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pre-socraticos:empedocles:fragmentos:natureza

Da Natureza

Yves Battistini

  • 1 — E tu, Pausânias, escuta, ó filho do sábio Anquites!
  • 2 — Estreitas são as potências difusas no corpo dos homens, e numerosos os males que os assaltam embotando sua atenção ansiosa.
    • Eles não percebem senão uma parte breve da vida, homens de um rápido destino, fumaça que o vento agita e dissolve.
    • Eles não têm fé senão naquilo para o qual os leva seu desejo, joguetes de todos os impulsos, gloriando-se cada um de conhecer o todo, mas em vão: pois não é dado aos homens vê-lo, nem ouvi-lo, nem apreendê-lo pelo espírito. Tu, portanto, visto que teus passos até aqui te conduziram, saberás tanto quanto for possível à inteligência de um mortal.
  • 3 — No côncavo de teu coração silencioso.
  • 4 — Mas vós, desviai de minha língua, ó deuses, este miserável extravio; que de meus lábios santos, graças a vós, corra uma fonte de pureza.
    • E tu, ó numerosa, ó desejada, virgem de braços brancos, Musa, eu te invoco, sem exigir de ti segredos proibidos às criaturas de um dia.
    • Ajudada pela Deusa Santa, envia-me um carro de cavalos dóceis.
    • A glória de flores fulgurantes que os mortais amam colher não te seduzirá, não te forçará a revelar o que te é interdito, por audácia, e a reinar nos cumes do saber.
    • Vai, olha com todos os teus olhos, por toda parte onde cada coisa manifesta seu ser — sem que teu ouvido eclipse o que veem tuas pupilas, nem que os sons estrondosos te deem uma certeza mais alta que as claras sensações da língua.
    • Nada concedas aos outros sentidos, por onde se caminha ao saber.
    • Suspende tua confiança: não deves conhecer senão o que te manifestou seu ser.
  • 5 — Os perversos querem absolutamente desconfiar dos espíritos superiores.
    • Mas tu, escuta nossa Musa digna de fé, conhece, crivando as razões em teu coração.
  • 6 — Aprende primeiro as raízes de todas as coisas: elas são quatro.
    • Zeus luminoso, Hera vivificante, e o Senhor da Sombra com Nestis, que de suas lágrimas intumesce a fonte de vida para os homens mortais.
  • 7 — Elementos incriados.
  • 8 — Eis ainda: nada do que é mortal tem nascimento nem fim pela morte que tudo arrebata.
    • Mas os elementos apenas se ajuntam, e, uma vez misturados, se dissociam.
    • Nascimento não é senão um nome dado pelos homens a um momento deste ritmo das coisas.
  • 9 — Quando uma mistura de elementos chega à luz sob a forma de um homem, de uma besta das matas, ou de uma planta ou de um pássaro, então se produz, diz-se, um nascimento.
    • E quando os elementos se desajuntam, a palavra dolorosa de « trespasse » vem aos lábios dos homens: injustamente! E eu, cedendo ao costume, falo também como eles.
  • 10 — Falo de morte funesta.
  • 11 — Insensatos! Seu pensamento não penetra as profundezas, eles para quem um não-ser anterior pode vir à existência, ou morrer e perecer em seu ser.
  • 12 — Pois do nada, nada pode absolutamente vir à existência, e o ente não pode perecer: jamais isso foi cumprido, nem ouvido.
    • Mas ele será sempre, em qualquer lugar onde se o situe.
  • 13 — No Todo, nem vazio de uma ausência, nem excesso de presença.
  • 14 — O Todo é plenitude. De onde proviria uma causa para aumentá-lo?
  • 15 — Nenhum sábio saberia admitir que a única duração da vida — o que se nomeia a vida — marque a duração da existência para os homens, submetidos à felicidade e à infelicidade, e que antes de terem sido formados, e depois de uma vez dissolvidos, nada mais exista de seu ser.
  • 16 — (As duas forças que regem o mundo) ontem existiram e, eu o afirmo, existirão amanhã.
    • E jamais o tempo infinito deste par será vazio.
  • 17 — Meu discurso dirá o duplo aspecto das coisas: pois ora um cresceu só do múltiplo, e ora, ao contrário, o múltiplo nasceu pela divisão do um.
    • Duas vezes, portanto, nascem todas as coisas mortais, e por duas vezes elas desaparecem: os elementos ajuntados criam e destroem por sua vez a morte, e a vida, quando tudo se desune, por sua vez aparece e perece.
    • E jamais a mudança cessa seu perpétuo devir, seja que o Amor conduza tudo à unidade, seja que o Ódio desloque e dissocie o que o Amor reuniu.
    • Assim, na medida em que o um é sempre nascido do múltiplo, e onde, da unidade deslocada, o múltiplo sempre se constituiu, os seres e as coisas nascem e desaparecem, pois seu tempo não é sem limite.
    • Mas na medida em que jamais a mudança detém seu perpétuo devir, tudo existe perpetuamente imutável no ciclo do tempo.
    • Vamos, escuta-me, visto que o estudo aumenta a sabedoria.
    • Já te disse, anunciando os limites de meu discurso.
    • Ele será duplo: ora, com efeito, o um cresceu, lançando-se só do múltiplo para atingir seu ser, ora, ao contrário, pela divisão nasceu do um o múltiplo: o fogo, a água, a terra e o éter, em sua altitude sem medida; o Ódio, força exterior, destruidora, igual em peso a cada um deles, e o Amor, força interior, igual em comprimento e em largura ao seu ser por ele reunido…
    • Em espírito, contempla-os, não fiques assentado com os olhos abertos.
    • Pois a força oculta nos membros dos homens é o Amor, assim o nomeiam; por ele se cumprem os pensamentos dos amantes e a obra enlaçante do desejo.
    • E os homens o nomeiam também Alegria ou Afrodite.
    • Mas ninguém o viu ainda, movendo-se em círculo através do Todo.
    • Tu, entretanto, escuta a marcha sem mentira de minhas palavras.
    • Todos os elementos são iguais e têm atrás de si a mesma duração; cada um deles cumpre seu papel próprio segundo sua natureza particular.
    • Por sua vez, enquanto os ciclos do tempo continuam, eles comandam.
    • Fora deles, nada vem à vida, e nada deles se vai para morrer, e se tivessem perecido sem perpetuar seu devir, não existiriam mais hoje.
    • Que causa aumentaria o Todo, e qual seria a causa da causa?
    • Como também o Todo poderia perecer, visto que nada saberia ser vazio?
    • Os elementos permanecem o que são; eles não fazem senão trocar suas metamorfoses, saltando uns através dos outros, eternamente semelhantes em seu ser.
  • 18 — Amor!
  • 19 — Enlaçante Amor!
  • 20 — Luta manifesta ainda no conjunto do corpo humano: ora sob a ação do Amor, os elementos se ajuntam em uma massa única, o corpo e as flores da vida crescem então; ora dilacerados pela funesta Discórdia, os fragmentos deslocados erram nas margens onde a morte desaba.
    • Tal é também a sorte das plantas, dos peixes que habitam a onda, das bestas das montanhas, e dos pássaros, navios aéreos.
  • 21 — Vamos, vê se nos testemunhos que acabo de trazer cometi alguma falta, falando da forma dos elementos: o sol brilhante cujo calor por toda parte irradia, as constelações imortais banhadas de claridade vaporosa, e a chuva mãe das trevas e do frio, a terra enfim de onde provém a inabalável densidade. Cedendo à ação do Ódio toda forma se divide e se desloca enquanto os elementos, disjuntos, tendem sob a ação do Amor a se confundir, tomados de um mútuo desejo.
    • Daí provém todo o passado, todo o presente, todo o futuro.
    • Assim crescem perpetuamente as árvores, os homens e as mulheres, as bestas selvagens e os pássaros, os peixes que a onda nutre, e os deuses cuja vida é longa, cumulados de oferenda.
    • Pois os elementos permanecem o que são; saltando uns através dos outros, revestem novas aparências, tanto sua mistura provoca neles mudança.
  • 22 — Eles formam um todo ligado em suas partes múltiplas: o fogo brilhante, a terra, e o céu, e a mar, tudo o que erra longe deles pelo mundo mortal. E como todas as coisas bem inclinadas a se fundirem juntas experimentam uma atração recíproca, pois Afrodite lhes verte o desejo de semelhança, assim as substâncias que sobretudo diferem por sua origem, sua matéria, ou sua forma, inimigas, se separam: pois elas são filhas do Ódio, ao poder de tristeza.
  • 23 — Assim, quando os pintores realçam com cores múltiplas os quadros sagrados, — homens de saber profundo, hábeis em sua arte, cujas mãos escolhem os elixires multicoloridos, para uma harmoniosa mistura segundo proporções variáveis, e dela fazem surgir a imagem e o reflexo de todas as coisas, criando árvores, homens e mulheres, bestas das matas, pássaros e peixes nutridos pela onda, e deuses também, cuja vida é longa, cumulados de oferendas.
    • Tu, portanto, toma cuidado para não enganares teu espírito: para o mundo mortal, para as espécies infinitas que o povoam, não há outra origem.
    • Sabe-o seguramente, uma deusa to revelou.
  • 24 — De cume em cume saltei: meu discurso não deve seguir um único caminho.
  • 25 — Duas e três vezes convém repetir meu belo segredo.
  • 26 — Por sua vez, os elementos comandam, enquanto os ciclos continuam, dissolvendo-se uns nos outros, e por sua vez renascendo pela ordem do destino.
    • Eles permanecem o que são, mas saltando uns através dos outros, tomam a aparência dos homens ou de todas as outras espécies.
    • Ora, sob a ação do Amor, fundem-se em uma mesma entidade, ora, espalhados pelo efeito do Ódio inimigo, veem-se divididos, até que seu todo, de novo reunido em um, seja submetido.
    • Assim, na medida em que o um sempre nasceu do múltiplo, e onde do um deslocado, o múltiplo germinou sempre, eles aparecem e seu tempo não é sem limite; e, por outro lado, na medida em que jamais a mudança detém seu perpétuo devir, tudo existe perpetuamente imutável no ciclo.
  • 27 — Então se velam de trevas o claro rosto do sol, e o corpo peludo da terra, e o mar: tão profundamente no espesso invólucro da Harmonia se envolvia o Sphairos de orbe puro e que, cercado de solidão, exulta.
  • 27 a — Pois a discórdia nem as lutas perniciosas deslocavam seus membros.
  • 28 — Ele se estendia por toda parte idêntico a si mesmo e por toda parte sem limites, Sphairos de orbe puro e que, cercado de solidão, exulta.
  • 29 — Dois ramos não se lançam de suas costas; ele não tem pés, nem joelhos ágeis, nem sexo peludo.
    • Ele é esfera de orbe puro, por toda parte idêntico a si mesmo.
  • 30 — Mas quando o Ódio potente cresceu em seus membros, e ele se lançou ávido de glória, os tempos uma vez cumpridos, — pois o Amor e o Ódio se sucedem segundo os ciclos regidos pelo amplo pacto…
  • 31 — Então, incoercíveis tremores ganharam todos os membros do deus.
  • 32 — Dois elementos se ajustam em juntura.
  • 33 — Assim, quando o suco da figueira encadeia e coagula o leite branco.
  • 34 — Ou a farinha que a água aglutina.
  • 35 — Eis-me de novo, pronto a lançar-me sobre a rota que meus cantos já percorreram, prolongando por palavras o canal já cavado das palavras.
    • Quando o Ódio atingiu no abismo o fundo do turbilhão e que o Amor eclodiu no coração da esfera do mundo, então tudo se confundiu, tendendo à unidade, não em uma só massa, mas segundo vontades e direções múltiplas.
    • Assim, por aglutinação as miríades mortais se formaram, enquanto mais de uma espécie escapava à mistura, alternância disjunta nesse impulso em direção à unidade: o Ódio ainda as mantinha separadas, pois ele não se retirara ainda até os longínquos limites da esfera, cujas zonas certas ainda ocupava, todavia já saído dos elementos.
    • Mas à medida que ele recuava — lançava-se o imortal Amor, toda doçura e pureza, e logo se tornavam mortais as coisas outrora imortais, misturava-se o que antes não era misturado; tudo mudava de rota.
    • E enquanto se fazia a mistura, nasceram as miríades mortais, de formas sempre mais variadas, maravilhosa visão!
  • 36 — Tudo se reunia relegando o Ódio aos extremos limites.
  • 37 — O fogo nutre o fogo, a terra se aumenta de seu próprio corpo, o éter se ajunta ao éter.
  • 38 — Vamos, quero agora revelar-te a origem primeira do sol, a causa que criou o mundo sensível de hoje, a terra e o mar inumerável, o ar úmido, e o éter-titã, que tudo estreita.
  • 39 — Poderia ser que não houvesse fim para a profundidade da terra, e para a imensidão do éter, como tantos mortais o afirmam em um ilhéu de vãs palavras sem nada ver do grande Todo…
  • 40 — Helios de flechas aceradas e, em sua doçura serena, a Lua.
  • 41 — Mas ele rola pelo vasto céu, cercando-o em sua curso.
  • 42 — E quando ele passa acima dela, a Lua lhe oculta seus raios, e recobre a terra de tanta sombra quanta pode portar seu claro rosto.
  • 43 — Mal o brilho de Helios feriu o largo disco da lua…
  • 44 — Helios ferindo o Olimpo, ilumina-o com seu olhar intrépido.
  • 45 — Todo em torno da terra rola a lua, com seu reflexo de mentira.
  • 46 — Ao mais longe do cubo, como a roda de um carro.
  • 47 — A lua contempla face a face o disco sagrado do sol, seu suserano.
  • 48 — A noite nasce da terra que opõe sua massa aos raios de Helios.
  • 49 — A noite deserta de olhos de trevas.
  • 50 — Íris traz do mar o vento e as chuvas abundantes.
  • 51 — Rápido pelo que está aberto jorra o fogo.
  • 52 — Numerosos fogos ardem sob a terra profunda.
  • 53 — O éter em seu impulso revestia formas diversas.
  • 54 — E sob a terra suas longas raízes se enterravam.
  • 55 — Suor da terra — o mar!
  • 56 — O sal se cristalizara, penetrado pelas flechas de Helios.
  • 57 — Então começaram a germinar muitas cabeças sem pescoço e braços separados de seu corpo puseram-se a errar, sem ombros; e olhos privados de frontes, planetas (do mundo do Ódio).
  • 58 — Privados de corpo, os membros, sob o império do Ódio, erravam cá e lá, disjuntos, desejosos de se unirem.
  • 59 — Mas logo que uma divindade se uniu à outra mais estreitamente, viram-se os membros ajustarem-se, ao acaso dos encontros, e outros em grande número sem cessar continuaram a cadeia;
  • 60 — Seres de pés girando durante a marcha, e de mãos inumeráveis.
  • 61 — Outros nasciam com dois rostos, dois peitos, bois de face humana ou, ao contrário, homens de crânio de boi, e ainda os andróginos, de sexo ornado de sombra.
  • 62 — Agora, como a raça dos homens e das mulheres votada às lágrimas germinou na noite sob a ação do fogo quando foi separado, aprende-o de minha boca, pois minha palavra é certeza, meu discurso, experiência. Primeiro, tipos inteiramente formados nasceram do seio da terra, participando ao mesmo tempo da umidade e da chama. O fogo, ávido de lançar-se em direção ao seu semelhante, os fazia crescer, sem que mostrassem em seu corpo a beleza e a graça, nem a voz também, ou o sexo de um homem…
  • 63 — Um violento arrancamento criou os membros, nascidos do homem ou da mulher.
  • 64 — Os olhares despertando sua memória fizeram nascer o desejo que os fundiu em uma mesma unidade.
  • 65 — A semente do macho se espalha no porto cada mês purificado; a fêmea nasce do frio encontrado e do quente nascem os machos.
  • 66 — Nos portos fendidos de Afrodite…
  • 67 — No mais quente do ventre formam-se os machos: não são eles mais morenos, mais fortes e mais peludos que as fêmeas?
  • 68 — Desde o décimo dia do oitavo mês forma-se o pus branco do colostro (do leite).
  • 69 — Duas vezes doadoras de vida. (Ao sétimo e ao décimo mês.)
  • 70 — (O feto), cordeiro aninhado.
  • 71 — Se tua fé hesita ainda em compreender como a mistura da água, da terra, do fogo de Helios e do éter pôde criar as formas e os corpos mortais que nascem hoje tão numerosos dos pares de Afrodite…
  • 72 — e como foram criadas as grandes árvores, os peixes do abismo marinho;
  • 73 — como Kypris outrora, após ter molhado a terra de longas chuvas, deu ao fogo rápido o cuidado de endurecer os corpos que ela modelava…
  • 74 — Afrodite que conduz os bandos cegos dos peixes fecundos.
  • 75 — Bestas de massa compacta, recolhidas em sua concha, e todas moles quando delas saíram, que modelaram no úmido as mãos de Kypris.
  • 76 — Assim as pesadas conchas marinhas, os búzios, as tartarugas de carapaça de pedra, cujo dorso deixa ver uma camada de terra.
  • 77-78 — As árvores sem cessar expandiam suas folhas e seus frutos, guarnecidas de frutos todo o ano.
  • 79 — Assim as árvores esguias põem seus frutos: as azeitonas primeiro.
  • 80 — E as romãs tardias, depois as maçãs cheias de suco.
  • 81 — Apodrecendo sob a casca, a água na madeira se transforma em vinho.
  • 82 — Os cabelos, as folhas, as penas cerradas dos pássaros, as escamas são uma única e mesma substância que cresce sobre os membros resistentes,
  • 83 — e, sobre o dorso eriçado dos ouriços, as cerdas aceradas.
  • 84 — Como um que, meditando caminhar na noite de inverno, preparou sua lâmpada — chama do fogo brilhante acesa em sua lanterna —, eficaz contra o assalto dos ventos, e a luz saltando para fora, tão longe quanto pode, ilumina a sombra de seus raios inflexíveis, assim, prisioneiro das túnicas do olho, o fogo primitivo atravessa a redonda pupila de paredes tênues que retêm cativa a água de que o olho é banhado — e o fogo saltando através tão longe quanto leva para fora seu brilho…
  • 85 — Esta chama alegre não recebeu senão uma parte irrisória de terra.
  • 86 — A divina Afrodite modelou disso os olhos infatigáveis.
  • 87 — Ela os ligou pelas amarras do amor.
  • 88 — Para dois olhos, uma única visão.
  • 89 — Sabe que tudo o que existe tem sua emanação.
  • 90 — Assim o doce busca o doce, o amargo salta em direção ao amargo, o ácido vai em direção ao ácido e o quente é levado em direção ao quente.
  • 91 — A água une-se melhor ao vinho que ao óleo que lhe repugna.
  • 92 — Duros mulos nascidos de sementes moles, como na mistura de cobre e estanho.
  • 93 — A tintura de cochonilha penetra o linho louro. (Ou: ao byssos é misturada a sebe do glauco sabugueiro.)
  • 94 — O negro que se estende na sombria profundidade do rio aparece também nos antros da terra porosa.
  • 95 — Nos primeiros dias, eles nasceram das mãos de Kypris.
  • 96 — A terra bem-amada recebeu em seus vastos cadinhos dois oitavos da fluida e brilhante Nestis, e quatro de Hephaistos: brancos, os ossos formaram-se então, soldados pela Harmonia, maravilhosamente.
  • 97 — A coluna vertebral dos animais que o acaso do nascimento quebrou e voltou em direção à terra.
  • 98 — Mas quando a terra encontrou verdadeiramente em quantidade igual Hephaistos e a chuva e o éter abrasado de luz, ela lançou âncora nos portos perfeitos de Kypris em massas variáveis, e assim se fez o sangue e a carne das diferentes espécies.
  • 99 — O ouvido, nó de carne onde vibra um sino.
  • 100 — Eis como tudo inspira e expira: em todos os seres, canais desprovidos de sangue ramificam-se nas carnes até a superfície do corpo, e em suas embocaduras a superfície extrema da pele é por toda parte perfurada de poros estreitamente cerrados para reter o sangue, licor dos assassinatos — e por seus condutos franquear ao ar uma rota fácil.
    • Também quando o sangue flexível recuou, o ar fervilhante precipita-se em ondas furiosas e quando o sangue aflui saltando, o ar é expirado como quando uma criança brinca com uma clepsidra de cobre cintilante: com sua mão graciosa ela tapa o orifício do tubo e o imerge no corpo prateado da água flexível; esta não sobe então no vaso que lhe interdita a massa de ar pressionando no interior contra os furos estreitos até que o fluxo comprimido seja libertado. Então, o ar mal escapado, pode subir a água em uma massa igual. Do mesmo modo, quando a água enche o cobre profundo e que uma mão humana lhe obstrui o orifício, toda passagem interdita, o ar exterior lançando-se cheio de desejo para dentro recalca a água até a estridente embocadura, cuja extremidade bloqueia, até que a mão se tenha retirado: então de novo pela ação do ar que aflui em sentido contrário, a água escorre em uma massa igual.
    • Assim o sangue flexível que percorre os membros de seu fluxo violento, quando recua e se lança nas profundezas das carnes, o ar logo aflui por ondas impacientes; mas quando o sangue salta adiante, de novo em quantidade igual, o ar é expulso por ele.
  • 101 — Buscando os abrigos das bestas feras, cuja pista farejam sobre a erva tenra.
  • 102 — Assim tudo o que vive recebeu em partilha o sopro e o odor.
  • 103 — Tudo seja dotado de pensamento — foi a vontade do Destino.
  • 104 — Na medida em que as massas mais leves se tocaram ao cair.
  • 105 — Nutrido pelas altas ondas do sangue estridente o coração traz aos homens o pensamento nas espirais de seu fluxo.
    • O sangue que banha o coração é pensamento.
  • 106 — O mundo que se apresenta aos homens aumenta sua sabedoria.
  • 107 — Tudo o que vive construiu assim sua harmonia; assim tudo pensa, goza ou sofre.
  • 108 — Para toda vida diferente o pensamento também se faz, em sonho, diferente.
  • 109 — Pela terra, pela água, pelo ar em nós, conhecemos a terra, a água, e o éter divino, e pelo fogo, o fogo devorador, e o amor pelo amor, o ódio pelo ódio maldito.
  • 109 a — Tudo de que o espelho acolhe a emanação, imagem em harmonia com as pupilas…
  • 110 — Se na trama cerrada de teu pensamento compreendes claramente minhas lições, se, de um espírito puro, te deixas iniciar, então meus segredos serão teus para sempre, e muitos outros por eles te virão: pois deles mesmos eles aumentam no homem, cada um segundo sua natureza.
    • Mas se tu queres conhecimentos diferentes, como aqueles que, por miríades, acabrunham os homens embotando sua atenção ansiosa, esses, enquanto se desenrolam os ciclos do tempo, te deixarão, pois desejam reunir-se à sua própria espécie.
    • Tudo, sabe-o, possui a inteligência e sua parte de pensamento.
  • 111 — Todos os filtros que aliviam doença e velhice, aprende-os. Para ti só os quero pôr em obra.
    • Tu domarás os ventos potentes, infatigáveis, que, erguidos em tromba, acima da terra, devastam as lavouras; e de novo segundo teu querer, tu reconduzirás as brisas benfazejas.
    • Tu darás aos homens após a sombria chuva a secura propícia, após o verão árido, as águas fecundas, nutrizes da árvore e das messes futuras.
    • Tu reconduzirás a alma de um morto da casa das Trevas.
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