A filosofia é refratária a qualquer forma de tratado escrito
[PLATON. Platon par lui-même. Paris: Flammarion, 1995.]
Há pelo menos uma coisa que posso dizer sobre aqueles que escreveram ou escreverão e afirmam ter competência nas matérias com as quais me ocupo, quer afirmem ter sido instruídos por mim ou por outro, quer afirmem ter descoberto por si próprios: é que é impossível, pelo menos na minha opinião, que eles entendam alguma coisa. Sobre isso, em todo caso, não existe nenhum tratado escrito por mim e nunca haverá, pois, ao contrário de outros conhecimentos, este não se deixa formular; nasce do contato assíduo com o próprio objeto, do compartilhamento de sua vida, e surge na alma, como a chama que brota da faísca e cresce espontaneamente. O que também sei é que eu seria o mais apto a expô-lo por escrito ou oralmente e que seria eu quem mais sofreria com a imperfeição do Tratado. Se eu achasse que ele poderia ser escrito e formulado de maneira adequada para o público, o que eu poderia realizar de mais belo na minha vida do que publicar algo tão precioso para todos e revelar a verdadeira natureza das coisas? Mas não creio que tal empreendimento seja bom para a humanidade, com exceção dos raros indivíduos que, com base em simples indicações, são capazes de encontrar por seus próprios meios. Isso apenas encheria os outros de um desprezo inadequado e infundado ou de uma pretensão tão altiva quanto vã. […]
Há uma razão válida que se opõe a que se ouse escrever qualquer coisa sobre esse assunto, razão que já aleguei muitas vezes, mas que acredito que devo repetir mais uma vez. […]
Todos os modos de conhecimento começam a expressar a qualidade e o ser de cada coisa por meio do instrumento falho que é a linguagem. É por isso que nenhum homem sensato se arriscaria a confiar-lhe seus pensamentos, especialmente na forma fixa dos caracteres escritos. […] Essa é a razão precisa pela qual todo homem sério, ocupado com coisas sérias, se guardará, ao escrever, de deixar tais assuntos caírem no domínio público e expô-los assim à malícia e às dúvidas. Consequentemente, em resumo, quando vemos obras escritas na forma de leis por um legislador, ou por qualquer pessoa sobre qualquer outro assunto, devemos estar cientes do que as caracteriza: para ele, pelo menos se for sério, não é isso que é sério, mas sim o que reside em algum lugar do que há de mais belo nele. Se, pelo contrário, for o que ele considera sério que ele assim depositou nos caracteres da escrita, então é preciso dizer dele: “ele teve o espírito devastado”, não “pelos deuses”, mas pelos mortais.
Carta VII, 341c-342a 342e-343a 344cd
