renascimento:pico-della-mirandola:start

Pico della Mirandola

No final do ano de 1485, um jovem e rico aristocrata, que já era famoso pela amplitude de seus conhecimentos, concebeu um projeto impressionante: reunir, às suas custas, na capital da cristandade e sob a presidência de Inocêncio VIII, os maiores sábios da Itália, para um debate sem precedentes “sobre os sublimes mistérios da teologia cristã, sobre as questões mais profundas da filosofia e sobre doutrinas desconhecidas”. O ambicioso organizador (que já havia compilado, oito anos antes, decretos do direito canônico) pretendia submeter à discussão um vasto corpus de Conclusiones: algumas de sua autoria, outras emprestadas de grandes autores. Sete centenas de teses no total, logo aumentadas em duzentas, a fim de atingir um número “místico”: aquele que simboliza para a cabala a capacidade de saber tudo. Na primeira parte do debate, tratava-se de remontar o curso da história para submeter a exame uma imensa tradição: da escolástica a Zoroastro, passando pelos árabes, os cabalistas, os comentadores de Aristóteles e Platão. Em um segundo momento, era o próprio Giovanni Pico que deveria submeter à crítica suas próprias interpretações e teses. Essa disputatio pacífica, que uma confrontatio colocava em movimento, deveria expor aos olhos de todos a concordância das sabedorias, a convergência dos métodos, a coesão das doutrinas.

É claro que o empreendimento fracassou: aos olhos da Cúria e dos gerontes, um leigo de 23 anos (cuja petulância acabara de ser evidenciada por um caso amoroso) era o oposto de um dignitário. E a ambição de seu programa, a diversidade dos assuntos, o lugar reservado à magia não podiam deixar de suscitar malícia ou suspeita. Concluídas em novembro de 1486 e impressas no mês seguinte, as Conclusiones logo foram alvo de censura: parcial em março de 1487, total em 4 de agosto, após duras discussões com o bispo Pierre Garcia; e seu autor, que agravou seu caso ao tentar se defender, achou por bem fugir para a França, onde Carlos VIII o colocou na prisão. Apesar das numerosas intervenções de Lourenço de Médici, foi preciso esperar até 1493 e a graça de um novo papa para encerrar o processo do “herege”. Segundo Gian Francesco, seu sobrinho e biógrafo, essa vasta empreitada fracassada decidiu a vida de Giovanni Pico: pois até então, “desejoso de louvor e glória humana, ele ainda não estava inflamado pelo amor divino que surgiu depois nele”. Talvez, antes do caso romano, o filósofo tivesse passado por um período de agitação, marcado por uma voracidade de conhecimento e prazer; talvez a provação o tenha levado, na Florença dos Médici, a uma vida mais contemplativa, onde surge in extremis a figura de Savonarola. Seja como for, sua aventura nos rendeu uma obra importante: o discurso inaugural, nunca proferido por seu autor e publicado após sua morte, que deveria apresentar as novecentas teses. Mais do que o magnífico Comentário sobre um poema de Benivieni, mais do que as Conclusões e os grandes textos posteriores, é bem a pequena Oratio que garante a glória mirandoliana: “apenas algumas páginas”, observa Eugenio Garin, “mas daquelas que marcam toda uma época, daquelas páginas antigas que são sempre atuais… Elas dão conta do significado do homem no mundo, de sua vocação singular e perturbadora… Ali, com o evangelho da paz, expressa-se o evangelho da liberdade radical”. Sem estudar o texto em detalhes, sem confrontá-lo como seria necessário com as principais obras do filósofo (o Heptaplus de 1489, o De ente et uno de 1491, com os quais forma uma espécie de trilogia), limitar-nos-emos a propor alguns pontos de referência, a formular sugestões: pois a leveza é de ordem do dia, quando a tarefa do prefácio é prefaciar um prefácio. (Yves Hersant, Prefácio em PICO DELLA MIRANDOLA, Giovanni. De la dignité de l’homme: Oratio de hominis dignitate. Paris: Editions de l’éclat, 2014)

renascimento/pico-della-mirandola/start.txt · Last modified: by mccastro