TP10-1 – Último na ordem das inteligências
Primeiro argumento:
Assim como o último na ordem dos corpos é incorruptível, o mesmo se aplica ao último na ordem das inteligências.
Sendo a ordem dos corpos subordinada à ordem dos intelectos e dependente dela, a ordem dos corpos segue a ordem dos intelectos, assim como a pegada acompanha o próprio pé e a sombra acompanha o corpo. Portanto, devemos conjecturar que nas inteligências reina uma ordem muito semelhante à que vemos nos corpos.
Na ordem dos corpos, vemos que o corpo mais elevado, ou seja, o céu superior, contém em sua natureza o conjunto das forças de todas as formas a serem criadas e é por meio dessas forças, ativas e eficazes, que ele prepara os corpos inferiores para receber as diversas formas. É por isso que, pelas forças variadas de sua natureza e pelos diversos modos de seu movimento, ele move e forma de maneira variada os corpos inferiores, de modo que se pode dizer, com razão, que o céu mais elevado contém, por sua ação ou por sua virtude ativa, as formas dos outros corpos. Quanto aos corpos seguintes, podemos afirmar que eles dependem dele de tal maneira que possuem eles mesmos as mesmas formas em uma espécie de poder receptivo, como se diz, e passivo, e que as recebem dele em ato. Mas a ordem respeitada é tal que quanto mais elevado é um corpo sob o céu, mais ele possui poder ativo e menos poder passivo. De fato, aquele que está mais próximo do primeiro, que recebe e sofre apenas do primeiro, age sobre muitos. Aquele que está colocado no grau seguinte sofre mais, age menos, porque já sofre de dois, a saber, do primeiro e do segundo; o que recebe, ele espalha sobre os seguintes, até chegar a uma matéria inferior que, recebendo de tudo o que está acima dela, não dá nada de si mesma. Assim, ela possui em potência passiva todas as formas que recebe sucessivamente dos anteriores, sofrendo. Ela não possui nenhuma em potência ativa. Pense que o mesmo se aplica às inteligências cujo princípio é Deus. Por um ato único e próprio, Deus possui todas as ideias inteligíveis, distribui-as a todas as inteligências, não recebe nenhuma. As inteligências que vêm depois dele recebem todas as ideias dele e se comportam entre si de tal maneira que aquela que é mais elevada distribui, por assim dizer, a uma menos elevada essas ideias e a luz. Portanto, quanto mais elevada é uma inteligência, menos dependente ela é, mais numerosas são aquelas que ela comanda. Assim, ela sofre menos ao receber, mas age sobre um número maior ao distribuir. Finalmente, a última das inteligências deve ser tal que esteja em oposição ao primeiro princípio dessas ideias, que receba de todas e não dê a nenhuma, e que, de acordo com sua natureza, possua todas essas ideias em potência ativa e nenhuma em potência passiva, uma vez que não comunica ideias a um intelecto que lhe seja subordinado. De fato, no primeiro intelecto, há apenas o poder ativo das ideias; nos seguintes, o poder ativo e o poder passivo alternadamente; na inteligência inferior, o poder passivo. É Deus que ocupa o posto do primeiro céu, as inteligências intermediárias o posto dos corpos seguintes; o lugar da matéria mais baixa é ocupado pela inteligência inferior, que por sua natureza recebe em ato, ou seja, vê sucessivamente todas as razões inteligíveis e não as contempla todas em ato ao mesmo tempo, assim como a matéria recebe as formas corporais passando de uma para outra.
Essa matéria, por não provir de uma matéria anterior, precisa de um criador infinito e, consequentemente, é criada somente por Deus ou emana dele. É razoável que um poder simples venha de um ato simples que, por estender sua ação além das ações de outros agentes, cria sozinho a matéria que ocupa o último grau na natureza. Se somente Deus cria a matéria, que é o menor dos seres corporais, somente Ele cria a inteligência, que é o menor dos intelectos. Se, de todas as obras divinas, a matéria é a obra mais distante de Deus, a espécie intelectual, ao contrário, é a mais próxima e, se a matéria é produzida independentemente da inteligência, com maior razão a inteligência pode ser produzida independentemente da matéria. Se o último intelecto no gênero dos seres inteligentes tem um posto semelhante ao da matéria no gênero das coisas da natureza e se a matéria não pode ser produzida por nenhuma coisa natural, segue-se que o último intelecto não pode ser produzido por nenhuma espécie de intelecto que exista nesse gênero. Se tal intelecto não depende de nenhum intelecto do mesmo gênero ou de um intelecto muito superior, ainda menos se deve pensar que ele depende do gênero das coisas naturais e muito menos da matéria. Daí resulta que a última inteligência não é extraída da matéria; daí se segue também que ela é incorruptível. Pois, sendo a ordem das inteligências mais nobre do que a ordem corporal e a ordem das coisas corporais descendo finalmente à matéria eterna, uma vez que essa matéria nunca se corrompe, quem seria louco o suficiente para admitir que a ordem das inteligências, que é mais estável e mais divina do que os corpos, acabaria finalmente em uma inteligência corruptível? Portanto, o intelecto mais baixo deve ser eterno, ele que é ordenado às formas inteligíveis, como a matéria prima às formas sensíveis. Mas a matéria não está sujeita à corrupção corporal nem por uma das formas sensíveis, uma vez que é informada por elas, nem por uma das ideias inteligíveis, uma vez que é aperfeiçoada por elas. Portanto, a última inteligência não está sujeita a corrupção espiritual por uma ideia inteligível, uma vez que é aperfeiçoada por tais ideias, nem está sujeita a corrupção corporal por uma forma sensível, pois a inteligência é superior e não inferior às espécies corporais. A corrupção corporal não tem influência sobre a inteligência, assim como a corrupção espiritual não tem influência sobre a matéria. Além disso, se a violência espiritual não tem influência sobre a inteligência, a violência corporal terá ainda menos influência sobre ela devido à consistência dos corpos. E mesmo que a corrupção das coisas corporais não atinja a matéria que lhes está sujeita, ela manchará ainda menos a inteligência, que é mais elevada do que elas.
Que o último intelecto seja eterno: isso está entendido. Mas o que é ele? É o intelecto humano. Quem duvida que haja em nós um intelecto, uma vez que só podemos discutir os intelectos pelo poder do intelecto? E assim como o olho só capta a luz do sol por uma luz interior que lhe é própria, da mesma forma nossa alma só busca e contempla os intelectos divinos por seu próprio intelecto. Mas qual é a natureza desse intelecto que é nosso? Não me preocupo muito com isso, pois, seja ele qual for, será eterno. De fato, os intelectos superiores são, sem dúvida, eternos, se o mais baixo é eterno. Da minha parte, penso que nossa inteligência é a última, como pensavam muitos dos antigos, pela razão de que ela não realiza suas operações de uma só vez, mas, como Proteu, retorna sucessivamente em si mesma as formas e compreende assim por sucessão, como a lua, que é o último dos astros, muda sucessivamente sua luz, enquanto os outros não mudam a sua. Portanto, nossa inteligência é a última. Ela também é eterna. Por ser eterna, ela aspira aos bens eternos e, sempre que não é perturbada pelo corpo, ela os alcança imediatamente e se deleita somente neles, como se fossem próprios e aparentados a ela. Ora, o movimento natural de todo ser é aquele que se produz assim que o obstáculo é removido. Por outro lado, ele é orientado para o termo que lhe é mais semelhante. Ora, como a alma é a última, ela ama a natureza dos corpos como se fosse aparentada com ela: ela se aproxima dela, a vivifica e a governa.
