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Teoria música-espírito de Ficino

Foco central da obra “De Triplici Vita” reside no conceito de spiritus, concebido como instrumento psicofisiológico fundamental. Objetivo triplo do tratado: preservação da saúde, prolongamento da vida e gerenciamento de influências astrais para intelectuais. Preocupação central é com sacerdotes das Musas, figuras dedicadas à busca da verdade suprema, que negligenciam instrumento essencial de sua investigação: o espírito.

Definição médico-filosófica de spiritus como vapor corpóreo.

  • Definição de origem médica: vapor do sangue, puro, sutil, quente e límpido.
  • Processo de geração: formado a partir da parte mais sutil do sangue, aquecida pelo calor do coração, ascende ao cérebro.
  • Função instrumental: alma utiliza-o como primeiro instrumento para exercício de sentidos internos e externos.
  • Cadeia de serviço hierárquica: sangue serve ao espírito, espírito serve aos sentidos, sentidos servem à razão.
  • Natureza de elo intermediário: constitui vínculo material entre alma incorpórea e corpo físico, sendo central para percepção, imaginação e atividade motora.
  • Analogia moderna possível: pode ser aproximado aos “espíritos animais” da tradição cartesiana, como exposto no Tratado das Paixões.

Condição particular do espírito dos estudiosos e relação intrínseca com temperamento melancólico.

  • Desgaste específico: uso constante em atividades intelectuais e imaginativas consome o espírito, exigindo renovação contínua a partir do sangue.
  • Consequência fisiológica: processo de renovação deixa sangue residual espesso, seco e negro, predispondo ao temperamento melancólico.
  • Natureza ambivalente dos espíritos melancólicos: gerados a partir da bile negra, são excepcionalmente finos, quentes, ágeis e inflamáveis.
  • Dinâmica de desequilíbrio: tendem a inflamar-se, produzindo estado temporário de mania ou exaltação, seguido por depressão ou letargia devido à fumaça negra residual.
  • Possibilidade de equilíbrio ideal: se a melancolia for temperada com fleuma, bile amarela e, sobretudo, sangue, os espíritos alcançam incandescência sem combustão, permitindo estudo contínuo em alto nível.
  • Vinculação astrológica: extremos de loucura, estupidez ou gênio contemplativo são ligados à influência ambivalente do planeta Saturno, regente dos melancólicos.
  • Necessidade de contrapeso astral: intelectuais devem atrair influência de planetas benéficos, como Sol, Júpiter, Vênus e Mercúrio.

Regime de preservação da saúde do espírito e prevenção dos perigos da melancolia.

  • Conselhos detalhados sobre dieta e regime de vida.
  • Tríplice nutrição para o espírito: vinho e aromas; odores e ar puro ensolarado; música.
  • Correspondência possível, mas não rigidamente aplicada, com tríplice divisão dos espíritos em naturais, vitais e animais.
  • Primazia da música entre os três tipos de nutrição, atuando sobre os espíritos vitais ou animais.

Teoria da potência singular da música e seus fundamentos ontológicos e psicológicos.

  • Princípio fundamental da similitude: poder da música deriva da identidade de natureza entre seu meio transmissor, o ar, e o espírito humano.
  • Características compartilhadas: ambos são formas de ar vivo, que se movem de maneira altamente organizada, e podem ser portadores de conteúdo intelectual através de texto no canto.
  • Mecanismo de ação terapêutica e psicológica: canto e sons, enquanto produtos da cogitação do espírito, do ímpeto da fantasia e da emoção do coração, impregnados de ar, impactam o espírito aéreo do ouvinte na junção entre alma e corpo.
  • Efeito em cadeia: movem facilmente a fantasia, tocam o coração e penetram as profundezas do espírito.
  • Superioridade sobre outros meios de transmissão: efeito da música excede o de outros sentidos porque seu meio, o ar, é da mesma natureza que o espírito, ao qual todas as sensações, em última instância, chegam.

Análise comparativa da hierarquia dos sentidos e da primazia do ouvido sobre a visão.

  • Inferioridade dos sentidos inferiores: gosto, olfato e tato são incapazes de transmitir conteúdo intelectual complexo.
  • Comparação crucial entre audição e visão: Ficino atribui à audição um efeito mais poderoso sobre o espírito, embora não necessariamente a considere o sentido mais elevado intelectualmente.
  • Primeira explicação: teoria da sensação por identidade de substância.
    • Órgão sensorial contém substância idêntica ao que é percebido.
    • Olho contém algo luminoso, ou água (potencialmente luminosa segundo Aristóteles), enquanto ouvido contém ar interno identificado com o spiritus aereus.
    • Consequência: sons, sendo ar animado em movimento, combinam-se diretamente com o espírito aéreo na orelha, afetando corpo e alma sem mudança de natureza, ao passo que impressões visuais necessitam de transdução por órgão de natureza diferente.
  • Segunda e mais fundamental explicação: primado ontológico do movimento sobre a estática.
    • Som é movimento transmitido; visão transmite apenas imagens estáticas.
    • Analogia com a natureza da alma: consonância musical está presente no elemento mediano universal, o ar, e chega ao ouvido por movimento, especialmente movimento esférico, adequando-se à alma que é também mediana entre as coisas e origem do movimento circular.
    • Capacidade mimética superior: som musical transmite, como se animado, emoções e pensamentos da alma do músico para a do ouvinte.
    • Limitação da visão: impressões visuais, embora puras, carecem de eficácia do movimento e são percebidas apenas como imagem sem realidade, comovendo a alma apenas levemente.
    • Ação integral da música: move o corpo pelo movimento do ar; pelo ar purificado, desperta o espírito aéreo, que é o elo corpo-alma; pela emoção, afeta simultaneamente sentidos e alma; pela significação, atua sobre o intelecto; por sua natureza híbrida, espiritual e material, captura o homem em sua integralidade.
  • Conclusão sobre a relação com a realidade: audição coloca em contato mais direto com realidade exterior, pois movimentos aéreos do som podem realmente ocorrer dentro do espírito do ouvinte, enquanto visão fornece apenas imagens superficiais.

Música como imitação poderosa e ar musical como entidade viva.

  • Potência mimética total: canto imita intenções e afecções da alma, o discurso, gestos corporais, movimentos humanos e características morais, assumindo todos os papéis.
  • Efeito performativo: incita tanto cantor quanto ouvinte a imitar e realizar as mesmas coisas imitadas.
  • Matéria do som concebida como entidade viva: ar quente, capaz de respirar e viver em certa medida, constituído de membros articulados como animal, portador de movimento, emoção e significado.
  • Conceito final: som musical pode ser considerado um tipo de animal aéreo e racional, análogo a um espírito humano desencarnado, exercendo assim efeito poderosíssimo sobre espírito do audiente.

Possíveis fontes antigas para distinção entre sentidos e teoria da melancolia.

  • Tratado Problemas do Pseudo-Aristóteles como fonte provável.
  • Problema central: por que audição é única percepção que afeta caráter moral? Por que ritmos e melodias, sendo sons, assemelham-se a características morais, enquanto sabores, cores e odores não?
  • Resposta unificadora: som, única entre percepções sensoriais, é dotado de movimento; movimentos e ações são de mesma natureza, e ações possuem caráter moral ou são seu sintoma.
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