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Metáfora do Relógio: Tempo, Eternidade e Conceito em "De Visione Dei"

DUCLOW, Donald F. Engaging Eriugena, Eckhart and Cusanus. London New York (N.Y.): Routledge, 2024.

A invenção do relógio mecânico na Idade Média constitui um marco tecnológico de grande impacto cultural e simbólico. Contexto histórico: relógios astronômicos complexos tornaram-se objeto de orgulho cívico em comunidades europeias a partir de meados do século XIV. Trajetória de Nicolau de Cusa e seu contato com relógios: durante seus estudos em Pádua, sua atuação em Basileia, Brixen, Roma e suas viagens pela Alemanha, certamente encontrou-se com diversos exemplares, como o grande relógio astronômico da Catedral de São Bartolomeu em Frankfurt.

Obra central para análise: “De Visione Dei”, tratado enviado aos monges de Tegernsee em 1453, juntamente com um ícone. Imagem central do tratado: um ícone de Deus cujos olhos parecem focar em cada observador individualmente, mesmo quando estes se movem em direções opostas. Imagem menos familiar, porém crucial: a metáfora de um relógio que marca as horas, utilizada para clarificar relação entre tempo e eternidade.

Questão filosófica subjacente: como conciliar eternidade do conceito criador de Deus com multiplicidade e sucessão temporal?

  • Problema: Deus concebe e fala uma única vez e eternamente. Como, então, todas as coisas não existem simultaneamente, mas vêm a ser sucessivamente?
  • Contexto imagético no tratado: discussão ocorre dentro da imagem do muro do paraíso do Gênesis, com sua estrutura tripartite.
    • Região exterior: finitude e exílio, com múltiplas distinções e contrastes.
    • O muro em si: lugar onde os opostos coincidem.
    • Jardim do paraíso interior: onde habita Deus infinito, além de todos os opostos e de sua coincidência.

Análise perspectivista da relação tempo/eternidade.

  • Duração infinita (eternidade): abraça toda sucessão.
  • Percepção humana vs. conceito divino: o que nos aparece em sucessão não existe de modo subsequente ao conceito de Deus, que é a eternidade.
  • Coincidência na eternidade: na eternidade, toda sucessão temporal coincide no mesmo agora (nunc) eterno. Nada é passado ou futuro onde futuro e passado coincidem com o presente.
  • Peso ontológico da análise: Deus cria ao conceber e falar. A sucessão “antes e depois” no mundo decorre do fato de Deus não conceber as coisas “antes” para que existam. Se as tivesse concebido antes, existiriam antes.
  • Limite da linguagem temporal: pensamento e linguagem, imersos no tempo, só podem expressar relação tempo/eternidade através de paradoxos de equivocação e negação.

Exemplo paradoxal: Adão e um nascido hoje.

  • Parece impossível que Adão tenha existido há tanto tempo porque Deus assim o quis então, e que, no entanto, Deus não tenha querido a existência de Adão antes de querer a existência do nascido hoje.
  • Estratégia de Cusa: em vez de evitar contradição, sublinha-a, afirmando que em Deus não há “antes” ou “depois” de querer.

Introdução da metáfora do relógio para ilustrar unidade do conceito divino e variedade de sua manifestação sucessiva.

  • O “conceito simples de um relógio perfeito” serve de imagem para ascender à visão do conceito e da palavra de Deus.
  • Distinção fundamental: entre o relógio físico e seu conceito.
  • Experiência sensorial: ouvimos o relógio bater a sexta hora antes da sétima.
  • O conceito do relógio: envolve (complicat) toda sucessão temporal. No conceito único do relógio, nenhuma hora é anterior ou posterior a outra.
  • Governo do conceito: o relógio só bate a hora quando o conceito assim o ordena. Ao ouvirmos a sexta hora, é verdade dizer que ela soa então porque o conceito do mestre assim o quer.

Transposição da metáfora para o problema especulativo maior.

  • Polaridade central: complicação (complicatio) e explicação (explicatio), adaptada de Boécio e Thierry de Chartres.
  • O conceito do relógio envolve todos os tempos; o relógio físico desenvolve esse conceito ao bater as horas sucessivamente.
  • Aplicação teológica: o conceito de Deus envolve todos os movimentos, sons e tempos numa unidade simples e eterna, que se desenvolve na multiplicidade da criação e na sucessão das horas.
  • Relação recíproca: a própria sucessão do tempo manifesta e desenvolve a eternidade divina.

Reflexão sobre o agora presente como unidade que envolve o tempo.

  • O presente envolve o tempo. O passado foi presente, o futuro será presente.
  • Nada se encontra no tempo exceto o presente ordenado.
  • Passado e futuro são o desenvolvimento do presente; o presente é o envolvimento de todos os tempos presentes.
  • Conclusão: há um único envolvimento de todos os tempos – que é o presente – e o presente é unidade.

Diferença crucial da metáfora cusana em relação à metáfora comum do “universo-relógio”.

  • Metáfora comum (ex.: Oresme): Deus como relojoeiro que projeta um relógio (universo) que depois se move por si mesmo, sem intervenção contínua.
  • Metáfora de Cusa: enfatiza interação entre o relógio e seu conceito. O conceito possui duplo papel: (1) mantém o relógio e todos os tempos dentro de seu presente unificado; (2) permanece presente e ordena o bater das horas sucessivas.
  • Mensagem teológica diferenciada: sublinha presença íntima e eterna de Deus ao longo de todo o desdobramento sucessivo do tempo, em oposição a um criador distante.

Conexão com a antropologia filosófica de Cusa: a mente humana como medida viva.

  • Definição em Idiota de mente: a mente (mens) é uma medida viva (viva mensura) que mede por si mesma, como um “compasso vivo”.
  • Objetivo da atividade medidora: autoconhecimento. A mente atinge sua própria capacidade medindo outras coisas.
  • Criatividade técnica em De Ludo Globi: a alma “cria novos instrumentos para discernir e conhecer”, citando o astrolábio de Ptolomeu e a lira de Orfeu.
  • O relógio mecânico se encaixa neste esquema: ano, mês, horas são “instrumentos de uma medida temporal criada pelo homem”.
  • Inversão da prioridade aristotélica: onde Aristóteles priorizava o movimento físico que o tempo mede, Cusa privilegia a atividade humana de medir. Ecoa debates escolásticos ao enfatizar o numerus numerans (número que numera) sobre o numerus numeratus (número numerado).
  • Dependência do tempo em relação à alma: seguindo Agostinho, Cusa afirma que a alma não depende do tempo, mas o tempo depende da alma que o mede e que existe “anteriormente ao tempo”.

Interesse prático de Cusa pela medição do tempo.

  • Proposta de reforma do calendário: já no Concílio de Basileia, apresentou a Reparatio kalendarii (1436).
  • Colecionador de instrumentos científicos: possuía globo celeste de madeira, astrolábio, torquetum.
  • Ausência notável: não há registro de que possuísse um relógio mecânico pessoal.
  • Única ocorrência do termo: horologium aparece apenas na discussão metafórica de De Visione Dei.
  • Outra menção a relógios: no diálogo Idiota, descreve o uso da clepsidra (relógio de água) para medir o tempo.

Conclusão sobre a metáfora e seu significado.

  • Função no tratado: introduzida rapidamente para clarificar questão difícil, e igualmente rapidamente abandonada após cumprir sua função.
  • Ilustra características do pensamento cusano: habilidade imaginativa na criação de símbolos novos e fascínio pelos problemas práticos e instrumentos de medida.
  • Paradoxo histórico: embora cardeais contemporâneos em Roma investissem em relógios para suas igrejas, não há evidência de que Cusa tenha encomendado um para San Pietro in Vincoli. Satisfez-se com o jogo metafórico em torno do conceito de um relógio perfeito.
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