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Metáfora do Relógio: Tempo, Eternidade e Conceito em "De Visione Dei"

A invenção do relógio mecânico na Idade Média constitui um marco tecnológico de grande impacto cultural e simbólico. Contexto histórico: relógios astronômicos complexos tornaram-se objeto de orgulho cívico em comunidades europeias a partir de meados do século XIV. Trajetória de Nicolau de Cusa e seu contato com relógios: durante seus estudos em Pádua, sua atuação em Basileia, Brixen, Roma e suas viagens pela Alemanha, certamente encontrou-se com diversos exemplares, como o grande relógio astronômico da Catedral de São Bartolomeu em Frankfurt.

Obra central para análise: “De Visione Dei”, tratado enviado aos monges de Tegernsee em 1453, juntamente com um ícone. Imagem central do tratado: um ícone de Deus cujos olhos parecem focar em cada observador individualmente, mesmo quando estes se movem em direções opostas. Imagem menos familiar, porém crucial: a metáfora de um relógio que marca as horas, utilizada para clarificar relação entre tempo e eternidade.

Questão filosófica subjacente: como conciliar eternidade do conceito criador de Deus com multiplicidade e sucessão temporal?

//  Problema: Deus concebe e fala uma única vez e eternamente. Como, então, todas as coisas não existem simultaneamente, mas vêm a ser sucessivamente?
//  Contexto imagético no tratado: discussão ocorre dentro da imagem do muro do paraíso do Gênesis, com sua estrutura tripartite.
      //  Região exterior: finitude e exílio, com múltiplas distinções e contrastes.
      //  O muro em si: lugar onde os opostos coincidem.
      //  Jardim do paraíso interior: onde habita Deus infinito, além de todos os opostos e de sua coincidência.

Análise perspectivista da relação tempo/eternidade.

//  Duração infinita (eternidade): abraça toda sucessão.
//  Percepção humana vs. conceito divino: o que nos aparece em sucessão não existe de modo subsequente ao conceito de Deus, que é a eternidade.
//  Coincidência na eternidade: na eternidade, toda sucessão temporal coincide no mesmo //agora// (//nunc//) eterno. Nada é passado ou futuro onde futuro e passado coincidem com o presente.
//  Peso ontológico da análise: Deus cria ao conceber e falar. A sucessão "antes e depois" no mundo decorre do fato de Deus não conceber as coisas "antes" para que existam. Se as tivesse concebido antes, existiriam antes.
//  Limite da linguagem temporal: pensamento e linguagem, imersos no tempo, só podem expressar relação tempo/eternidade através de paradoxos de equivocação e negação.

Exemplo paradoxal: Adão e um nascido hoje.

//  Parece impossível que Adão tenha existido há tanto tempo porque Deus assim o quis //então//, e que, no entanto, Deus não tenha querido a existência de Adão //antes// de querer a existência do nascido hoje.
//  Estratégia de Cusa: em vez de evitar contradição, sublinha-a, afirmando que em Deus não há "antes" ou "depois" de querer.

Introdução da metáfora do relógio para ilustrar unidade do conceito divino e variedade de sua manifestação sucessiva.

//  O "conceito simples de um relógio perfeito" serve de imagem para ascender à visão do conceito e da palavra de Deus.
//  Distinção fundamental: entre o relógio físico e seu //conceito//.
//  Experiência sensorial: ouvimos o relógio bater a sexta hora antes da sétima.
//  O conceito do relógio: envolve (//complicat//) toda sucessão temporal. No conceito único do relógio, nenhuma hora é anterior ou posterior a outra.
//  Governo do conceito: o relógio só bate a hora quando o conceito assim o ordena. Ao ouvirmos a sexta hora, é verdade dizer que ela soa //então// porque o conceito do mestre assim o quer.

Transposição da metáfora para o problema especulativo maior.

//  Polaridade central: complicação (//complicatio//) e explicação (//explicatio//), adaptada de Boécio e Thierry de Chartres.
//  O conceito do relógio //envolve// todos os tempos; o relógio físico //desenvolve// esse conceito ao bater as horas sucessivamente.
//  Aplicação teológica: o conceito de Deus envolve todos os movimentos, sons e tempos numa unidade simples e eterna, que se desenvolve na multiplicidade da criação e na sucessão das horas.
//  Relação recíproca: a própria sucessão do tempo manifesta e desenvolve a eternidade divina.

Reflexão sobre o agora presente como unidade que envolve o tempo.

//  O presente envolve o tempo. O passado foi presente, o futuro será presente.
//  Nada se encontra no tempo exceto o presente ordenado.
//  Passado e futuro são o desenvolvimento do presente; o presente é o envolvimento de todos os tempos presentes.
//  Conclusão: há um único envolvimento de todos os tempos – que é o presente – e o presente é unidade.

Diferença crucial da metáfora cusana em relação à metáfora comum do “universo-relógio”.

//  Metáfora comum (ex.: Oresme): Deus como relojoeiro que projeta um relógio (universo) que depois se move por si mesmo, sem intervenção contínua.
//  Metáfora de Cusa: enfatiza interação entre o relógio e seu //conceito//. O conceito possui duplo papel: (1) mantém o relógio e todos os tempos dentro de seu presente unificado; (2) permanece presente e ordena o bater das horas sucessivas.
//  Mensagem teológica diferenciada: sublinha presença íntima e eterna de Deus ao longo de todo o desdobramento sucessivo do tempo, em oposição a um criador distante.

Conexão com a antropologia filosófica de Cusa: a mente humana como medida viva.

//  Definição em //Idiota de mente//: a mente (//mens//) é uma medida viva (//viva mensura//) que mede por si mesma, como um "compasso vivo".
//  Objetivo da atividade medidora: autoconhecimento. A mente atinge sua própria capacidade medindo outras coisas.
//  Criatividade técnica em //De Ludo Globi//: a alma "cria novos instrumentos para discernir e conhecer", citando o astrolábio de Ptolomeu e a lira de Orfeu.
//  O relógio mecânico se encaixa neste esquema: ano, mês, horas são "instrumentos de uma medida temporal criada pelo homem".
//  Inversão da prioridade aristotélica: onde Aristóteles priorizava o movimento físico que o tempo mede, Cusa privilegia a atividade humana de medir. Ecoa debates escolásticos ao enfatizar o //numerus numerans// (número que numera) sobre o //numerus numeratus// (número numerado).
//  Dependência do tempo em relação à alma: seguindo Agostinho, Cusa afirma que a alma não depende do tempo, mas o tempo depende da alma que o mede e que existe "anteriormente ao tempo".

Interesse prático de Cusa pela medição do tempo.

//  Proposta de reforma do calendário: já no Concílio de Basileia, apresentou a //Reparatio kalendarii// (1436).
//  Colecionador de instrumentos científicos: possuía globo celeste de madeira, astrolábio, torquetum.
//  Ausência notável: não há registro de que possuísse um relógio mecânico pessoal.
//  Única ocorrência do termo: //horologium// aparece apenas na discussão metafórica de //De Visione Dei//.
//  Outra menção a relógios: no diálogo //Idiota//, descreve o uso da clepsidra (relógio de água) para medir o tempo.

Conclusão sobre a metáfora e seu significado.

//  Função no tratado: introduzida rapidamente para clarificar questão difícil, e igualmente rapidamente abandonada após cumprir sua função.
//  Ilustra características do pensamento cusano: habilidade imaginativa na criação de símbolos novos e fascínio pelos problemas práticos e instrumentos de medida.
//  Paradoxo histórico: embora cardeais contemporâneos em Roma investissem em relógios para suas igrejas, não há evidência de que Cusa tenha encomendado um para San Pietro in Vincoli. Satisfez-se com o jogo metafórico em torno do //conceito// de um relógio perfeito.
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