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Logos e Razão

Abel Jeannière

O logos é o nome mesmo da identidade enquanto dinamismo criador de harmonia, sendo o sentido e o fundamento do mundo, a norma e a lei que determina tudo e cuja apreensão torna tudo compreensível.

  • Citação do fragmento 50: É preciso escutar, não a mim, mas ao logos, e concordar que todas as coisas são uma.
  • O logos é o movimento mesmo, enquanto esse movimento é ao mesmo tempo causa e fim dos seres, a razão sempre presente, mas escondida, tanto sob os fenômenos que a velam ao revelá-la quanto sob as frases do pensador que quer ajudar os outros a apreendê-la, pois o logos pode ser sugerido, mas não definido.
  • Se ele reúne tudo em um, como a etimologia o deixa entender, é ao realizar a troca dos opostos; o que é reunido não é mais uma mistura, o que é realizado é um retorno ao uno.
  • Ele é o movimento mesmo enquanto lei inteligível, sendo ao mesmo tempo lei do ser e lei do pensamento, mas uma lei que se põe a si mesma como lei.

O logos como lei do ser

Lei do ser, o logos se manifesta nos movimentos e nas mudanças naturais.

  • Citação do fragmento 31: O mar se liquefaz e é medido seguindo a mesma proporção (logos) que existia antes que fosse a terra.
  • A unidade desses opostos chamados matéria e espírito, unidade que constitui o próprio homem, funda-se ainda sobre uma lei que é um logos: a alma está ligada ao corpo forte e harmoniosamente.
  • Leis particulares, logos particulares, são as aplicações e os reflexos do logos universal.
  • Citação do fragmento 2: É preciso, pois, seguir o que é comum. O logos é comum.
  • Essa lei universal, que é o dinamismo mesmo enquanto inteligível, é uma lei de perpétua superação que arrasta o homem para a contemplação do todo na unidade inteligível.
  • Citação do fragmento 115: Próprio à alma é o logos que se aumenta ele mesmo.

A incompreensão dos homens diante do logos

Essa lei do mundo se põe a si mesma como lei e, como tal, é ainda uma razão que funda uma nova lógica.

  • A razão que guia Heráclito é aquela que guia o mundo, incluindo o mundo dos homens cegos que lhe obedecem sem o saber, como os dorminhocos obedecem às leis da vida.
  • Heráclito conhece e proclama a grande lei universal, mas pode-se não estar à escuta do logos, e então não se é mais verdadeiramente um homem.
  • Citação do fragmento 1: Quanto a este logos que é eternamente, os homens são eternamente incapazes de compreendê-lo, tanto antes de terem ouvido falar dele quanto depois de terem pela primeira vez ouvido falar dele. Embora tudo aconteça segundo este logos, eles se parecem com pessoas sem experiência quando se exercem a palavras e a atos parecidos com aqueles que eu exponho, distinguindo cada coisa segundo sua natureza e expondo o que dela é. Mas os outros homens ignoram o que fazem em estado de vigília, como esquecem o que fazem dormindo.
  • Discute-se a tradução da primeira frase do fragmento 1, se se trata de um logos que é eternamente ou de um livro que os homens permanecem eternamente incapazes de compreender.
  • A ambiguidade entre as duas possibilidades é considerada voluntária por Heráclito, e a interpretação mais segura estaria na aceitação da dupla ambiguidade.
  • A tradução de logos por livro explicar-se-ia sobretudo pela recusa de aproximar eternamente de sendo, mas no mesmo fragmento 1 logos se opõe a palavra, e traduzir por livro ou palavra seria querer rebaixar Heráclito ao nível de um tagarela orgulhoso.

O senso comum e o logos comum

O pensamento individual, engajado no sensível e na ação, aí se atola e julga tudo de um ponto de vista particular.

  • Citação do fragmento 2: É preciso, pois, seguir o que é comum. O logos é comum, e no entanto a multidão vive como se cada um tivesse sua própria inteligência.
  • O pretenso bom senso do vulgo não é o verdadeiro senso comum, o senso universal; esse bom senso individual pode no máximo chegar a um acordo de fato, uma união efêmera para uma obra dada, sem que ninguém renuncie a seu julgamento próprio.
  • É preciso elevar-se a um verdadeiro senso comum, comunitário porque fundado na lei que está na própria raiz da sociedade, o que não quer dizer que ele abre a comunidade ao indivíduo; ao contrário, ele isola, mas na comunhão ao logos que dirige tudo.
  • Filosofar consiste primeiro em renunciar à sua inteligência particular, apegando-se por aí mesmo ao logos que pertence a todos, embora a maioria das pessoas não o conheça.
  • Citação do fragmento 17: Muitas pessoas não têm tais pensamentos, por mais numerosas que sejam a se chocar com eles; quando aprendem, não compreendem, eles o imaginam.
  • Citação do fragmento 34: Eles ouvem sem compreender e são como surdos; a palavra lhes dá testemunho: presentes, estão ausentes.
  • Citação do fragmento 51: Eles não compreendem como o discordante se acorda consigo mesmo, acordo de tensões inversas, como no arco e na lira.
  • Citação do fragmento 47: Não tiremos conclusões ao acaso sobre as coisas mais importantes.
  • Citação do fragmento 41: O sábio é uma só coisa: conhecer o pensamento que dirige todas as coisas através de todas as coisas.
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