O sábio diante do embaraço da vida corporal
Sua ânsia por possuir a verdade (e o pressentimento extraordinário que daí resulta)
«Pode muito bem existir uma espécie de caminho que nos conduza, se na busca nos acompanhar este pensamento: enquanto tivermos o nosso corpo, enquanto a nossa alma estiver impregnada de tal maldade, nunca possuiremos como devemos o objeto que desejamos; e declaramos que isso é a verdade.
O corpo, de fato, ocupa de mil maneiras nossa atividade em relação à obrigação de mantê-lo; sem contar que, se surgirem doenças, elas são obstáculos à nossa busca pelo real. Por outro lado, há amores, desejos, medos, simulacros de todo tipo, bobagens sem número: tudo isso nos preenche tão bem que, falando francamente, não faz nascer em nós o pensamento real de nada. De fato, guerras, dissensões, batalhas, nada mais nos vale tudo isso do que o corpo e seus desejos; pois é por causa da posse de riquezas que todas as guerras acontecem e, se somos obrigados a possuir riquezas, é por causa do corpo, escravos prontos para servi-lo!
É ainda dele que, por causa de tudo isso, provém nossa preguiça de filosofar; mas o que é absolutamente o cúmulo, acontece-nos até ter, da parte dele, algum descanso e nos voltarmos para o exame reflexivo de alguma questão, quando então ele, por sua vez, cai inesperadamente em plena investigação, produzindo tumulto e perturbação, atordoando-nos a ponto de nos tornar incapazes de perceber a verdade. Bem, pelo contrário, para nós é algo comprovado que, se quisermos ter um conhecimento puro de qualquer coisa, precisamos nos separar dele e, com a alma em si mesma, contemplar as coisas em si mesmas. É nesse momento, ao que parece, que nos pertencerá o que desejamos, aquilo de que declaramos ser apaixonados: o pensamento, ou seja, tal é o sentido do argumento, quando tivermos falecido, mas não enquanto estivermos vivos!
Se não é possível, de fato, conhecer nada de forma pura, com a ajuda do corpo, uma de duas coisas acontece: ou não nos é possível adquirir conhecimento de forma alguma, ou isso nos é possível depois de falecidos; pois é então que a alma existirá em si mesma e por si mesma, separada do corpo, mas não antes!
Além disso, enquanto vivemos, o meio, ao que parece, de estar mais próximo do conhecimento é ter o mínimo possível de contato com o corpo, não nos associarmos a ele a menos que seja radicalmente necessário, não nos deixarmos contaminar pela natureza dele, mas, pelo contrário, nos purificarmos, até o dia em que a Divindade em pessoa nos libertar. Assim, ficamos puros, separados da loucura do corpo, chamados então — provavelmente — a estar em sociedade com realidades análogas, e é por nós mesmos que conheceremos o que é sem mistura… Acredito que esse seria o tipo de linguagem que os amigos do conhecimento, no sentido estrito do termo, necessariamente usariam entre si, e essa seria necessariamente a sua crença. Você não concorda?
Platon, Phédon, 66-67b.
