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Tarrant: sobre a oração
TARRANT, Harold. The Second Alcibiades: The Second Alcibiades. Las Vegas, NV: Parmenides Publishing, 2023.
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O diálogo Alcibiades II é uma discussão filosófica dramatizada sobre a prece, tema relevante a qualquer pessoa que tenha desejos, independentemente de disposição religiosa.
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A palavra grega euche (“prece”) designa um ato público e audível de petição aos deuses, não restrito a pessoas de espiritualidade especial.
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Desejos cotidianos como mexer o bolo de Natal, partir o osso da sorte ou comprar bilhete de loteria podem ser formas de prece no sentido antigo do termo.
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Alcibiades desejava glória pessoal intensamente, o que o levava a recorrer a todos os meios disponíveis para obtê-la.
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O platonismo encontrava muito a objetar na atitude grega comum diante da prece, especialmente na ideia de que se comercializa com os deuses.
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Sócrates questionava os pressupostos da piedade convencional, como se vê no Euthyphro, onde a noção de piedade como ciência da prece e do sacrifício é satirizada.
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Os deuses platônicos agem sempre em conformidade com o que é melhor, sem que os humanos possam determinar em seu nome o que isso significa.
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As preces e as ações humanas podem afetar o que se merece e, portanto, o que é bom em uma situação que nos diz respeito.
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Platão não argumentou contra a sabedoria ou a eficácia da prece em geral, reconhecendo que ela estava profundamente enraizada na vida grega e em todos os povos conhecidos.
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Sócrates pronuncia uma prece a Pã e às demais divindades ao fim do Fedro (279b-c), pedindo beleza interior e harmonia entre o externo e o interno, e considerando o homem sábio como verdadeiramente rico.
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Timeu inicia sua exposição com uma prece no diálogo homônimo, reconhecendo que apenas com apoio divino um ser humano pode realizar o que se propõe.
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Tais preces funcionam como reafirmação dos próprios objetivos e prioridades, mantendo o falante no caminho que ele mesmo identifica como correto.
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O Alcibiades II entrecruza o tema da prece com questões éticas e epistemológicas mais amplas, pois a escolha do que pedir aos deuses é inseparável da escolha do que buscar na vida.
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Duas seções monológicas do diálogo (141c9-143a3 e 148b9-150b3) concentram-se na prece e no que deve ser dito ao suplicar aos deuses.
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O requisito fundamental para uma vida humana florescente é o conhecimento do que é melhor, sem o qual todo outro conhecimento pode se tornar prejudicial.
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O Alcibiades I havia enfatizado o conhecimento de si e a ignorância de si de Alcibiades, enquanto o Alcibiades II segue direção diferente, separando o conhecimento potencialmente prejudicial do que é sempre benéfico.
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O diálogo possui considerável potencial dramático, pois envolve Sócrates e Alcibiades, uma das figuras públicas mais controversas de Atenas no final do século V a.C.
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O comportamento extravagante de Alcibiades, que transgrediu as normas aceitas, foi notado desde as Acarnenses de Aristófanes.
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Após o suposto envolvimento de Alcibiades nos escândalos religiosos de 415 a.C. (mutilação dos Hermes e profanação dos Mistérios), ele traiu Atenas associando-se a lacedemônios e persas.
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Xenofonte sugere nas Memoráveis (1.2.12) que a amizade de Sócrates com Alcibiades foi vista como parcialmente responsável pelo que este se tornou.
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O Alcibiades I registra o primeiro encontro filosófico entre Sócrates e Alcibiades, mas não desfaz as ambições do jovem; por isso se fazia necessário um segundo diálogo.
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O Sócrates do Alcibiades I poderia ser acusado de cumplicidade nos crimes de Alcibiades, pois encorajou qualidades úteis às suas ambições sem questionar os objetivos subjacentes.
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O Alcibiades II apresenta Sócrates surgindo no momento exato em que Alcibiades está prestes a pedir algo que lhe causaria grande dano.
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A referência à prece insensata de Édipo, cujas consequências foram desastrosas para seus dois filhos (138b-c), sublinha a urgência da intervenção socrática.
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O diálogo termina em ambiguidade estudada, pois Sócrates aceita a coroa que Alcibiades destinara ao deus, colocando-se numa situação de possível transgressão.
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Sócrates toma a coroa como presságio favorável numa situação de crise, tal como Creonte interpreta erroneamente a coroa de Tirésias nas Fenícias de Eurípides (858-859).
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A aceitação de presentes fatais por personagens trágicos ressoa no gesto de Sócrates: Penteu aceita de Dioniso a veste que o destrói, Dejanira recebe de Nesso o veneno que mata Héracles.
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O diálogo encerra-se com o que é, na prática, uma prece de Sócrates pela vitória sobre os rivais amorosos de Alcibiades, o que pode ser tão precipitado quanto as preces contra as quais ele próprio havia alertado.
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O diálogo está permeado de alusões à tragédia grega, especialmente às Fenícias de Eurípides, e às histórias das casas de Cadmo e de Atreu.
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A menção à maldição de Édipo (138b9-c3) evoca as Fenícias de Eurípides (66-68), onde a doença de Édipo como resultado dos golpes do destino é paralela à loucura descrita no diálogo.
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A tragédia grega frequentemente retrata preces ou súplicas no início, que afastam o problema imediato mas prometem maiores problemas ao longo do tempo, como no Édipo em Colono de Sófocles e nas Suplicantes de Ésquilo.
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Matthew Sharpe (2012, p. 137) descreveu o diálogo como “impregnado de uma atmosfera de escuridão e de presságio trágico”.
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A lição transmitida por Sócrates sobre o que se deve desejar e pedir não será seguida nem pelo discípulo nem pelo mestre, o que confere ao diálogo uma dimensão trágica.
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As forças do desejo de adulação popular são excessivas para Alcibiades, assim como Eros é excessivo para Sócrates.
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Nem mesmo a habilidade filosófica de Sócrates garantirá que suas escolhas sigam a melhor direção, pois ele também precisava avaliar melhor suas decisões.
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A força dramática do diálogo une-se à sua mensagem filosófica: sem o conhecimento esquivo do bem atuando como piloto, nenhum talento é suficiente para orientar a vida.
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O Alcibiades II é uma obra experimental que representa Sócrates mais como herói trágico do que como herói filosófico, de extensão comparável à do Hipias Menor, Eutífron, Críton e Íon.
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Com pouco mais de quatro mil palavras ou cerca de doze páginas Stephanus, o diálogo atinge seus objetivos de forma econômica.
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Alcibiades é persuadido com relativa facilidade, não por lógica incisiva, mas pela hábil escolha de material ilustrativo compreendido por ambos os interlocutores.
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O diálogo rivaliza com o Hipias Menor e o Íon em interesse literário, embora Alcibiades possua apenas o conhecimento literário que sua educação aristocrática lhe proporcionou.
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O Alcibiades II ocupa uma posição especial no Corpus Platonicum por ter sua autenticidade questionada desde a Antiguidade, o que levanta dúvidas sobre a autenticidade de outros diálogos.
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Ateneu (11.114) informa que alguns supunham que Xenofonte fosse o autor do diálogo.
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Se uma obra das trinta e seis do corpus tivesse sido introduzida erroneamente, não haveria garantia de que outros diálogos não explicitamente atribuídos a Platão no século IV fossem autênticos.
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Os neoplatônicos, embora excluindo o diálogo da seleção de obras estudadas em detalhe, parecem ter aceito que foi escrito por Platão.
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O subtítulo Sobre a Prece foi associado ao Alcibiades II pela tradição antiga, inserindo-se na prática de identificar diálogos por seu conteúdo temático além do nome do interlocutor.
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Diógenes Laércio (3.60) adotou a distinção “Primeiro” e “Segundo” para os diálogos Alcibíades, tal como o fez para os dois diálogos Hípias (3.61).
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Proclo cita o Alcibiades II no comentário à República (I 149.25, 186.11, 187.24) e o trata como filosofia platônica séria.
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O diálogo integra a quarta tetralógia da organização de Trasilo, junto com o Hiparco e os Erastai, numa seção do corpus marcada por suspeitas de autenticidade.
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Uma tendência vocabular específica aproxima os três primeiros diálogos da tetralógia, mas não se observa no quarto, aparecendo antes no Teages, que inicia a quinta tetralógia.
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A confusão entre os subtítulos Sobre a Filosofia (Erastai) e Sobre a Sabedoria (Teages) pode ter causado uma troca de posição numa lista antiga do corpus.
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A ordem estabelecida dos dois diálogos Alcibíades no corpus tem fundamento dramático, assim como ocorre com outros pares de diálogos na organização tetralogal.
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O Alcibiades I documenta o primeiro momento em que Sócrates toma a iniciativa de conversar com Alcibiades, o que exige prioridade dramática sobre o segundo diálogo.
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A ordem dramática aproximada das obras que envolvem Alcibiades seria: Protágoras (relação ainda não iniciada), Alcibiades I (início da relação), Alcibiades II (relação estabelecida), Simpósio (relação já encerrada).
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Dercílides e Trasilo, que organizaram o corpus em tetralogias no início do século I d.C., parecem ter reivindicado para essa organização uma base que remontava ao próprio Platão.
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A classificação por “caráter” dos diálogos, apresentada por Diógenes Laércio (3.49-51), situa os dois diálogos Alcibíades no gênero “zetético” e na espécie “maiêutica”.
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O gênero zetético divide-se segundo a abordagem adotada na conversa: “ginástico” com jovens menos seguros de sua sabedoria, “competitivo” com sofistas e intelectuais.
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Proclo insiste que Parmênides pratica a mesma maiêutica sobre Sócrates no Parmênides (in Parm. 781.15, 838.19, 873.32, 898.17, 907.8) que Sócrates pratica sobre Alcibiades no Alcibiades I (in Alc. 27.14-29.2, 209.11, 283.21, 284.8).
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A distinção entre diálogos peiráticos e maiêuticos parece corresponder à ausência ou presença de progresso intelectual do interlocutor nomeado no título em relação ao tema indicado no subtítulo.
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Alcibiades realiza avanços cognitivos quanto à natureza do ser humano e aos requisitos adequados para a prece, correspondentes aos subtítulos Sobre a Natureza do Homem e Sobre a Prece.
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