TP11-1 – A inteligência está unida a um objeto eterno
Primeiro argumento:
A inteligência está unida a um objeto eterno.
Ela recebe espécies puras e razões eternas.
A razão de uma coisa, em estado puro, é o que compreendemos em ato, em um ato primeiro e direto, e de maneira particular. O que é compreendido em ato está mais unido ao intelecto pela espécie intelectual do que o que se vê em ato está unido à visão pela espécie visual, e isso tanto mais quanto o que é mais puro resulta em um vínculo mais estreito. Essa ligação se fortalece ainda mais pelo fato de que o objeto visível está fora da visão, enquanto a razão inteligível, que está presente não apenas em toda a matéria do universo apta a receber dela uma forma, mas também em todos os lugares, uma vez que não afeta um lugar específico, encontra-se sem dúvida nas profundezas das inteligências, profundezas que lhe são conexas, o que faz com que elas sejam sempre influenciadas por ela e para ela. Se a união se faz entre o intelecto que compreende e essa espécie intelectual ou essa razão representada pela espécie e se essa espécie ou razão, como tal, está separada do lugar, do tempo e das outras paixões da matéria, o intelecto nesse ato em si mesmo será libertado. Esse ato é o ato próprio do intelecto em si mesmo. Ora, o ato próprio acompanha a essência própria e vice-versa. É por isso que o intelecto estará a salvo de qualquer influência da matéria, não apenas por seu ato próprio, mas também por sua essência própria. E assim como essa razão universal, tomada em si mesma, abrange a totalidade do lugar e do tempo, embora, ao se voltar para a matéria, ela se rebaixe ao nível do lugar e do tempo, da mesma forma a inteligência que lhe é adaptada por natureza, ao olhar para o corpo, limita-se a certas partes do lugar e do tempo, no entanto, tomada em si mesma, ela abrange, de certa forma, um e outro em sua totalidade. Tanto mais que a espécie, de acordo com seu valor de significado, não pode ser independente, se a inteligência, que é ao mesmo tempo seu sujeito e sua fonte, não for independente, já que todo sujeito recebe as qualidades de acordo com sua natureza e a fonte comunica seu sabor aos riachos que dela emanam. Daí decorrem duas consequências. Uma é que a substância da inteligência não provém das profundezas da matéria. A outra é que ela é imortal, pois é uma com essa espécie ou razão universal que, por ser universal, escapa ao lugar e ao tempo.
Mas raciocinemos ainda sobre o mesmo assunto da seguinte maneira. O inteligível é a perfeição própria do intelecto. Portanto, o intelecto em ato e o inteligível em ato são uma única e mesma coisa. De fato, o intelecto, enquanto tem o poder de compreender, ainda não está unido ao objeto que tem o poder de ser compreendido; mas quando compreende em ato, ele está unido ao objeto, agora compreendido em ato. Ora, ele está unido a ele, afirmam os peripatéticos, porque a forma desse objeto está gravada na inteligência. Mas o que resulta em uma única forma constitui apenas uma realidade. Portanto, é uma única coisa que resulta da inteligência que compreende e da coisa compreendida, uma vez que a forma dessa coisa, como tal, informa a inteligência. Consequentemente, o que convém ao inteligível, enquanto inteligível, convém ao intelecto, enquanto intelecto, porque a perfeição e o sujeito da perfeição são de um único e mesmo gênero e estão sempre unidos entre si por uma relação recíproca. Ora, o inteligível, enquanto tal, é necessário e eterno. De fato, na especulação, não levamos em conta o que é corruptível, porque consideramos que não sabemos nada se não possuímos a razão certa e necessária de uma coisa, e que o necessário é o que é perfeitamente compreendido pelo intelecto, enquanto o contingente, como tal, é compreendido de forma imperfeita. De fato, quando o intelecto julga o contingente, muitas vezes se engana. Se não quiser se enganar, ele hesita. Esses dois atos, enganar-se e hesitar, são imperfeitos. Portanto, é com razão que ele costuma hesitar quando trata do contingente, temendo que uma mudança ocorra entretanto e que ele seja obrigado a fazer um julgamento diferente sobre essas coisas em momentos diferentes. Por exemplo, no momento em que dizemos que Platão está sentado, ele pode ter se levantado nesse intervalo. Enquanto as definições universais são eternas, como esta: o homem é um animal racional. As propriedades das espécies que são propriamente definidas, como esta: todo ser racional pode raciocinar, também são eternas. Definições e propriedades desse tipo são sempre verdadeiras, mesmo que não houvesse nenhum homem vivo na Terra. O intelecto as discerne claramente, as mantém firmemente, as afirma sem erro ou hesitação. E se ele compreende o contingente, é principalmente ao compreendê-lo em função dessas razões universais, pois julga o corruptível, não como tal, mas como eterno. Unido às razões eternas e sendo aperfeiçoado apenas por elas, o intelecto é, portanto, eterno. Se o intelecto as compreende e se o que compreende tem alguma relação com o que é compreendido, certamente o intelecto estará em conformidade com essas razões. Elas não têm começo nem fim. Ora, se a inteligência tem ambos, ela não terá nenhuma relação com elas, porque se distinguirá delas por condições absolutamente contrárias. Consequentemente, a inteligência ou sempre existiu e sempre existirá, como elas, ou, se começou a existir, nunca cessará.
