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TP16-1 – Por que as almas estão trancadas em corpos terrenos

  • Necessidade metafísica da multiplicidade e a visão divina dos seres singulares
    • Definição da essência divina como princípio, meio e fim de todos os gêneros e indivíduos, possuindo uma perspicácia infinita que, por ser luz pura e desprovida de matéria, discerne o particular sem sofrer aviltamento ou deficiência.
    • Refutação da tese de Averroes sobre a indignidade da contemplação de realidades inferiores, sustentando que o conhecimento do imperfeito, quando realizado pela perfeição infinita, não macula o observador, mas completa a posse de toda a verdade.
    • Superioridade do modo de conhecimento divino em relação ao angélico e humano, operando uma percepção distinta e total que abrange o infinito, em oposição à percepção confusa e finita das potências inferiores.
  • Hierarquia das inteligências e a recepção angélica das formas exemplares
    • Caracterização do intelecto angélico como substância estável que apreende a totalidade do real independentemente dos corpos, extraindo da luz divina os modelos e espécies que sua própria natureza finita não poderia produzir de forma absoluta.
    • Distribuição das ordens angélicas em nove graus contemplativos e hierarquias governativas vinculadas às esferas celestes, atuando como meios diáfanos através dos quais o raio formador da divindade descende até as almas inferiores.
    • Processo de multiplicação do raio divino que, ao afastar-se da unidade simples, desdobra-se em ideias de crescente particularidade, permitindo que inteligências superiores compreendam o todo por poucas fórmulas universais, enquanto as inferiores exigem multiplicidade de conceitos.
  • Condição da alma humana como inteligência última e a carência do conhecimento individual
    • Localização da alma no limiar entre o intelecto puro e a matéria, atuando como uma inteligência receptiva que, em seu estado separado e original, apreende apenas naturezas comuns e espécies universais, permanecendo insatisfeita em seu apetite natural pela verdade singular.
    • Diferenciação entre a ação pura de Deus, a ação e paixão dos anjos e a paixão predominante da inteligência humana, que recebe as ideias sem possuir a potência interna para dividi-las em conceitos distintos de indivíduos sem o auxílio da experiência.
    • Função da alma como governante vital que, movida por um desejo amoroso pelas coisas inferiores, une-se ao corpo terrestre para organizar a vida e julgar as paixões externas através dos sentidos.
  • Dinâmica do conhecimento sensível e a formação da razão discursiva
    • Operação do corpo humano como mediador que recebe impulsos dos quatro elementos, permitindo à alma discernir imagens singulares pela fantasia e conservá-las na memória como substrato para a atividade racional.
    • Processo de inquirição da razão sobre a substância, causa e grau das qualidades sensíveis (como a doçura do mel), passando do julgamento particular de dados fantásticos à busca de definições universais recebidas da inteligência superior.
    • Justificação da utilidade do corpo: a habitação terrestre ensina a alma a mover-se entre o geral e o particular, contraindo o hábito do discurso que permite aplicar fórmulas intelectuais a realidades singulares.
  • Destino da alma separada e a persistência da inclinação para o mundo fenomênico
    • Proposição de que o hábito da discursividade adquirido no corpo permite à alma, após a morte, dividir facilmente ideias gerais em conceitos particulares, mantendo um cuidado vigilante sobre os assuntos humanos enquanto perdura a inclinação corpórea.
    • Reflexão sobre o estado final da alma que, ao atingir a contemplação intensa das realidades divinas, desliga-se da percepção dos singulares terrenos, não por impotência, mas pela absorção total na luz da fonte suprema.
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