A MÚSICA
(Jean Brun, “Pré-Socráticos”)
Os Pitagóricos interessaram-se muito particularmente pela música. Para além do próprio Pitágoras, convém apontar Hipaso de Metaponto, Aristóxenes de Tarento e Nicômaco de Gerasa. Como princípio que concilia os princípios contrários que entram na constituição de qualquer ser, a harmonia é a proporção que une, em qualquer domínio, os elementos em discórdia. Encontra-se naturalmente na música, onde as noções de consonância e dissonância desempenham papel de relevo. Além disso, a música encerra uma aritmética oculta que os Pitagóricos se empenharam em fazer surgir, sublinhando o papel essencial desempenhado pelo número e pela proporção. Como diz Tião de Esmima:
«Se se diz que há números consonantes, não se poderia encontrar fora da aritmética a razão da consonância que possui as maiores virtudes, sendo a verdade na alma racional, a felicidade na vida, a harmonia na natureza; e a própria harmonia espalhada no mundo só se oferece aos que a procuram, quando lhes é revelada pelos números.»
A harmonia sensível é a que se faz sentir pelos instrumentos, a harmonia inteligível, a que consiste nos números. Por essa razão os Pitagóricos se debruçaram sobre as relações entre o comprimento e a espessura das cordas, bem como entre a tensão a que são submetidas pelo rodar das cavilhas e os sons que as mesmas cordas poderiam emitir quando se fizessem vibrar. A determinação numérica dos intervalos, bem como a invenção do octocórdio e do heptacórdio eram atribuídas a Pitágoras. Os Pitagóricos estudaram igualmente as relações entre sons e volumes de vasos percutidos: «uns pretenderam obter tais consonâncias por meio de pesos, outros, de comprimentos, outros, de movimentos numerados, outros ainda, pela capacidade dos vasos. Conta-se que Laso de Hermione e os discípulos de Hipaso de Metaponto, este último da seita de Pitágoras, observaram em vasos a rapidez e lentidão dos movimentos com cujo auxílio as consonâncias se calculam em números. Tomando vários vasos da mesma capacidade, deixaram um vazio e encheram outro até meio com um líquido; percutiram em seguida cada um deles e obtiveram a consonância da oitava.» Estes estudos das relações de consonância eram de capital importância não apenas para a construção de instrumentos de corda ou sopro mas ainda para a construção dos teatros, atentos os problemas de acústica que a seu respeito se levantam.
Esta harmonia musical preside a toda uma concepção do mundo.
A noção de intervalo harmônico, a cuja constituição preside o número, raiz de todas as coisas, encontra-se igualmente no âmago da arquitetura, mais precisamente da arquitetura sagrada, onde devem ter desempenhado importante papel as tradições egípcias. O templo grego constitui uma verdadeira música petrificada, e Georgíades pôde, pelo estudo dos intervalos que separam as colunas do Pártenon e os Propileus, encontrar números rigorosamente proporcionais à escala pitagórica. Semelhantes tradições de harmonias arquiteturais, com as habilidades que comportavam para construir poliedros regulares ou figuras repletas de simbolismo esotérico, como o hexágono, a rosácea, o pentagrama, transmitiram-se dos Pitagóricos aos construtores de catedrais da Idade Média. As mesmas tradições se encontram no centro da obra capital de Vitrúvio (século I a.C.), De Architectura que foi um dos livros de cabeceira da Idade Média e do Renascimento1).
Deste modo, no e pelo número, a proporção e a harmonia, é Corpo e dos corpos; traduz a divisão da Unidade e os diferentes do nosso moderno conceito de velocidade. Os intervalos temporais da música e os intervalos espaciais da arquitetura unem-se no ritmo e presidem ao harmonioso conúbio da extensão e da duração.
Quando Platão diz da música e da astronomia que são duas ciências irmãs (República, VII, 530 d), fala como alguém para quem a doutrina de Pitágoras não devia guardar muitos segredos. Eis uma passagem de Tião de Esmima que nos permite compreender o que deve entender-se por «harmonia das esferas celestes»; «Relativamente à posição e à ordem das esferas ou dos círculos em que se transportam os planetas, eis a opinião de certos Pitagóricos. O círculo da Lua é o mais próximo da Terra, o de Mercúrio é o segundo acima, depois vem o de Vênus, o do Sol é o quarto, vêm em seguida os de Marte e Júpiter, o de Saturno é o último e o mais próximo das estrelas. Eis o que declara Alexandre da Etólia (…) :
As sete esferas dão os sete sons da lira e produzem uma harmonia (isto é, uma oitava) por causa dos intervalos que os separam dois a dois.
Segundo a doutrina de Pitágoras, sendo o mundo ordenado harmoniosamente, os corpos celestes, que estão distanciados dois a dois segundo as proporções dos sons consonantes, produzem, pelo seu movimento e pela velocidade da sua revolução, os sons harmônicos correspondentes.»2) O mundo é como uma lira de sete cordas. Deste modo, para os Pitagóricos, a escala é um problema cósmico e a astronomia uma teoria da música celeste.
