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Brucker

VIEILLARD-BARON, Jean-Louis. Platon et L’Idéalisme Allemand (1770-1830). Paris: Éditions Beauchesne, 1979

O artigo Platão de Brucker

1. A monumental história da filosofia de Brucker, redigida em latim e lida em toda a Europa, ilustra com precisão o conhecimento que os letrados do século XVIII podiam ter de Platão, sendo obra de grande erudição que trata com espírito crítico até mesmo temas como a suposta filosofia antediluviana, para desmascará-la como quimera.

2. O propósito desta análise é extrair as ideias fundamentais do extenso artigo consagrado a Platão, a fim de determinar qual o conhecimento e qual o julgamento que Brucker tem do filósofo grego.

3. Brucker segue a edição de Serres e a tradução de Ficino, embora considere que nenhuma tradução latina disponível esteja à altura de Platão, e adota a classificação lógica dos diálogos proposta por Jean de Serres, empenhando-se numa tarefa de sistematização da pensée platônica que se revela, contudo, um fracasso total, pois trata como igualmente válidos ao próprio texto de Platão os comentários de Cícero, Apuleio e Alcínoo.

  • a tarefa de sistematizar o pensamento platônico, desejada por Leibniz, é realizada por meio de uma recapitulação de princípios esparsos
  • Cícero é frequentemente preferido ao próprio Platão sob o pretexto de maior clareza
  • um exemplo retirado da definição da dialética no Sofista mostra que Brucker deturpa o pensamento platônico de modo mais grave do que Jean de Serres, apesar de suas críticas a este

4. A comparação entre a tradução de Jean de Serres e o comentário de Brucker sobre a mesma passagem do Sofista revela que este último introduz noções de indução e raciocínio dedutivo ausentes do texto platônico, o que levanta a questão de qual dos dois autores estaria mais impregnado de espírito escolástico.

5. O exame das treze teses fundamentais que Brucker extrai para compreender a filosofia platônica confirma essa atitude desenvolta diante dos textos, pois embora os três primeiros princípios sejam fiéis à letra dos diálogos, o quarto importa uma alternativa aristotélica entre teoria e prática estranha ao pensamento de Platão, gerando incoerências que o próprio comentador não percebe.

6. A recapitulação do pensamento platônico segue três direções, a filosofia dialética, a teórica e a prática, sem qualquer espaço reservado ao mito, num esforço de eliminar todo elemento irracional, e com desenvolvimento incomparavelmente maior da teologia platônica, à maneira de Proclo.

7. No tratamento da dialética, Brucker nota a divergência entre Platão e Socrado quanto ao método, distingue corretamente ciência verdadeira e opinião, e apresenta com certa justeza a fase ascendente da dialética em três etapas, mas ignora a dialética descendente, a sinopse do bom dialético, e trata a reminiscência de modo insatisfatório.

8. A filosofia prática, tratada às pressas, divide-se em ética e política segundo uma distinção estranha ao pensamento platônico, sendo a alegoria da caverna despojada de sua forma mítica e o Bem supremo assimilado a Deus, enquanto a política é descartada em uma única página por ser tida como produto de imaginação delirante.

9. A análise da filosofia teórica de Platão consiste essencialmente num comentário do Timeu, escolha que se explica tanto pela tradição de comentário desse diálogo desde Ficino quanto pela preferência de Brucker pela forma didática de tratado em detrimento da forma dialogada.

  • a herança renascentista, repudiada na França por Descartes, permanece viva na erudição alemã do século XVIII
  • a arquitetura sistemática do wolffianismo tornava o Timeu o único texto platônico que satisfazia o ideal de Brucker de exposição sistemática

10. Ao questionar a doutrina platônica da criação do mundo, Brucker demonstra prudência ao recusar cristianizar Platão e ao reconhecer a ausência de criação ex nihilo, mas deturpa essa constatação ao concluir indevidamente, a partir da ausência de um conceito, a posição de seu conceito oposto.

11. Ao interrogar-se sobre a natureza da matéria incriada, Brucker aproxima-se de Plutarco, Gassendi e Bayle na leitura maniqueísta de uma matéria dotada de alma bruta e má, sem confrontar essa interpretação com a passagem da causa errante que surge mais adiante no Timeu.

12. Prosseguindo de modo pouco fiel ao propósito recapitulativo, Brucker admite sem discussão a criação divina das Ideias, discute com alguma sutileza a relação entre a Ideia do Bem e o Deus do Timeu, mas compreende mal a natureza das Ideias ao ignorar os esquemas da participação e da comunicação, encerrando o exame com uma psicologia sumária da alma platônica.

13. Apesar das lacunas de leitura, sobretudo a ignorância dos diálogos ditos socráticos, o quadro traçado por Brucker revela um esforço consciencioso de síntese que, comparado ao contexto das zombarias de Voltaire e ao vago moralismo platônico de Shaftesbury, resulta no julgamento de que Platão seria um mero compilador voltado à obscuridade e ao ocultamento de seu pensamento diante dos não iniciados.

14. Brucker sustenta que Platão não se opôs a seus predecessores, mas amalgamou as filosofias egípcia e pitagórica, explicação que pretende justificar as incoerências dos diálogos, atribuindo à filosofia platônica um caráter esotérico e cético e denunciando nela um estilo obscuro e ambíguo, sinal de ausência de simpatia entre comentador e texto.

15. O julgamento final de Brucker é peremptório e sem apelo: nem mesmo a geometria platônica escapa à censura de constituir um vício pitagórico, e a filosofia de Platão é declarada estranha às origens da filosofia ocidental, situada antes no pensar oriental, degenerando afinal em entusiasmo e devaneio, num veredicto que reduz o célebre artigo a um mosaico que nega a Platão o lugar que lhe cabe na história da filosofia.

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