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De Ludo Globi

DUCLOW, Donald F. Engaging Eriugena, Eckhart and Cusanus. London New York (N.Y.): Routledge, 2024.

Obra “De Ludo Globi” é um dos últimos escritos de Nicolau de Cusa, redigido em Roma entre 1462 e 1463. Estrutura da obra: consiste em dois diálogos, nos quais o Cardeal (o próprio Nicolau) conversa com dois jovens, João da Baviera (Livro I) e seu primo Alberto (Livro II). Ponto de partida reflexivo: no fim do segundo diálogo, o Cardeal propõe que não há melhor despedida (*valere*) do que falar sobre valor (*de valore*), estendendo a conversa para uma discussão ontológica sobre valor.

Identificação platônica expandida entre Ser e Bem.

  • Afirmação fundamental: “O Ser é bom, nobre e valioso (*pretiosum*)”.
  • Consequência ontológica: todo ente existente possui valor distinto, porém relativo, dentro de uma escala móvel, onde sempre pode haver algo de maior ou menor valor.
  • Limitação do finito: nada finito pode ter valor máximo ou mínimo.
  • Valor Absoluto: somente “o valor dos valores, que está em todas as coisas e no qual todas as coisas que têm valor existem, envolve (*complicat*) em si todo valor e não pode ter um valor que seja maior ou menor”. Este é a fonte e causa de todos os seres finitos e valores relativos.
  • Reformulação doutrinária: retoma ensinamento sobre o máximo absoluto e a criação finita, primeiramente desenvolvido em *De Docta Ignorantia* (1440).

Discussão sobre “o preço do valor (*pretium valoris*)” e transição para metáfora monetária.

  • Exemplo do florim: assim como um florim vale mil denários e um florim duplo vale dois mil, “no florim ótimo, acima do qual não pode haver um superior, estaria necessariamente o valor de uma infinidade de denários”.
  • Questão sobre o valor do “olho” da mente: faculdade que nos permite ver e julgar valores de todas as coisas.

Distinção entre modos de existência do valor.

  • Valor em Deus: existe “como [na] essência do valor”.
  • Valor na mente: existe como “ente nocional”, isto é, como conhecido pelo intelecto.
  • Criação dual: Deus cria tanto o valor quanto a mente, ambos como *entia realia* (entes reais).
  • Gênese do conceito: valor torna-se um *ens notionale* (ente conceitual) precisamente quando a mente o discerne e julga.

Valorização do intelecto e seu papel indispensável.

  • Valor da natureza intelectual: “é supremo após o valor de Deus. Pois o valor de Deus e de todas as coisas está em seu poder nocionalmente e por distinções”.
  • Paradoxo da apreciação: não basta o valor existir; ele precisa ser apreciado (*valorado*) pela mente. “Sem o intelecto, nem mesmo a existência do valor pode ser discernida”.
  • Poder judicativo: sem o poder racional e proporcional da mente, tanto o julgamento quanto o valor “cessariam”.
  • Conclusão teológica: “Se Deus quisesse que sua obra fosse julgada como valiosa, foi necessário que ele criasse a natureza intelectual entre suas obras”. Deus cria a mente humana para apreciar e discriminar os valores da criação.

Metáforas centrais propostas por Alberto: Deus como Mestre da Casa da Moeda (*monetarium*) e o intelecto como Cambista ou Banqueiro (*nummularius*).

  • Desenvolvimento da metáfora: Deus é “um cunhador de moeda onipotente que, de seu alto e onipotente poder, pode produzir todo dinheiro”.
  • Função do cambista divino: é nomeado pelo mestre da moeda, “tendo em seu poder a distinção de todas as moedas e o conhecimento de sua numeração”.
  • Tarefa do cambista: “revelar o valor, número, peso e medida que a moeda tinha de Deus, para que o preço e o valor de seu dinheiro e, através dele, o poder do mestre da moeda fossem conhecidos”.

Ampliação da metáfora por Alberto.

  • Tesouro divino: o mestre da moeda detém “o tesouro de todas as cunhagens” em seu poder, podendo produzir todas as variedades e valores de dinheiro, enquanto o tesouro permanece “sempre o mesmo, infinito, inesgotável e inconsumível”.
  • Superioridade da arte divina: “a arte de Deus faria as coisas existirem, e a arte do cambista apenas as faria conhecer”.
  • Funções do cambista/banqueiro: não faz o dinheiro, mas monitora e controla sua circulação, anunciando valores das moedas, taxas de câmbio, etc. – funções chave de um banco central.

Modos de existência (*modi essendi*) do dinheiro.

  • Na arte do mestre da moeda, no metal bruto, etc.
  • Foco do Cardeal: como existe “na razão que discerne o dinheiro”.
  • A moeda como imagem: “a moeda é a imagem ou signo daquele que a faz”, carregando “a semelhança de seu rosto”.
  • Referência evangélica: citação da questão de Jesus sobre o tributo, “De quem é esta imagem e inscrição?” (Mt 22:15-22), introduzindo discussão numismática sobre rosto, imagem e semelhança.

Rosto como veículo de conhecimento e revelação.

  • Identificação prática: identificamos moedas pelos rostos cunhados nelas.
  • Função reveladora: o rosto do mestre da moeda “revela aquele que de outra forma seria invisível e incognoscível”.
  • A semelhança (*similitudo*) deste rosto aparece em muitas moedas, tornando-se amplamente reconhecida.
  • Identificação da imagem com o nome: a imagem na moeda é identificada com o nome nela inscrito.

Transposição teológica da metáfora numismática.

  • Mestre da moeda: torna-se Deus Pai, oculto e invisível em si mesmo, Oneness ou Ser.
  • A moeda e seu rosto: o Filho torna-se seu rosto, nome e “imagem viva”, através de quem o Pai “faz dinheiro e coloca seu signo em tudo”.
  • O Filho como Igualdade: imagina ou “figura” o Pai, tornando-se o exemplar e “causa formal dos seres”.
  • Seres criados: são marcados, como moedas, com o signo e semelhança do rosto do Filho.
  • Esquema translúcido: pode ser visto em sentido inverso: as muitas “moedas” criadas exibem o rosto do Filho, que revela a substância oculta ou “quididade” do Pai.
  • Conclusão: toda criação torna-se um tesouro de moedas que significam seu exemplar e origem divinos.

Esquema metafísico para a cunhagem da criação.

  • Ato de cunhar: carimbar o metal com “o signo da semelhança de seu signatário” faz dele uma moeda.
  • Potencialidade da matéria: o cobre, como matéria, tem potencial para várias formas.
  • Fixação de uma possibilidade: a cunhagem fixa uma dessas formas, nomeadamente “sua possibilidade de ser (*possibilitas essendi*) uma moeda”.
  • Dialética da possibilidade e necessidade: esboço baseado nos quatro modos de ser de Thierry de Chartres.
    • Extremos: Deus como “atualidade infinita [ou] necessidade absoluta”; e a matéria como “possibilidade absoluta e indeterminada”.
    • Estados intermediários:
      • “Necessidade de combinação”: atrai a necessidade para um complexo de naturezas diferenciadas (ex.: “a necessidade de ser contraído ao homem envolve (*complicat*) tudo o que é necessário ao modo de ser chamado humanidade”).
      • “Possibilidade determinada”: eleva a possibilidade ao ato através da determinação (ex.: “este florim ou aquele homem”).

Experimento mental: o intelecto como moeda viva.

  • Proposta: considerar um florim papal e, “em sua concepção, torná-lo vivo com uma vida intelectual, e fazê-lo olhar para si mesmo mentalmente”.
  • Identificação: a moeda viva e introspectiva torna-se o próprio intelecto.
  • Faculdade abrangente: esta moeda “encontra dentro de si conceitos de todas as coisas”.
  • Visão “negativa” e “positiva”: o intelecto vê “negativamente” os polos ontológicos da “atualidade infinita” de Deus e da “possibilidade infinita” da matéria. Vê “positivamente” toda a gama intermediária de coisas marcadas pela “necessidade de combinação” e “possibilidade determinada”.
  • Analogia complementar: o intelecto como espelho vivo, que “contempla em si os modos de ser, na medida em que são inteligíveis”.

Identificação final: Deus e o intelecto como moedas vivas.

  • “Portanto, o intelecto é aquela moeda que também é um banqueiro ou cambista, assim como Deus é aquela moeda que também é o mestre da moeda”.
  • Poder inato do intelecto: ao descobrir “seu poder inato de conhecer e numerar toda moeda”, encontra “todas as coisas presentes dentro de si de maneira intelectual”.
  • Implicação não explícita: como mestre da moeda e moeda viva, Deus envolve todos os valores dentro do tesouro da unidade divina e, ao conhecê-los e numerá-los, os distribui por toda a criação.

Expansão da metáfora e suas implicações.

  • Simbolismo concreto: o simbolismo matemático abstrato de Nicolau ganha foco concreto e monetário na fabricação e circulação de moedas.
  • Conclusão antropológica e teológica: somos cunhados como moedas vivas de Deus, e o intelecto humano age como banqueiro que calcula e avalia os valores de todas as criaturas.
  • Questão prática: a teologia numismática levanta questões sobre como viver, orientar-se para salvação e união com Cristo, temas abordados por Nicolau em seus sermões.
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