renascimento:ficino:teologia-platonica:tp6:tp6-2

TP6-2 – A alma não é um corpo

  • Fenomenologia do erro materialista e a hegemonia dos sentidos sobre a convicção racional
    • Investigação acerca da patologia do juízo vulgar que, seduzido por uma funesta e prolongada habituação às formas densas, atribui natureza corpórea ao sopro vital, negligenciando a pureza da investigação metafísica em favor de uma ontologia puramente empírica e falível.
    • Crítica à pedagogia da ignorância imposta por preceptores que limitam o horizonte cognitivo da juventude ao domínio do tangível, forçando a inteligência, rainha das faculdades, a contemplar a alma apenas através de simulacros deformados, manchados pela lama das paixões e pela opacidade dos membros físicos.
  • Arquitetura das potências anímicas e a gradação das operações vitais, sensoriais e intelectivas
    • Análise da potência natural ou vegetativa que opera na interioridade da matéria para engendrar, nutrir e expandir o organismo, respondendo estritamente às leis da extensão e permanecendo incapaz de reconhecer qualquer realidade que extrapole o limite do corpo ou do resíduo sensorial.
    • Delimitação do exercício da alma através do corpo, manifestado na sensibilidade externa que fragmenta a unidade anímica em cores, sons e texturas, e na sensibilidade interna ou fantasia, que atua como repositório de imagens materiais, mantendo a consciência cativa de uma retórica de sombras.
    • Definição da inteligência como ato puro e imaterial da alma que opera por si mesma, despojada de órgãos ou mediações físicas, buscando e descobrindo realidades que não possuem volume, peso ou cor, elevando o ser humano à dignidade do divino através da contemplação de essências universais.
  • Dialética da ascensão geométrica e a descoberta da unidade substantiva como centro de força
    • Exercício de abstração intelectual que conduz o pensamento da tridimensionalidade do corpo à superfície bidimensional, desta à linha unidimensional e, finalmente, ao ponto geométrico, que, sendo termo e limite da extensão, já prefigura a natureza indivisível e incorpórea da substância espiritual.
    • Transcendência do ponto em direção à unidade absoluta, potência que não ocupa lugar mas anima o todo, assemelhando-se à forma ignea que, quando concentrada em um centro indivisível, adquire uma força de irradiação capaz de aquecer, vivificar e compreender o universo sem ser por ele limitada ou contida.
  • Experimentos mentais e analogias da luz na verificação da imortalidade e da luz inteligível
    • Reconstituição da tese de Avicena sobre o homem suspenso no vazio, que, mesmo privado de todo influxo sensorial e histórico, afirmaria a própria existência como essência pura, demonstrando que a autoconsciência da alma é independente da percepção de membros ou de qualquer exterioridade material.
    • Reflexão sobre a luz como metáfora da inteligência, que se propaga instantaneamente e penetra os corpos sem os romper, servindo como ponte conceitual para entender a alma não como um objeto visível, mas como o centro luminoso de onde emana a percepção, sendo a inteligência para a alma o que o sol é para o mundo visível.
  • Reintegração da alma à sua pátria invisível e o papel da razão na retificação do mundo fenomênico
    • Aplicação da alegoria da caverna para ilustrar a condição humana como um estado de cegueira habituada às sombras, onde o retorno à luz da verdade exige uma ascese rigorosa, tempo e o desenvolvimento de novos hábitos intelectivos que permitam suportar o brilho da realidade divina e eterna.
    • Afirmação da superioridade da razão sobre os sentidos, dado que apenas a faculdade racional possui o poder de corrigir as ilusões ópticas, auditivas e gustativas, provando ser uma natureza mais nobre e verdadeira que habita um gênero de substância superior, destinada a voar além do universo físico para encontrar sua própria imensidão.
renascimento/ficino/teologia-platonica/tp6/tp6-2.txt · Last modified: by mccastro