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Apresentação

Civilização europeia, após dois milênios de elaboração intelectual, volta-se para ingenuidade viva dos místicos em busca de frescor da alma. Cansaço com cálculo especulativo frio gera desejo de “tocar Deus”, com abordagem por vezes direta e tumultuada, que alarmaria os mais puros. Despertar do sagrado em corações longamente adormecidos provoca quimeras.

Nostalgia da infância espiritual após maioridade civilizacional racional.

  • Julgamento de si como adulta: civilização, ao retornar de sua fé, avalia-se madura.
  • Conservação da saudade: mantém nostalgia de sua infância espiritual.
  • Memória fabulosa: lembranças do passado, como um “Medieval fabuloso e alucinado”, possuem mais fausto e força que realidade parcimoniosa da maturidade.

Paradoxo da era contemporânea: incrédula, mas sedenta de intensidade.

  • Rejeição do morne e do terne: repulsa pelo monótono e pelo insípido.
  • Aspiração por divindade desejável e secreta: veneração súbita por uma presença divina atrativa e oculta se apresenta como possibilidade imprevisível.

Trajetória desde as renúncias do espírito até as paixões mais loucas da alma.

  • Encontro com exigência aguda de crença: demanda por fé que um dogma ou uma ideia não podem mais aliviar.
  • Aspiração unânime por uma presença: percepção clara de anseio coletivo por uma manifestação tangível do divino.
  • Condição para essa presença: se for manifestação da intensidade espiritual, a gratuidade seria sua linguagem.

Desapontamento com metafísica finalista e consequente vazio espiritual.

  • Abstraction não como decepção: abstração metafísica nunca foi suficientemente luminosa, mas não é causa principal do desencanto.
  • Finalismo como problema: metafísica decepciona por seu finalismo.
  • Recuo do inefável: à medida que metafísica avançava, o inefável, em vez de se enriquecer e irradiar, recuou do coração das coisas.
  • Silêncio e angústia: inefável tornou-se lugar de angústia cotidiana, um vazio crescente.
  • Vertigem não interrogada: vazio, por não ser interrogado, cavou vertigem sob nossos pés.
  • Materialismo como efeito, não causa: materialismo contemporâneo, tão decriado, é tentativa equivocada de preencher um nada do qual não é causa, mas efeito, agarrando-se a vestígios de uma plenitude perdida.

Interrogação sobre capacidade da vaga moda mística de restaurar plenitude.

  • Dúvida sobre eficácia: pode-se duvidar que tendência mística atual restaure plenitude.
  • Possibilidade de forma nova: se o fizer, será sob forma nova, inesperada, compreensível apenas para especialistas em direito do espírito.
  • Condição de pobreza linguística: ocorrerá em meio a letargia do verbo e empobrecimento prolongado das palavras.

Eloquência do silêncio místico e potência da escuta.

  • Superioridade do silêncio: silêncio do místico fala mais que palavra do sábio, porque só ele consente em escutar.
  • Tensão da escuta: esta tensão arranca-nos da mobilidade constante, eletriza sentidos espirituais, sacode alma.
  • Reorientação magnética: alma, magnetizada, volta-se para polo oculto da divindade.
  • Imagem rembrandtiana: perfil da divinité destaca-se nítido e sombrio na luz de um fogo noturno, como na pintura de Rembrandt que combina claridade da revelação e penumbra do segredo.

Demanda por uma ciência mística como claro-escuro para luta espiritual.

  • Busca por claro-obscuro: pede-se à ciência mística um claro-escuro onde lutar com o anjo.
  • Raios mais penetrantes que razão: neste espaço, somos atravessados por raios mais perfurantes que a luz gelada da razão.
  • Busca de sensações para sentir volumes da alma: em última instância, busca-se sensações capazes de fazer-nos sentir os volumes da alma.

Características estilísticas do Commento e da Oratio como expressão de êxtase.

  • Commento repleto de fogos: como um bosque sombrio incrustado de gemas que lançam incêndios em repliques inesperados de um estilo robusto, rugoso e sacudido.
  • Incêndios do espírito, não da linguagem: são conflagrações do espírito, não de uma língua ainda latina, que cheira mais a Bolonha e Pádua que ao lírio de Florença.
  • Oratio como captura de ascensão estilística: composto simultaneamente, parece ter captado todo ascendente de um estilo que Pico da Mirandola, em carta famosa, confessou menosprezar.
  • Êxtases puros de artifício: essa rejeição permite assistir a êxtases puros de artifícios.
  • Frase embalada pela inspiração: sente-se a frase embalar-se, desmantelar-se sob choque de inspiração súbita e derramar-se de uma vez, em sopro de visões de apoteose.
  • Conclusões fulgurantes: retravessando seis esferas do amor, filósofo parece perseguir até limiar da noite divina as evanescências flamejantes de uma alma em glória.
  • Celebração do beijo de Vênus: celebração suntuosa onde todas as ardores do Eros são submetidas à irradiação de uma paixão mais forte e cintilante, que as descarna para enchê-las de luz, fazê-las cintilar, ofuscar até na morte ébria do arrebatamento, no aniquilamento caro aos místicos.
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