Do poder criador da Inteligência ou Noûs procede a terceira hipóstase – a Alma do mundo (hèn kai pollá). Contemplando o Uno, o Noûs gera a Alma do mundo. Esta, contemplando o Noûs (Contemplando o Noûs, a Alma, através dele, vê o Bem, isto é, o Uno e torna-se “agatoforme”.), multiplica-se em todos os entes particulares do mundo sensível, sem dividir-se. A par da Alma do mundo, existem as almas individuais. Na Alma estão as matrizes (lógoi spermatikoí) de todos os entes, semelhando uma coincidentia oppositorum. Por isso, ela é hèn kai pollá. Dela procedem as almas e todas as formas dos seres sensíveis, ab aeterno (“(…) nós afirmamos que o mundo existe sempre e não há um momento em que não existiu (…)” (En. III, 2, 1, 20-21).), desde a planta até ao homem, tudo constituindo uma admirável harmonia e beleza. Logo, a Alma tem a função de organizar e governar o mundo sensível. A maneira dos estoicos, Plotino professa que tudo forma uma sympátheia tôn hólôn, uma harmonia universal (Cf. En. IV, 4, 41). A ordem do todo não sofre desfiguramento pelo mal: “É absurdo queixar-se das partes, com relação ao todo; as partes devem ser examinadas com relação ao todo, para ver se elas lhe convêm e lhe estão ajustadas; é mister ver o conjunto, sem dar importância aos mínimos detalhes” (En. III, 2, 3. 9-13).
Olhar apenas as partes “seria como alguém considerar de um animal inteiro somente um pelo (cabelo) ou um dedo dos pés, ou descurar a totalidade do homem que é um espetáculo divino” (En. III, 2, 3, 14-16).
A fim de preencher sua função organizadora, deve a Alma ter contemplado a organização inteligível no Intelecto (Noãs) transcendente. Se o Noûs é nóêsis noêseôs, a Alma universal, ao contrário, desenvolve o seu pensamento em forma discursiva.
A Alma está em relação com o Intelecto assim como este está em relação com o Uno. Na base de tudo está sempre a contemplação. Por conseguinte, logramos dizer que a Alma é o lógos do Intelecto ou seu resplendor – phôs ek phôtós (En. IV, 3, 17, 13-14).
Desejoso de explicar as hipóstases, Plotino, uma vez mais, vale-se de comparações: se o Uno é visto como a fonte primigênia da luz, o Intelecto, que vem após ele e que é inteiramente luminoso, pode ser comparado com o sol, e a Alma, que recebe a luz do Intelecto, é comparável à lua (Cf. En. V, 6, 4, 14-16). A partir dessa imagem, o licopolitano assevera que a Alma, em permanente inquietude (En. III, 7, 11,20-21), aspira a algo que lhe falta, a algo transcendente, ou seja, ao Intelecto o qual está plenamente satisfeito consigo, contemplando em si mesmo os inteligíveis. Dessarte, ela se apressa em organizar o universo (Cf. En. IV, 7, 13,2-8), voltando-se, pela theôría, à segunda hipóstase.
A Alma representa a terceira e última das hipóstases, o terceiro círculo luminoso além do qual só existe a obscuridade da matéria do mundo sensível (Cf. En. V, 1, 10, 1-4).
O significado especulativo da terceira hipóstase cifra-se em ser intermediária ou mediadora entre o mundo inteligível e o mundo sensível, entre o mundo superior e o mundo inferior. Estabelece-se, assim, um vínculo claro entre o Uno e o mundo material73. Aqui terminam as hipóstases do mundo inteligível e incorporeo. O Uno, o Noûs e a Alma universal constituem a chamada trindade ou tríade plotiniana a qual é de todo em todo diversa da Trindade cristã74. Na tríade do licopolitano, não se pode falar em conumeração, aplicando-lhe nomes cardinais: um, dois, três. Isso vale para a Trindade cristã. Em Plotino, ao contrário, há subnumeração, ou seja, deve empregar-se a série de nomes ordinais: primeiro (Uno), segundo (Noûs), terceiro (Alma do mundo). Com isso, fica patente o subordinacionismo, o qual não cabe à ideia do Deus uno e trino revelado por Cristo, conforme Mt 28, 19.
Pelo que vimos, cada nível da realidade é a imagem do nível imediatamente superior, e, ao mesmo tempo, o modelo do nível seguinte. O Noûs é a imagem do Uno, a Alma é a imagem do Noûs, o mundo sensível é a imagem do mundo inteligível.
(Ullmann)