LÓGICA
Excertos de Ernst Cassirer, “Individuo e cosmo nella filosofia del Rinascimento. Ediz. integrale (Nuova cultura)”
Com essas proposições tão concisas quanto simples começa o tratado De docta ignorantia, mas nelas já se concretiza uma decidida revolução do pensamento, pois Nicolau de Cusa, com um corte tajante, destrói o laço que até então mantinha ligada a lógica escolástica à teologia. A lógica, que durante a Idade Média se tornara um organon da teologia, recupera sua autonomia. Certamente, a evolução da própria Escolástica, por outro lado, já havia preparado o caminho para Nicolau de Cusa, tornando possível esse resultado; de fato, o nominalismo de Guilherme de Ockham e as tendências modernas da Escolástica a ele anexas já haviam relaxado os laços que existiam nos sistemas clássicos do realismo, entre a lógica e a gramática, por um lado, e a teologia e a metafísica, por outro. Em Nicolau de Cusa, ao contrário, a separação é radical, pois a lógica de Aristóteles, que se baseia no princípio do terceiro excluído, se apresenta a ele, precisamente por isso, como uma mera lógica do finito que, portanto, deve necessariamente renunciar à sua pretensão de abranger aquilo que se dá como visão do infinito. Todos os conceitos da lógica aristotélica são conceitos obtidos por comparação e se baseiam na consideração de que o igual e o semelhante se unem, o desigual e o diferente se separam. Por meio da comparação e da distinção, da separação e da delimitação, conseguimos decompor o mundo empírico em determinados gêneros e espécies que mantêm entre si uma relação rigorosa de dependência e subordinação. Precisamente, toda a arte do pensamento lógico está voltada para procurar maior clareza e precisão nessa relação da esfera conceitual. Para poder determinar um conceito por outro, temos que percorrer toda a série de termos intermediários que estão entre eles, e onde tais termos não se oferecem imediatamente ao pensamento, devemos descobri-los em virtude do procedimento silogístico para poder concentrar assim, em uma ordem rigorosa e determinada do pensamento, o abstrato e o concreto, o universal e o individual. Essa ordem corresponde à do próprio ser, pois representa a hierarquia do ser na estrutura e articulação hierárquica dos conceitos. Mas — assim reza a objeção de Nicolau de Cusa neste ponto — se as semelhanças e diferenças, as concordâncias e discordâncias do finito podem ser compreendidas dessa maneira, o absoluto e infinito, que como tal está acima de toda comparação, nunca poderá cair na rede dos conceitos lógicos de gênero. O conteúdo da filosofia escolástica contradiz sua forma; ambos se excluem reciprocamente. Deve existir uma possibilidade de pensar e conhecer o absoluto, o infinito, mas esse pensamento, nesse caso, não pode nem deve apoiar-se nas muletas que lhe oferece a lógica tradicional, com a ajuda da qual sempre marchamos de algo finito e limitado para algo também finito e limitado, mas com a qual de forma alguma podemos ir além do domínio do individual e condicionado.
