O sinal demoníaco
A expressão “o conhecido sinal demoníaco”, com a qual se alude ao que comumente tem sido chamado de “gênio”, “daimon” ou “demônio” socrático, coincide com a que aparece em Fedro (242b9) e em Teágas (129b8). Da comparação das principais passagens em que Platão se refere explicitamente à questão (Apologia 31c7-d6 e 40a2-c3, Eutifrón 3b5-6, República 496c3-5, Teeteto 151a3-5, Alcibíades 1034-6) pode-se deduzir: 1) que Sócrates reconhece em si mesmo a presença de algo que evita nomear de forma substantiva e prefere, em vez disso, qualificar como divino (theion) ou demoníaco (daimónion); 2) que tal “algo” atua como um sinal que geralmente se manifesta na forma de uma voz, mas não física, apenas audível para o “ouvido da alma”; 3) que essa voz lhe é familiar; 4) que aparece de forma imprevisível e repentina; 5) que tem caráter imperativo; 6) que nunca é arbitrária (ao obedecê-la, Sócrates percebe o fundamento e o valor de seu aparecimento); 7) que se manifesta em todos os tipos de circunstâncias, importantes (sua não interferência ativa na política) e triviais (este encontro com os estrangeiros); 8) que Sócrates dá a ela tanta ou mais atenção do que aos sonhos e aos oráculos. Longe, portanto, de ser a voz da consciência moral, o testemunho de um deus particular ou uma forma interior e pessoal que a Providência poderia revestir para ele, não é senão a constatação humana da presença de um fundo supra-humano, tão divino quanto insondável, e ao qual todo verdadeiro filósofo, como Sócrates, deve ser capaz de se abrir, como se reconhecesse que seu ensinamento “si parfaitement rationnel, est suspendu a quelque chose qui semble dépasser la pure raison” (H. Bergson, Les deux sources de la morale el de la religion, 33ª ed., Paris, 1941, p. 60). Por fim, no contexto do nosso diálogo, convém ter em mente o que bem aponta P. Friedlaender: “O demoníaco em Sócrates — diz ele — determina principalmente sua missão educativa. Não se trata simplesmente de uma peculiaridade notável própria de uma determinada pessoa, mas de algo que é parte integrante de um grande mestre. Enquanto influência extralógica, assegura que a educação se desenvolva no âmbito do logos e não se torne um exercício puramente racional, tornando assim possível uma conexão com aquele elemento de mistério que está ausente do ensino sofístico. Assim, Platão o considerou como algo que faz parte do normal, não como algo anormal.” (Platão, vol. 1, 2ª ed., Berlim, 1954, p. 38).
