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Movimento e Identidade
Abel Jeannière
O princípio de Heráclito parece ter ficado em segundo plano nas simplificações mnemotécnicas, sendo ele menos o filósofo do fogo do que o filócritico do mobilismo universal.
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Dizer que tudo flui ou que tudo tem o fogo como princípio é considerado equivalente.
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Citação do fragmento 12: Aqueles que descem aos mesmos rios, águas sempre novas os banham.
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Citação do fragmento 91: Não se toca duas vezes uma substância perecível no mesmo estado, pois pela prontidão e rapidez de sua transformação, ela se dispersa e se reúne novamente, ou melhor, nem novamente, nem depois, é ao mesmo tempo que ela se reúne e se retira, que sobrevém e se vai.
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Heráclito conheceu bem a escola de Mileto e, como os milesianos, concede grande importância ao vivente.
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Tales manifestou, inconscientemente talvez, que o tipo de ser era para ele o vivente, ao tomar como princípio a água animada da potência divina, a água viva e fonte de vida.
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No pensamento de Anaximandro, o movimento eterno começa a ganhar importância, opondo fortemente o infinito do Apeiron ao esparramamento do cosmos, onde o movimento eterno assegura um equilíbrio que imita o infinito.
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Anaxímenes tomou o ar como princípio, o ar que se presta maravilhosamente aos movimentos de condensação e dilatação que explicam as transformações do mundo sensível, sendo também o sopro divino respirado pelo universo concebido como um vivente cósmico, liberando assim o movimento das exigências da justiça cósmica de Anaximandro.
O movimento considerado sob a ótica relativista mascara a intuição heraclítica de um movimento puro, a ser concebido como Bergson concebia a duração pura.
Afirmar que o ser é movimento significa dizer que o movimento precede os seres que ele cria.
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O movimento é o fundo do qual todos os seres se tiram, explica tudo e é a unidade de tudo.
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Citação do fragmento 10: Uniões: inteiros e não-inteiros, convergência e divergência, acordo e desacordo das vozes, enfim de todas as coisas uma e de uma todas.
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Heráclite se apoia constantemente na experiência sensível, embora ela pareça tornar muito difícil uma explicação do mundo pelo movimento, pois não se apreende o movimento fora dos fenômenos e os fenômenos são qualitativamente muito diferentes.
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Afirmar a permanência do movimento, sempre idêntico a si mesmo, enquanto ele parece se diversificar com as qualidades diversas dos diversos fenômenos, foi uma ousadia considerável.
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Sócrates cita Heráclito: o mais belo macaco é feio comparado a um homem, e o mais sábio dos homens será como um macaco diante de deus, para a sabedoria, para a beleza, para tudo.
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A diferença entre as duas filosofias é que Sócrates busca uma ideia, enquanto Heráclito busca uma substância: o movimento, como substância comum de todas as coisas, explicando tudo o que é e é relativo.
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É como substância que o movimento é unidade perfeita do cosmos: de todas as coisas uma, e de uma todas.
Esta filosofia do movimento é também uma filosofia da identidade.
Não é suficiente dizer que a unidade dos seres não deve ser buscada simplesmente numa ideia, mas antes de tudo numa substância; é preciso ainda notar que esta substância, sendo a própria mudança, não deixa nenhuma qualidade fora de si.
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Tudo é fenômeno de uma mesma realidade.
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Para reencontrar a identidade dos seres, basta restabelecê-los fora da instantaneidade ingênua, na grande corrente do devir que os cria ao suportá-los, e fora da qual não há nada.
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Heráclito está nos antípodas de um sensualista como Protágoras, que acaba por não ver mais o mundo senão como uma mosaico desordenada, pois um filósofo da sensação só pode ser um filósofo do múltiplo, que parte do múltiplo e busca no máximo um frágil fio que lhe sirva de unidade, enquanto Heráclito afirma primeiro a unidade com a força de um eleata.
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Questiona-se se não se poderia ao menos fazer dele um naturalista, no sentido de que o movimento não seria nada mais para ele do que uma substância: o fogo.
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A palavra substância deve ser entendida menos no sentido de princípio de permanência do que de princípio de identidade na mudança.
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O fogo seria primeiro um corpo, mas também mais que um corpo, pelo papel que desempenharia numa espécie de física da qualidade.
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Se o movimento é substância, ele é também ideia; o fogo dá aos seres uma unidade que os torna inteligíveis, onde o fogo está presente, o logos está presente.
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O movimento de Heráclito é substância e medida, mas é também ideia.
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Citação do fragmento 64: O raio governa tudo.
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O fragmento 50 é citado para estudo posterior do termo logos, sendo observado que traduzi-lo por palavra ou discurso é inadequado, pois se trata do logos, e não do logos de Heráclito, referindo-se à conformidade das coisas ao logos que se revela nelas.
Ser é tornar-se, e o movimento é causa do múltiplo.
Os seres nascem uns dos outros e sua oposição é apenas um modo de ligação.
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Não há oposição senão na medida em que dois seres, idênticos em seu fundo, nascem um do outro, e, longe de cavar um fosso entre os seres, é a própria oposição que os reúne.
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A filosofia heraclítica da identidade é também uma filosofia da relação.
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O movimento exige, constitui e revela a identidade fundamental de tudo na medida mesma em que se cessa de pensá-lo no nível das aparências sensíveis.
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Uma vez conhecida e afirmada esta identidade, dois seres sem laços entre si cessam de ser pensáveis, não podem mais fazer parte de um mesmo mundo, e a própria exclusão é uma relação que implica a identidade, apesar e pela oposição.
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É dessa maneira que a filosofia do idêntico se faz filosofia do dinamismo.
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Um ciclo ininterrupto de nascimentos e mortes se persegue no universo; o que importa não são os termos (vida ou morte, sono ou vigília, juventude ou velhice), mas a força que faz passar de um ao outro, a força que faz girar o ciclo onde se trocam os opostos.
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Citação do fragmento 36: Para as almas, morrer é se transformar em água, para a água, morrer é se tornar terra. E da terra vem a água, e da água vem a alma.
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