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Amor e Ódio

BRUN, Jean. Empédocle. Paris: Seghers, 1966.

  • O essencial da filosofia de Empédocles se apresenta como uma tragédia em escala cósmica, onde estão implicados tanto os elementos que compõem as coisas quanto os seres que vivem no seio dessas palpitações do universo.
    • As existências se desdobram através das palpitações nas quais o Amor que une e o Ódio que divide fazem e desfazem os seres incessantemente.
    • O pitagorismo, com a fórmula “tudo é número”, não prefigura o reino da quantidade, pois o número expressa uma proporção, uma harmonia e uma Beleza, sendo antes a tradução de uma qualidade.
    • O número não nasce da justaposição de unidades elementares, mas resulta da divisão da Unidade primeira e fundamental.
  • O pitagorismo permanecia mudo sobre a origem do múltiplo e sobre a força que leva a Unidade a se dissociar, mas o orfismo, com o qual o pitagorismo tinha laços estreitos, situava o problema das relações do uno e do múltiplo em perspectivas escatológicas.
    • A roda dos nascimentos e renascimentos é o dispositivo de uma tragédia na qual se expressa a Justiça do mundo.
    • Empédocles deve muito ao orfismo, encontrando-se nele a ideia de que uma existência é um castigo infligido a quem já viveu no mal, pelo simples fato de ter caído no múltiplo.
    • A libertação suprema consiste em ser finalmente afranquiado do ciclo dos nascimentos e não receber mais o castigo de uma vida nova, onde a alma encontra uma prisão para expiar suas faltas anteriores.
  • Empédocles se conhece como um ser errante e exilado, pois, segundo o fragmento 115, ele é um vagabundo exilado dos deuses por ter confiado na Contenda (Ódio) furiosa.
    • O mundo é por definição estranheza, e a existência é experiência do insólito, tendo Empédocles chorado e soluçado à vista dessa terra insólita.
    • As potências que conduzem as almas no mundo dizem a elas, ao termo de sua viagem, que chegaram a esta caverna coberta.
    • A Terra é o lugar do infortúnio, onde a Morte, a Contenda e outros gênios da morte vagueiam na escuridão.
  • Os ciclos de renascimentos podem se tornar fatores de enriquecimento para seres excepcionais que conservam a lembrança de cada existência, adquirindo um saber sobre-humano.
    • Pitágoras, com sua memória fabulosa, lembrava-se de suas existências anteriores, como ter vivido sob os traços de Éforbo, um herói da Guerra de Troia.
    • O saber implica uma reminiscência, e conhecer é recordar uma unidade feita da sucessão de etapas que são coincidências existenciais com o que foi.
    • A verdade não procede nem dos sentidos nem do espírito, mas da consciência das diferentes vicissitudes às quais os elementos que constituem o múltiplo foram submetidos durante sua mistura e sua divisão.
  • O pitagorismo e o orfismo forneceram a Empédocles os elementos para descrever as sucessões cíclicas, mas ele leva o quadro do devir ao cúmulo do trágico ao fazer do Múltiplo a presa de duas forças antagônicas: a Contenda e o Amor.
    • O devir do mundo ganha ritmos de diástoles e sístoles, onde palpitam alternadamente as divisões destruidoras e as unificações construtoras.
    • O fragmento 16-17 afirma que o Amor e a Contenda eram, são e serão, e que o tempo infinito jamais será vazio desse casal, havendo um duplo processo onde ora o Uno cresce a partir do Múltiplo, ora o Uno se divide e do Uno nasce o Múltiplo.
  • O Ser é o que permanece, mas possui em si mesmo o perpétuo devir de um intercâmbio onde tudo passa de uma forma a outra, não havendo ruptura, mas relação de interioridade entre o Ser e o Devir.
    • O devir está no coração do Ser como aquilo em que ele se dilacera e se reconcilia, e os seres estão no coração do devir como passagens e mudanças de formas.
    • Não há criação, mas apenas metamorfoses, sendo a unidade originária e final dos seres em um princípio divino comum o fundo da filosofia de Empédocles.
  • A Contenda (ódio) não nasce de algum evento, pois ela é, como o Amor, eterna, sendo primeiramente relegada aos limites extremos por ser de essência centrífuga, enquanto o Amor está no centro do turbilhão.
    • Quando o tempo se cumpre, a Contenda se lança por sua vez em direção às honras, prevalece e abala os membros do deus, introduzindo a dispersão no coração do Sphairos.
    • A Contenda surge na Hora que o Destino lhe designou, em virtude do “amplo pacto” que rege as estruturas do que é, fazendo cessar a Harmonia, desaparecer a Idade de Ouro e sobrevir o Múltiplo.
  • O Amor e a Contenda constituem, assim como a água, o ar, a terra e o fogo, elementos materiais do mundo, não podendo ser abstraídos como princípios inteligíveis ou causas exteriores.
    • Aristóteles se escandalizava que Empédocles fizesse do Amor ao mesmo tempo uma causa eficiente e uma causa material, e que considerasse a Contenda incorruptível.
    • O Amor e a Contenda presidem tanto à união e à separação dos elementos quanto à vida biológica e afetiva dos seres, e a própria Contenda dá nascimento a todo o múltiplo.
    • O combate das duas forças se vê claramente na massa dos membros dos mortais, onde ora todos os membros se reúnem no Uno sob o efeito do Amor, ora são dispersos pela Discórdia.
  • A força cósmica do Amor se encontra no coração dos mortais que se amam e buscam se unir, sendo considerado inato nos membros e dele nascendo os pensamentos de amor e as ações harmoniosas.
    • Nenhum mortal o apercebeu, embora ele se mova em círculo ao redor deles, e eles o chamam de Alegria ou Afrodite.
    • Schopenhauer, reconhecendo sua dívida para com Empédocles, vê uma imensa pulsão vital animando o universo no mineral, no vegetal, nos animais e no homem, chamando essa Vontade de Vontade-de-Viver, e também observa a luta à morte e a guerra.
  • É em Freud que a visão empedocleana do mundo reaparece de forma mais espetacular, sustentada por uma experiência clínica que vê em Erôs e nos instintos de destruição as duas forças antagônicas e complementares comandando todos os fenômenos da vida.
    • Freud divide os instintos em pulsões eróticas (que aglomeram substância viva em unidades maiores) e pulsões de morte (que trazem a matéria viva ao estado inorgânico).
    • Freud reconhece que o filósofo Empédocles de Acragas já havia adotado essa maneira de considerar as forças fundamentais ou instintos.
  • A oposição do Amor e da Contenda, drama cósmico, se encontra não apenas no nível das combinações elementares, mas também no das relações humanas mais cotidianas, com a atração e a repulsão se inscrevendo no coração do intervalo que separa o eu do tu.
    • A aparição das coisas e dos seres como resultado do jogo das combinações e dissociações de elementos implica que não haja nenhuma criação, sendo a criação apenas uma mudança de formas.
    • O fragmento 8 afirma que não há criação nem desaparecimento na morte funesta, mas apenas uma mistura e uma dissociação do que foi misturado, sendo a criação apenas uma palavra dada a isso pelos homens.
    • Os elementos existem e, correndo uns através dos outros, tornam-se homens e as espécies dos outros animais, ora reunidos sob a influência do Amor, ora movendo-se separadamente sob o efeito da Contenda.
  • A filosofia de Empédocles se apresenta como uma ontologia ou química da mistura, e também como um misticismo órfico-pitagórico, onde a mistura preside às metensomatoses, às encarnações e ao ciclo dos seres.
    • Essa filosofia se situa anteriormente a qualquer dissociação do Ser e do Parecer, pois o parecer não é uma aparência fugaz, mas o teatro das vicissitudes do Ser.
    • O Ser, fazendo-se e desfazendo-se, aparece sob formas diversas sem nunca sair do “amplo pacto” onde o Destino o situa.
  • O que o Amor une e a Contenda dissocia se reduz a quatro elementos fundamentais: água, ar, terra e fogo, que Empédocles qualifica com o termo pitagórico de “raízes” das coisas.
    • Aristóteles afirma que Empédocles foi o primeiro a distinguir os quatro elementos, mas ele não os utiliza como se fossem quatro, e sim como dois (o fogo e seus opostos reunidos em uma única natureza).
    • Os quatro elementos são imutáveis, homogêneos e não mudam através das diferentes combinações, sendo as proporções em que se encontram nos diferentes corpos extremamente variáveis.
  • Apesar da tentação de ver uma prefiguração da física moderna, o pensamento de Empédocles está em uma perspectiva diferente, pois as “raízes” não são aspectos fundamentais da matéria, mas também divindades.
    • Empédocles chama o fogo de “Zeus o luminoso”, o ar de “Hera vivificante”, a terra de Aidôneus e a água de Nestis, nome de uma divindade aquática siciliana.
    • Os quatro elementos são como deuses imortais e imutáveis, pois nunca desaparecem.
    • As obras de Bachelard sobre a imaginação e as quatro matérias primitivas seriam de maior auxílio para penetrar na cosmogonia de Empédocles do que as histórias da ciência.
  • O ar, a água, a terra e o fogo estão carregados de vida e de qualidades, sendo constantemente encontrados no coração da fisiologia de Empédocles.
    • A morte provém da separação do elemento ígneo, aéreo, úmido e terrestre cuja mistura constitui o homem, sendo a morte comum ao corpo e à alma.
    • As carnes nascem da mistura, em partes iguais, dos quatro elementos; os nervos, de fogo e terra unidos ao dobro de água; os ossos, de duas partes de água e terra e quatro de fogo.
    • A terra é a mãe de todas as coisas, de onde tudo nasce, e os diferentes elementos que entram na composição do que jorra dela dão nascimento a seres compostos de tipos diferentes.
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