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Ambiguidade: jogo de contrários, dialética
Abel Jeannière
O movimento é unidade e dinamismo, possuindo as próprias qualidades do vivente, pois ele epura os conflitos e os ciclos do vivente.
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O germe presente na doutrina de Tales, quando ele concebia o princípio da água de tal sorte que o tipo de ser fosse para ele o vivente, desabrocha em metafísica.
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Essa metafísica prepara o grito do estrangeiro de Eleia no Sofista, que pergunta se se deixará convencer tão facilmente de que o movimento, a vida, a alma, o pensamento não têm realmente lugar no seio do ser universal, que ele não vive nem pensa, e que, solene e sagrado, vazio de intelecto, permanece lá, plantado, sem poder se mover.
A ambiguidade de Heráclito
Platão hesita sobre Heráclito, assim como Léon Brunschwieg hesita sobre Bergson, e essa comparação pode esclarecer.
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O esquema do elã vital bergsoniano é bem conhecido: o elã vital é cristalizado nos seres inanimados, libera-se progressivamente na hierarquia dos viventes até a corrente de consciência, que se afina em consciência mística e, no limite, em vida pura que se identifica com Deus.
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As querelas em torno do Deus de Bergson relevam da ambiguidade de saber se se trata de um Deus vivo que é apenas o resumo da vida do mundo ou se esse Deus está em outro plano.
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Léon Brunschwieg mostrou que o ponto de virada crítico se situa na passagem do Ensaio sobre os dados imediatos da consciência para a Evolução criadora.
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Platão combate primeiro Heráclito quando, no espelho deformante de seus sucessores, ele lhe aparece como um sensualista à maneira de Protágoras, pois o movimento mergulha o pensamento em contradições insolúveis que devem ser rejeitadas do ser.
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Questiona-se se essa ambiguidade de Heráclito não seria a coerência de uma filosofia dialética.
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Grande parte das dúvidas se desvaneceria se se conseguisse coincidir com a intuição fundamental e apreender o ser como movimento, descobrindo então um caráter original nesse ser-movimento, tal que da pedra a Deus, ele é e faz ser, sem que esses graus de dinamismo encerrem mais num monismo do que os graus de ser de uma filosofia clássica.
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A filosofia do movimento empírico acomoda-se perfeitamente da alternância dos contrários, mas uma autêntica metafísica do movimento exige a identidade dos termos que se trocam no movimento que os opõe.
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A pergunta que se coloca é se existe em Heráclito a dialética que consistiria na identidade dos opostos, e não apenas em sua solidariedade.
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Se se tratasse apenas de solidariedade, surpreenderia a fervura com que ele celebra uma descoberta de perfeita banalidade, a solene candura de um Heráclito que não seria mais que o pai do orgulho sofístico, o que ele é realmente, mas apesar dele mesmo.
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A pergunta de A. Rivaud é retomada: Heráclito afirma a identidade dos contrários ou apenas sua alternância? Ele crê em sua oposição absoluta ou os imagina simplesmente relativos uns aos outros, relativos às opiniões dos homens?
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Não seria verdade que, segundo o acaso das ocasiões e dos exemplos, ele pensa alternadamente a cada um dos aspectos da oposição universal, a cada um dos modos da contradição inerente às coisas, aparecendo a contradição, como o devir, sob formas e em graus inumeráveis?
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