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Filosofia

Bom para os “jovens”, mas indigno às tarefas adultas!…

— “É isso que você reconhecerá, desde que se oriente para objetivos mais elevados, renunciando doravante à filosofia. A filosofia, de fato, tem certamente, Sócrates, seu encanto, desde que se dedique a ela, com moderação, na juventude; mas se dedicarmos mais tempo do que o necessário, isso será prejudicial para um homem.

Suponhamos, de fato, que, mesmo dotado de uma natureza excelente, ele se tenha dedicado à filosofia além da juventude. O resultado inevitável será que ele não terá mais nenhuma experiência de tudo aquilo que é indispensável quando se quer se tornar um homem realizado e bem considerado. É fato que o filósofo perde toda a experiência — das leis que regem a cidade, da linguagem que deve ser usada nas convenções, tanto privadas quanto públicas, que envolvem as relações humanas, dos prazeres e das paixões dos homens; em resumo, ele perde, de maneira geral, toda a experiência de como viver. Assim, quando se trata de algum assunto prático, de ordem privada ou pública, ele se torna motivo de riso às suas custas… É, de fato, o caso de dizer com Eurípides: aquilo em que “cada um brilha é também aquilo para o que se apressa, dedicando a isso a maior parte do seu dia, e onde pode acontecer de ser superior a si mesmo”. Mas a ocupação na qual ele não vale muito, dessa ele se afasta, critica-a de forma injuriosa; enquanto elogia a outra, convencido de que, com essas boas disposições da sua parte, ele está elogiando a si mesmo.

A atitude mais correta é, na minha opinião, participar de um e de outro desses dois tipos de ocupação. Por um lado, é bom participar da filosofia, desde que se faça isso com o objetivo de se cultivar, e não há nada de vergonhoso para um adolescente se ocupar com filosofia. Mas, por outro lado, quando já se está avançado em idade e se continua a filosofar, isso se torna, Sócrates, um emprego do tempo que merece risos…

Se, de fato, é em um jovem, em um adolescente, que vejo a filosofia, fico encantado, isso me parece apropriado, e considero que há liberdade nesse temperamento humano, enquanto essa liberdade está, na minha opinião, ausente no jovem que não se ocupa de filosofia, que nunca se considerará capaz de se dedicar a nada de belo ou nobre. Mas quando é justamente um homem de idade que vejo ainda fazer filosofia e não ter rompido com ela, esse homem, Sócrates, me parece precisar de castigo. Pois, como eu dizia há pouco, é o fato de esse homem, mesmo que dotado de uma natureza excelente, acabar por não se comportar como um homem, fugir como ele faz do centro da cidade e desses lugares onde, como diz o poeta, “os homens se destacam”!

Acredite em mim, meu caro, ponha um fim às suas picuinhas, exercite-se na bela música dos atos, exercite-se naquilo que lhe dará os meios para passar por um homem sensato, abandonando a outros essas sutilezas, sejam elas tagarelices ou bobagens, cujo resultado é que você vai morar em uma casa vazia; ciumento de imitar, não as pessoas que discutem sobre essas ninharias, mas aquelas que têm meios de subsistência, reputação e uma série de outros bens.”

Platon, Gorgias, 484 c-486 d

Florent Gaboriau nous propose aussi lire la réplique de Socrate dans le même dialogue. Apparemment, la modération de son interlocuteur n’est-elle pas la « sagesse » même? une sagesse très courante…

platao/varia/filosofia.txt · Last modified: by mccastro