão falsos sábios. […] Assim, aquele que acredita ter registrado seu conhecimento por escrito, assim como aquele que o coleta acreditando que do escrito nascerão evidência e certeza, são ambos cheios de ingenuidade, na medida em que acreditam encontrar nos textos escritos outra coisa senão um meio que permite àquele que sabe lembrar-se das coisas tratadas nos escritos. — P. É muito justo. — S. Pois o que há de temível na escrita é que ela se assemelha muito à pintura: as criações desta parecem seres vivos, mas quando lhes fazemos alguma pergunta, cheias de dignidade, elas permanecem em silêncio. Assim são os textos: parece que se expressam como seres pensantes, mas quando se questiona, com a intenção de compreender, uma de suas afirmações, eles indicam apenas uma coisa, sempre a mesma. Uma vez escrito, todo discurso circula por toda parte, indo indiferentemente de pessoas competentes a outras que não têm nada a ver com ele, sem saber a quem se dirigir. É negligenciado ou maltratado injustamente? Ele não pode prescindir da ajuda de seu pai, pois é incapaz de se defender ou se socorrer a si mesmo.

Fedro, 274-275

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