Filolau de Cróton
Bornheim
(Bornheim1967)
Pitagórico, do sul da Itália, nascido em Cróton, Filolau floresceu na parte final do século V a.C. Foi discípulo de Lísis, um dos poucos que conseguiram fugir do massacre de Cróton. Defensor da tirania, parece que a defesa desta causa lhe custou a vida. Diz-se ainda que expôs em um livro a doutrina pitagórica, fato que dá a Filolau uma importância muito grande, pois os fragmentos que vieram até nós são os mais antigos escritos sobre a doutrina pitagórica. Este livro exerceu muita influência sobre o pensamento de Platão.
Mattéi
Filolau de Crotona é o principal pensador da Escola pitagórica, como atestam a importância das descobertas a ele atribuídas e os dois títulos de obras confirmados por Hermippe, Satiro, Neante — em Diógenes Laércio —, Xenócrates — em Jâmblico —, Timon — em Aulo Gélio —, Aécio — em Estobeu —, Téon de Esmirna, o Pseudo-Jâmblico e Lido.
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Filolau era contemporâneo de Sócrates e é um dos raros pitagóricos com dois títulos de obras atestados.
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Suas obras são: Sobre a Natureza, da qual restam 17 fragmentos em dialeto dório, e As Bacantes, da qual restam apenas três fragmentos.
O tratado de física de Filolau parte do princípio de que a natureza no mundo ordenado foi harmonicamente constituída a partir de ilimitados e limitadores, e que todos os seres são essencialmente números — sem o qual nada se pode conceber ou conhecer.
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O tratado começava assim: “A natureza no mundo ordenado foi harmonicamente assemblada a partir de ilimitados e de limitadores, também o mundo ordenado em sua totalidade quanto todas as coisas nele.”
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Esses seres matemáticos opostos são também chamados de “par” e “ímpar”, cada uma dessas formas revestindo múltiplos aspectos na natureza.
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O número é ao mesmo tempo princípio ontológico e princípio gnoseológico.
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Esse dualismo recobre na realidade um monismo, pois os princípios matemáticos contrários são as formas inteligíveis sob as quais aparece “o Um, princípio de todas as coisas.”
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Nicomaco, citando Filolau, comentou que a harmonia nasce somente dos contrários, pois “a harmonia é unificação dos complexos e acordo dos opostos.”
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Téon de Esmirna acrescentou: “Os pitagóricos, que Platão segue em muitas ocasiões, afirmam também que a música é uma combinação harmônica de contrários, uma unificação dos múltiplos e um acordo dos opostos.”
A ideia de uma harmonia única do universo — traço essencial do pitagorismo — adquire dimensão cosmológica com a tese filolauica do centro do mundo: antes do Platão do Crátilo, Filolau identifica a essência e o fogo central.
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“O primeiro composto harmonioso, o Um, que ocupa o centro da esfera, chama-se Héstia” — Estobeu, Escolhas, I, 21, 8.
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Esse fogo central era ainda chamado de “casa de Zeus”, “mãe dos deuses”, “altar, congregador e medida da natureza” — Aécio, Op., II, 7, 7.
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Filolau parece ser o primeiro pensador a afirmar que a Terra não está no centro do universo, mas que este é ordenado em torno de um único fogo central — sistema pirocêntrico que põe em questão o geocentrismo que vigoraria até Copérnico.
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Como ocorreria também com Copérnico, Tycho Brahe e Kepler, a intuição religiosa guiava a hipótese propriamente científica.
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O cosmos é forjado por uma aspiração do vazio ilimitado, situado fora da esfera, sob a ação do fogo central; no alto, a envoltura do universo é um fogo que responde ao precedente; “o meio é por natureza primeiro” — Aécio, ibid.
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Em torno do fogo central gira a ronda dos dez corpos divinos: a esfera das fixas, os cinco planetas conhecidos, o Sol, a Lua, a Terra e, abaixo da Terra, por razões de simetria com o número perfeito da Década, a Contra-Terra.
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A parte superior do universo, onde se encontram os elementos mais puros, é chamada “Olimpo”; depois vem o “cosmos”, com os cinco planetas, o Sol e a Lua; e o “céu” é a região sublunare na proximidade da Terra.
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Segundo Estobeu, Filolau admitia cinco corpos na esfera do Todo: fogo, água, terra e ar contidos “na esfera”, aos quais se acrescentava “um quinto, a casco da esfera”, que é o dodecaedro.
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Aécio identifica explicitamente os cinco elementos aos cinco poliedros regulares.
A Filolau se deve a rejeição da hipótese geocêntrica e a ideia do movimento da Terra, o que constitui dupla revolução para a ciência grega, sendo notável que sua física e astronomia sejam de natureza matemática, embora sua intuição seja de ordem religiosa.
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Em sua visão do universo, as especulações místicas sobre os dez primeiros números são indissociáveis dos cálculos aritméticos e das construções geométricas ligadas à constituição do Todo.
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Quanto à alma humana — que constitui uma harmonia como cada realidade —, ela é análoga ao Todo que pode apreender pelo logos.
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Sexto Empírico escreveu a propósito de Filolau, retomando fórmula homérica da Odisseia: quando o espírito contempla o mundo, “ele se aparenta a ele, pois por natureza o semelhante é percebido pelo semelhante.”
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Em sua antropologia, Filolau distinguia uma tétrade de quatro princípios: o cérebro é o princípio da inteligência, o coração, o da alma, o umbigo, o do enraizamento do embrião, e o sexo, o da geração.
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A alma é necessariamente imortal porque é semelhante ao mundo que pode contemplar e compreender.
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Se ela se encontra ligada a um corpo perecível, “é em punição de certas faltas que a alma foi atrelada ao corpo e sepultada nele como em um túmulo.”
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Platão faria amplo uso dessas imagens para representar a natureza alada da alma e sua queda terrestre.
