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Identificação entre ideia e "o que é"

Mesquita

A identificação entre ideia e “o que é” pode ser atestada pela negativa através das raras passagens em que Platão supõe um contraditor das ideias.

  • Nessas passagens, Platão indica a única perspectiva à luz da qual as ideias poderiam ser negadas: a de que “aquelas coisas que vemos e o mais que é experimentado pelo corpo são as únicas que possuem tal verdade, não havendo de modo algum nenhumas outras para além dessas” — conforme o Timeu.
  • A negação das ideias só é concebível para Platão à luz de uma concepção que encare o real como o que imediatamente se manifesta — o “visível” e o “deveniente”.
  • Não se trata estritamente do materialista, mas de todo aquele que identifica o real com o imediato e reduz a realidade à imanência.
  • Esse é, para Platão, o único crítico consequente das ideias, porque é o único que adota uma posição que prescinde delas — ao menos numa primeira abordagem.

O contraditor da ideia assume o caráter imediatamente contraditório do real como tal, declarando que não há “próprio justo”, nem “próprio belo”, nem “próprio Fogo”, porque as coisas em sua flutuação ontológica se bastam a si mesmas.

  • Sustentar isso é, segundo a lógica platônica, recusar-se a questionar por “o que é” diante daquilo que justamente obriga a que essa pergunta seja feita.
  • O contraditor é aquele a quem o testemunho aporético das sensações não causa embaraço — é Hípias e todos os que, como Hípias, não têm em casa o “terrível interlocutor” de Sócrates, seu daímon, personificação da ordem da razão.
  • Assim como o contraditor da ideia é o que ensurdeceu para a razão e para a questão “o que é”, também a ideia é o nome próprio dessa questão restituída ao seu pleno sentido.

Os que negam a dimensão de “o que é” já estão representados nos diálogos do primeiro período, seja como “ignorantes passivos”, seja como “ignorantes ativos”.

  • Em todos os diálogos em que os interlocutores não conseguem responder à questão “o que é”, isso ocorre porque ignoram que “o que é” não coincide com “as coisas que são”.
  • No Êutidemo, os dois sofistas desdenham ostensivamente dessa dimensão e afirmam expressamente que “nem belo, nem bom, nem branco, nem nenhuma outra coisa semelhante a esta é algo, nem, em absoluto, nenhuma coisa é diferente de outra.”
  • No Hípias Maior, o sofista homônimo manifesta desconhecer a distinção entre “o belo” e “os belos” e insiste em confundir essas duas ordens.

No Fedro, a passagem interna de “o que é” para a ideia se faz sentir com maior clareza, quando Fedro orienta a resposta imediatamente para o que “realmente é”.

  • Diante da interrogação socrática sobre a necessidade de um saber do verdadeiro para a elaboração dos discursos, Fedro aponta “as coisas realmente boas ou belas”, “as coisas realmente justas” e, em geral, “o que realmente é” como o nome apropriado do verdadeiro.
  • Argumentos semelhantes do Fédon e da República — embora sob a perspectiva explícita da ideia — recuperam o caminho exibido pelo Hípias Maior sob a alçada de “o que é”.

O Hípias Maior apresenta tacitamente uma dedução rigorosamente canônica das ideias, constituindo testemunho privilegiado da gênese da ideia a partir da simples consideração de que algo é.

  • Só há saber, diz Sócrates, quando se sabe o que é; em particular, só há saber das coisas belas quando se sabe o que é o belo.
  • É necessário distinguir entre “o que é” em sentido próprio — o próprio belo — e aquilo em que isso apenas se apresenta sem ser propriamente — as coisas belas.
  • “O que é” — o belo — faz com que as coisas sejam coisas belas: sem ele, elas nada são de belo.
  • Sócrates pergunta: “Poderiam ser belas todas essas coisas que dizes serem belas, sem o que é o próprio belo?”
  • Hípias afirma: “O belo que eu disse é e parecerá tal a todos”; e Sócrates conclui: “porque o belo é decerto sempre belo.”

Dessa análise do Hípias Maior resultam quatro caracteres definidores de “o que é”, que constituem as determinações fundamentais da ideia.

  • A ideia é o que cada coisa é, ou seja, o seu ser.
  • A ideia é o “é” da coisa — não a coisa que mostra ou faz aparecer o ser sem propriamente sê-lo, mas o que é o ser.
  • A ideia não é apenas “de algum modo”, como mostração, mas é absolutamente — é o que nunca é diferente de si mesma, mas é sempre, pura e exclusivamente, o que é.
  • A ideia é algo determinado — “alguma coisa” — que é absolutamente, ou seja, sempre, para todos e em todas as circunstâncias, que faz ser e não apenas parecer, e que se apresenta como “algo comum” a todas as coisas que são desse modo.

Das três determinações fundamentais decorrem todas as demais determinações da ideia, enunciadas explícita ou implicitamente nos diálogos socráticos.

  • A ideia é o que verdadeira ou realmente é — noção implicada no Hípias Maior e principalmente no Lísis.
  • A ideia é una, idêntica, permanente e constitui o que há de comum numa dada multiplicidade — formulação clássica que ocorre no Laques, no Êutífron, no Mênon e no Hípias Maior, desenvolvendo a “absolutidade” da ideia: é sempre o que é, identidade e permanência, e as múltiplas coisas só são o que são por relação com ela.
  • A ideia é um “modelo” ou “paradigma” de que as coisas múltiplas participam — noção presente já no Êutífron, de certa maneira no Lísis, e no Hípias Maior.
  • A ideia é também “critério” e “fim último”, entre outras caracterizações menos centrais ou frequentes.

Tudo o que foi mostrado até esse ponto indica apenas que a noção “o que é”, tal como ocorre no Hípias Maior, prefigura o conjunto de determinações do que virá a ser designado tecnicamente por ideia.

  • Resta investigar de que forma essas determinações se perfilam na letra dos diálogos doutrinais e até que ponto são de fato determinações fundamentais da ideia.
  • Tal investigação só pode ser estabelecida colhendo-as diretamente nos contextos de apresentação canônica: fundamentalmente o Fédon, o Fedro, o Banquete e a República, bem como o Timeu.
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