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Commento

Começa por este poema que será justamente o objeto dos comentários de Pico della Mirandola.

POEMA DE AMOR

COMPOSTO POR GIROLAMO BENIVIENI, CIDADÃO FLORENTINO, SEGUNDO O ESPÍRITO E A DOUTRINA DOS PLATÔNICOS

PRIMEIRA ESTÂNCIA

Amor que em sua mão tomou de meu coração o freio
e o conserva ainda – em seu reino divino
não negligenciou em alimentar
o fogo que fez arder em meu peito –
anima minha palavra e força meu espírito
a contar-vos dele o que um coração ardente cela,
mas a força desfalece e a verve é rebelde
a tanto dever operar.
E nada pode em mim defender-se ou falar,
todavia terei que exprimir meu pensamento:
jamais o forte prevalece contra outro mais forte que ele.
Porque prometeu ao espírito indolente
esta asa sobre a qual na alma desceu,
– ainda que sempre habite no seu cume
pois nunca, creio eu, abdica de suas asas –
enquanto o esplendor de sua viva claridade
escolta meu coração, aspiro a penetrar o segredo que ele porta.

SEGUNDA ESTÂNCIA

E direi como da fonte divina
do incriado, Amor ao mundo participa,
quando primeiro nasceu e segundo qual princípio
move o céu, forma a alma e prescreve sua rota
ao universo; escondido no coração dos mortais,
como, com que arma hábil e mortífera,
a elevar os olhos força o rebanho
dos homens sobre a terra, como queima, inflama e arde,
por que decreto empurra ao firmamento o homem
ou o arrasta para baixo, ou mesmo, inclinando-o,
o deixa no meio-termo.
Ó rimas extintas e vós, versos languidos,
tão cansados, agora, aqui em baixo,
a quem rogarei por vós,
para que este coração inflamado
veja seus mais justos votos por Apolo atendidos?
Um jugo pesado demais frena meu pescoço,
Amor, concede-me as asas que espero,
mostra o caminho obscuro ao meu voo hesitante.

TERCEIRA ESTÂNCIA

Quando desde o verdadeiro céu difundindo-se mais baixo
o sol divino brilha no espírito angélico,
este primogênito que ele cumula de claridade e forma
à sombra de suas folhas vivas,
buscando e querendo sua fonte benfazeja
pelo desejo inato de que é abrasado,
refletindo-se nela, acolhe
a virtude que modela e adorna seu tesouro.
E este primeiro desejo que o transforma então
é ao sol vivo de luz incriada
que maravilhosamente se acende e inflama.
Este grande incêndio, este ardor, esta chama
que do espírito obscuro e do dia celeste,
brilha no espírito angélico,
é o primeiro, o verdadeiro Amor,
desejo místico,
nascido da pobreza e nascido da riqueza
quando o céu gerou a deusa de Chipre.

QUARTA ESTÂNCIA

E porque nasceu nos braços bem-amados
da bela Vênus que se honra em Creta,
sem cessar desejou a busca
do sol fulgurante de sua viva beleza.
Ora o primeiro desejo, que em nós se adormece,
por ele de um novo laço se ata
que sobre suas nobres pegadas,
remontando seus passos, ao primeiro bem chega.
Por ele o ardor, do qual deriva
tudo o que o compõe, acende um fogo em nós:
o coração queima morrendo quando queimando o coração cresce,
e a fonte perene abunda de sobra,
derrama o que o céu aqui em baixo forma e move;
é dele que nos chove
este reflexo luminoso que nos eleva ao céu.
Em nós por este desejo
este sol incriado tanta esplendor respira
que inflama em nossa alma um amor eterno.

QUINTA ESTÂNCIA

Como do primeiro bem o eterno espírito nasce, vive e compreende;
a alma compreende, move, aperfeiçoa,
desdobra e reproduz por ele o astro
que no seio do Anjo resplandece.
Daí ela derrama o que seu coração místico
pensa e cala, depois o mundo sensível e vivo,
movido maravilhosamente por ela, sente, move, produz todos seus efeitos.
Dela – como do céu no espírito angélico –
procede uma Vênus aqui em baixo, cuja graça
brilha no céu, vive na terra e colora este mundo.
No sol se mira outra, nesta noite
do espírito que ela exercita a contemplar sempre;
sua riqueza se funda neste astro vivo
que resplende nele como seu dia
irradia naquela. Para uma o celeste Amor se inclina,
e o vulgo à outra se abandona.

SEXTA ESTÂNCIA

Quando formada primeiramente pelo rosto divino,
para descer aqui em baixo, nossa alma então deixa
o mais belo lugar do céu onde o sol habita,
ela inscreve sua imagem
no coração do homem, onde de maneira maravilhosa
dizendo a qualidade que seu astro lhe deixa
– que vive no regaço
de sua forma celeste e toda original –
ela forma, aperfeiçoa e marca tanto quanto pode
da semente humana a morada,
conforme mais ou menos ela repele a seu deus.
E quando da esplendor estampada nela
a imagem infusa entra em outro coração,
e lhe convém,
ela inflama sua alma após este primeiro passo,
a alma a toma em seu seio,
a sublima às virtudes de seus raios divinos:
assim o coração amante se ilude com os doces atrativos.

SÉTIMA ESTÂNCIA

Ilude-se com os doces atrativos o coração amante,
sendo-lhe o amado semelhante àquele que ele gera,
depois reformando o amado na impressão que nele
faz a santa luz, raro e celeste dom,
desde aí galgando de grau em grau, ao Sol incriado
ele retorna, elevando-se até onde se difunde
o que o objeto do Amor exprime.
E um raio deste rosto divino
em três brilhantes espelhos reacende cada imagem
do Belo, paramentando o espírito, a alma e o corpo concreto.
Daí aos olhos, depois destes olhos ao assento
de sua outra servente, então, o coração refaz
a beleza nela e a aperfeiçoa
sem contudo expressá-la; e desta coleção
de belezas que abstrai
ele forja um só conceito onde pinta e figura
o que estava dividido por toda parte na natureza.

OITAVA ESTÂNCIA

A alma neste Amor encanta assim o coração:
arrebatada ainda por Ele como pelo que ela gera,
para se apaixonar por um sonho,
ela percebe o verdadeiro como refletido na água.
Não sei qual esplendor divino e magnífico
nele, ainda que velado, atrai um coração místico
de uma beleza a outra mais perfeita
até aquela que reina, deslumbrante, no cume.
E o que vê não é mais a sombra que aqui em baixo
faz crer no primeiro bem, mas o esplendor verídico,
e do astro real uma imagem autêntica;
quando por este excelente caminho o coração vai,
compreende este esplendor que o espírito nele porta.
Para uma claridade mais inteira
e mais bela, voa suspenso, transporta-se
ao redor deste Sol cuja luz,
viva e una, gerou e depois no Amor transforma
o espírito, a alma, o mundo e tudo o que o forma.

ÚLTIMA ESTÂNCIA

Poema, sinto bem que Amor freia com mais força
este audaz ardor que meu coração esporeia
para além do limite dado pelos Deuses.
Refreia um vão desejo, puxa a rédea
e castamente ouve as razões de Amor:
«Se alguém porventura
revestir de teu amor a forma e a paragem,
mais que as ramagens
de seu divino tesouro, a polpa mostra-lhe.
Estende a folha ao vulgo, e recusa o fruto.»


renascimento/pico-della-mirandola/commento/start.txt · Last modified: by mccastro