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Dialética

FESTUGIÈRE, André-Jean. Contemplation et vie contemplative selon Platon. Paris: Vrin, 1936.

  • A purificação moral é uma condição necessária, porém insuficiente, para a contemplação, sendo a dialética responsável por uma segunda purificação que concerne tanto ao pensamento quanto ao inteligível.
    • A dialética, diferentemente da purificação moral, atua como um método de abstração que libera o intelecto da matéria sensível para alcançar o objeto puro do noûs.
    • Platão, na República, estabelece a transição da educação moral para a filosófica, onde a justiça interior, fruto de natureza e exercício, é uma condição prévia para a dialética.
  • A definição do filósofo na República parte do axioma socrático de que os males das cidades só cessarão com a união do poder político e da filosofia.
    • “A menos que os filósofos não reinem nas cidades, ou, inversamente, a menos que aqueles que têm hoje o nome de reis ou de dinastas não se familiarizem com o amor à sabedoria… nem as cidades, meu caro Gláucon, nem, penso eu, o gênero humano, verão cessar seus males.”
  • O filósofo se define como aquele que deseja toda a sabedoria, sendo amante da verdade e não das aparências, dirigindo-se à contemplação da Beleza em si mesma.
    • Diferentemente daquele que se apega à multiplicidade das coisas belas, o filósofo vive verdadeiramente, ordenando-se ao ser e não ao não-ser ou ao intermediário da opinião (doxa).
  • As qualidades naturais do filósofo incluem o amor constante à essência eterna, a aversão à mentira, a temperança, a alma magnânima e a facilidade de aprendizado.
    • Tais naturezas filosóficas contemplam o modelo (paradeigma) para instituir leis normativas do belo, do justo e do bom na cidade.
    • A alma magnânima, habituada a contemplar a totalidade do tempo e da essência, despreza a vida terrestre e não teme a morte.
  • Apesar dessas qualidades, o filósofo é frequentemente considerado inútil pelas cidades, o que se deve às próprias cidades, pois a verdadeira natureza filosófica é rara e a multidão não pode ser filósofa.
    • “Os verdadeiros sábios são raros, a multidão não pode ser filósofa.”
    • A natureza filosófica só pode florescer em um quadro que lhe convenha.
  • A absoluta necessidade de uma educação adequada na cidade convenável implica que a dialética e o governo se implicam mutuamente, sendo a reforma do Estado dependente da formação filosófica.
    • Os jovens deveriam receber instrução filosófica elementar desde a infância, exercícios fortificantes na juventude e, na velhice, dedicar-se inteiramente ao amor à sabedoria.
    • A salvação da cidade só é possível confiando-a a homens de virtude perfeita, seja filósofos fazendo a lei, seja reis tomados por uma inspiração divina pela verdadeira filosofia.
  • Contemplando as essências imutáveis e ordenadas, o filósofo torna-se ordenado e divino, modelando os costumes dos homens segundo o paradigma divino, o que torna a cidade cara aos deuses.
    • “Vivendo com o que é ordenado e divino, ele se torna, na medida do permitido por nossa natureza, ordenado e divino.”
    • Toda a preparação do filósofo se resume na dialética, que é o último degrau, acima do qual só há o inteligível (noeton).
  • A dialética, definida como o método socrático de perguntas e respostas para circunscrever um objeto, torna-se propriamente platônica quando visa purificar o inteligível por meio de abstrações rigorosas.
    • A dialética é uma técnica, um procedimento, uma viagem, distinguindo-se da erística que se contenta com oposições verbais.
    • “O dialético é aquele que apreende pela razão a essência de cada coisa.”
    • A dialética é a própria método daquele que filosofa pura e corretamente, sendo uma espécie de purificação do espírito.

1. A dialética ascendente

  • O objetivo da dialética ascendente é conduzir ao objeto em si mesmo, uno e idêntico, como o Belo em si ou o Bem em si, unificando tanto o objeto apreendido quanto o intelecto que o apreende.
    • Platão oferece dois exemplos notáveis dessa ascensão intelectual, com o Banquet apresentando o Belo e a República o Bem, havendo um progresso metodológico do primeiro para o segundo.

O Banquete

  • A dialética no Banquete visa conduzir ao Belo em si mesmo, eternamente uno, e sua démarche, análoga à purificação moral, tende a unificar a alma e o objeto do intelecto.
    • O objetivo é o “Beleza em si mesma, de si mesma, consigo mesma, uniformemente eterna.”
    • A purificação intelectual, assim como a moral, opera uma unificação, mas no plano do objeto inteligível.
  • A ascensão ocorre por graus sucessivos, partindo do amor a um belo corpo, depois a todos os corpos belos (abstração quantitativa), em seguida à beleza das almas e das leis, e finalmente à beleza das ciências.
    • O amante da beleza não se contenta com uma só ciência particular, mas mergulha no amor ao saber total, imenso oceano.
  • A purificação intelectual compreende a abstração qualitativa, que eleva o objeto a um plano mais imaterial (do físico ao moral, ao intelectual), e a abstração quantitativa, que se desprende do singular para atingir o universal fixo e imutável.
    • “A dialética consiste em gravir uma série de degraus, sobre cada um dos quais se opera uma unificação da multiplicidade determinada.”
    • A montanha da escada é o objeto do Banquete, enquanto o rassemblement synoptique é mais marcado na República.

A República

  • Na República, a Ideia do Bem, como ciência suprema, decide a natureza dos meios, havendo um paralelismo exato com o Banquet, onde a beleza das ciências conduz à ciência una do Belo.
    • Em oposição à multiplicidade dos bens particulares, a Ideia do Bem é una em si mesma, apreendida pelo intelecto e não pela visão.
    • A educação do olho da alma é o que os desenvolvimentos da República expõem, separando os gêneros do sensível e do inteligível.
  • A imagem da linha segmentada ilustra a relação entre o sensível e o inteligível, dividindo este último em dois segmentos: um referente às imagens usadas pela alma com hipóteses, outro à démarche que vai das Formas a um princípio anipotético.
    • A primeira démarche pertence às ciências como a geometria, que usam hipóteses e imagens visíveis para concluir, sem ir a um princípio.
    • A segunda démarche pertence à dialética, que trata as hipóteses como degraus para chegar ao princípio universal anipotético, usando apenas Formas puras.
  • A diferença entre geometria e dialética reside no status das hipóteses: a geometria as toma como princípios primeiros, enquanto a dialética busca legitimá-las, ascendendo a uma hipótese superior até chegar a um princípio anipotético, que é o ser.
    • O discurso propriamente dialético que sobe até o princípio (arché) é da alçada da razão discursiva (dianoia), mas a apreensão do princípio é obra do intelecto (noûs), e essa obra é a contemplação.
    • O melhor comentário desse trecho está no Fédon, quando Sócrates expõe seu método de partir da ideia mais sólida e, depois de demonstrar o acordo das consequências, deve dar razão da própria hipótese até chegar a um princípio suficiente.
  • O movimento da República, como o do Banquete, é um retorno ao Uno, onde o intelecto se concentra na apreensão de uma unidade, e cada etapa é marcada pela percepção de uma essência comum a uma multiplicidade.
    • “A dialética é essa via que procede por hipóteses, não como princípios, mas como verdadeiras hipóteses, para chegar a um princípio anipotético.”
    • O princípio incondicionado é a unidade suprema, a mais alta cimeira de onde se abraça o maior espaço.
  • As ciências do número e da medida, como a aritmética, são “despertadoras do pensamento” porque forçam o espírito a abstrair o objeto das qualidades sensíveis, confrontando-o com o uno e o múltiplo.
    • A ciência do número e do cálculo força a alma a usar a inteligência pura para atingir a verdade em si, sendo indispensável ao contemplativo.
    • “A aritmética purifica na medida em que abstrai. Ela conduz a uma vista sinótica na medida em que unifica.”
  • A geometria e a astronomia, para serem úteis à dialética, devem ser estudadas por si mesmas, despojadas da matéria, visando não os astros visíveis, mas um céu ideal e leis inteligíveis.
    • A verdadeira música é matemática, obra do espírito e não do ouvido, medindo sons espirituais.
    • O bem-fazer dessas disciplinas calculadoras é duplo: libertar-se do corpóreo e atingir o inteligível que é uno.
  • A dialética é superior às ciências matemáticas porque estas não podem render razão de seus princípios, enquanto a dialética, rejeitando as hipóteses, eleva-se ao princípio mesmo, conduzindo o olho da alma à contemplação do Bem.
    • O verdadeiro modo musical (dialética) faz tender à realidade do ser, sem ajuda dos sentidos, até que se apreenda, numa intuição do espírito, a essência mesma do Bem.
    • “Aquele que não pode discriminar racionalmente a Ideia do Bem… não conhece nem o Bem em si nem nenhum outro bem, apenas uma imagem por opinião.”
  • O programa de educação da República estabelece uma ordem prática: ciências do número até os 20 anos, vista sinótica das ciências dos 20 aos 30, prática da dialética dos 30 aos 35, e finalmente, dos 35 aos 50, exercício do poder, compartilhando o tempo entre contemplação e governo até a morte.
    • “Aquele que tem a faculdade sinótica é forçosamente dialético.”
    • Nesse progresso, a etapa mais interessante é a intermediária entre as ciências do número e a dialética, onde se aprendem os laços recíprocos das ciências e sua relação com a natureza do ser.
  • O ser platônico caracteriza-se pela imutabilidade, que leva à inteligibilidade, e pela universalidade, que conduz a uma vista sinótica, onde o conceito mais abstrato (o ser) é também o mais compreensivo.
    • Os graus de abstração equivalem aos graus de ser, e quanto mais se sobe na abstração, mais se embrassa um grande número de realidades e de relações.
    • A síntese platônica, diferente da kantiana, é analítica: o gênero supremo contém virtualmente todas as espécies, e a ciência consiste em explicitar esse conteúdo, culminando na vista sinótica da unidade suprema.
  • As vistas sinóticas, entre os 20 e 30 anos, preparam para a dialética, pois as ciências matemáticas, partindo de hipóteses que não podem explicar, formam todos bem fechados que só a dialética pode unificar ao elevar-se a um princípio anipotético.
    • “O critério do bom dialético é a habilidade em reunir, unificar todo o domínio inferior.”
    • No caminho para o ser, a sinopse vale mais que a abstração, pois o ser platônico é eminentemente compreensivo.

2. A dialética descendente

  • A dialética apresenta dois aspectos: um de abstração, que purifica a noção de ser de todo contato material, e outro de síntese, que unifica uma multidão de relações em uma Forma una.
    • O aspecto catártico é manifesto no Banquete, enquanto o aspecto sinótico é manifesto na República e nos diálogos posteriores.
    • A vista do ser, por ser sinótica, identifica-se à ciência: a contemplação platônica é o saber perfeito.
  • A diferença essencial entre dialética e contemplação é a mesma entre discurso e intuição; a dialética é uma démarche, enquanto a contemplação é um repouso onde se apreende, de um só golpe de vista, todo o espetáculo das relações.
    • O teórico (theoretikós) percebe a ordem dos seres e repousa nessa vista, discernindo as leis e os princípios.
    • “Se o Uno supremo contém virtualmente todas as relações que ele governa, o sábio é o contemplativo por excelência.”
  • A contemplação requer o sentimento de presença, que garante o contato com o Ser existente, sendo este sentimento a condição da apreensão da multiplicidade ordenada.
    • No Banquete, sente-se o acento do homem que viu, tocou e sentiu, sendo o trabalho posterior de Platão uma explicitação da riqueza desse contato inicial.
    • A República estabelece um laço indissolúvel entre os dois aspectos da dialética, pois a Ideia do Bem, Uno-Bem, contém implicitamente todas as Formas inferiores.
  • A partir da República, a função principal da dialética não é mais a ascensão abstrativa, mas a descensão onde se deduzem os atributos e se reconstrói a pirâmide das espécies, sendo a vista sintética do Uno e do Todo no Uno o cume da contemplação e da ciência.
    • O Fédon, o Banquete e o Fédro ainda mantêm o tema da ascensão, mas a República marca um enriquecimento definitivo.
    • “A dialética consiste em discernir, gênero por gênero, as possibilidades de comunicação que esses gêneros comportam mutuamente, dom concedido apenas àqueles que filosofam em toda pureza e rigor.”
  • A dialética descendente, exposta no Fédro, no Sofista e no Filebo, opera por meio da divisão (diaíresis) e da síntese (synagogé), discernindo as articulações naturais da Ideia para reconstruir todo o sistema das espécies.
    • “Reconhecer entre os elementos do inteligível apelos e recusas necessárias, como entre as letras do alfabeto, é construir a ciência.”
    • “A percepção global da sinfonia universal será a obra da contemplação.”
  • As relações de dependência entre dialética e contemplação estabelecem-se em cinco momentos: visão pré-empírica das Formas, rememoração e ascensão dialética até o gênero supremo, nova apreensão do ser em si, descida dialética por divisão e reunião, e finalmente intuição sinótica do múltiplo no Uno.
    • Três momentos sucessivos de contemplação (noeseis) são separados por dois momentos de discurso (dianóia), três repousos separados por duas marchas em sentido contrário.
    • Esse esquema representa a vida teórica e também a vida da ciência em Platão.
  • O Filebo acrescenta um complemento importante sobre a preeminência da vida contemplativa ao abordar o problema da relação do Uno e do Múltiplo nas próprias Formas.
    • A dificuldade não está no singular concreto, mas nas Formas como o homem em si: como estas unidades incluem o múltiplo?
    • Os antigos transmitiram que todas as realidades eternas são compostas do Uno e do Múltiplo, reunindo o limite e o ilimitado.
  • O método dialético, segundo o Filebo, consiste em postular uma Ideia única, depois verificar se ela se divide em duas, três ou mais, e assim por diante, até perceber não apenas que a unidade primitiva é uma e múltipla, mas também quantas unidades subordinadas ela inclui.
    • Os hábeis de agora estabelecem o uno e o múltiplo ao acaso ou passam imediatamente do uno ao infinito, escapando-lhes os números intermediários.
    • “É precisamente isso que distingue, nestas disputas, o método dialético do método erístico.”
  • A divisão racional do gênero não é uniformemente dicotômica, pois se deve fazer conhecer toda a compreensão do gênero, enumerando todas as suas espécies até os elementos indivisíveis (átomon eidos).
    • A dicotomia, que procede por exclusão, visa a definição de uma espécie última, não a compreensão total do gênero.
    • A divisão no Sofista e no Político se funda na experiência, não obedecendo à regra da República de proceder rigorosamente de Ideia em Ideia sem recurso à experiência.
  • A doutrina do Filebo sobre o Uno e o Múltiplo leva a conceber, acima da Ideia composta (mikton), um princípio unificador e incomposto, o Uno absoluto, que é a causa formal da unidade da própria Ideia.
    • O Bem da República, sendo princípio determinante do ser, não pode ser uma Ideia, pois uma Ideia é um composto (mikton); ele deve estar além da essência (epekeina tes ousias).
    • “O Bem não é uma essência, mas ele ultrapassa de longe a essência em dignidade e em potência.”
  • Esse Uno-Bem, causa formal e final das Ideias, é identificado com a Inteligência divina, um princípio inteligente e sábio, superior a todo estado afetivo, que é a causa universal.
    • O Bem-Causa da República responde exatamente ao Uno-Limite do Filebo, que determina não a infinitude dos sensíveis, mas a multiplicidade das espécies e dos gêneros.
    • O princípio mesmo do ser e da inteligibilidade tem direito ao título de Deus, sendo esse princípio dificilmente outra coisa que uma Inteligência.
  • O Filebo, em concordância com a República, o Fédon e o Teeteto, mostra que a contemplação é uma atividade pura do intelecto, superior aos prazeres, e que visa o Uno, fonte de toda beleza e verdade.
    • A vista do gênero se acompanha de uma vista das espécies discernidas pela dialética, conduzindo a uma apreensão direta e global de toda a hierarquia dos inteligíveis.
    • Se as Ideias recebem sua forma determinante da ação do Uno-Bem, um último esforço deve levar o intelecto humano a remontar a essa fonte, que é uma Inteligência suprema.
    • A apreensão do Uno, estando além da essência e de toda definição normal, assemelha-se mais a um sentimento de presença e a um contato do que a uma apercepção que se explicita por meio de uma ideia.
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