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-===== DAMÁSCIO (AGAMBEN) ===== +===== Damáscio (Agamben) ===== 
-*AGAMBEN, Giorgio. Ideia da prosa (GAIP). Tr. João Barrento. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012, p. 21-26*+ 
 +GAIP
  
 No ano 529 da nossa era, o imperador Justiniano, instigado por fanáticos conselheiros do partido anti-helênico, decretou através de um édito o encerramento da escola filosófica de Atenas. Coube, assim, a Damáscio, o escolarca responsável, ser o último diádoco da filosofia pagã. Ele tinha tentado, por meio de funcionários da corte que lhe ofereceram os seus préstimos, evitar o acontecimento, mas conseguiu apenas que lhe concedessem, para compensar a confiscação dos seus bens e os rendimentos da escola, o salário de superintendente de uma biblioteca de província. Ora, temendo possíveis perseguições, o escolarca e seis dos seus mais próximos colaboradores carregaram um carro com livros e instrumentos, e procuraram refúgio na corte do rei dos persas, Khosrô Anocharvan. Os bárbaros tinham salvado aquela puríssima tradição helênica que os gregos – ou antes, os “romanos”, como agora se chamavam – já não eram dignos de guardar. No ano 529 da nossa era, o imperador Justiniano, instigado por fanáticos conselheiros do partido anti-helênico, decretou através de um édito o encerramento da escola filosófica de Atenas. Coube, assim, a Damáscio, o escolarca responsável, ser o último diádoco da filosofia pagã. Ele tinha tentado, por meio de funcionários da corte que lhe ofereceram os seus préstimos, evitar o acontecimento, mas conseguiu apenas que lhe concedessem, para compensar a confiscação dos seus bens e os rendimentos da escola, o salário de superintendente de uma biblioteca de província. Ora, temendo possíveis perseguições, o escolarca e seis dos seus mais próximos colaboradores carregaram um carro com livros e instrumentos, e procuraram refúgio na corte do rei dos persas, Khosrô Anocharvan. Os bárbaros tinham salvado aquela puríssima tradição helênica que os gregos – ou antes, os “romanos”, como agora se chamavam – já não eram dignos de guardar.
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 Damáscio levantou por um instante a mão e olhou a tabuinha sobre a qual ia anotando o curso dos seus pensamentos. De repente, lembrou-se da passagem do livro sobre a alma em que o filósofo compara o intelecto em potência a uma tabuinha sobre a qual não está escrito nada. Como ele não pensou nisso antes ? Era isso que, dia após dia, tentara apreender, era isso que, sem descanso, tinha perseguido no breve lampejo daquele halo indiscernível, cegante. O limite último que o pensamento pode atingir não é um ser, não é um lugar ou uma coisa, mesmo despojados de qualquer qualidade, mas a própria potência absoluta, a pura potência da própria representação : a tabuinha para escrever ! Aquilo que até aí julgara pensar como o Uno, como o absolutamente Outro do pensamento, era, pelo contrário, apenas a matéria, apenas a potência do pensamento. E todo o longo volume que a mão do escriba tinha enchido de letras não era mais que a tentativa de representar aquela tábua perfeitamente rasa sobre a qual ainda se não escreveu nada. Por isso não conseguia levar a bom termo a obra : aquilo que não podia cessar de se escrever era a imagem daquilo que nunca cessava de não se escrever. No uno espelhava-se o outro, inatingível. Mas tudo era finalmente claro : agora podia quebrar a tabuinha, cessar de escrever. Ou, antes, começar verdadeiramente. Julgava agora compreender o sentido da máxima segundo a qual conhecendo a incognoscibilidade do outro, conhecemos não alguma coisa dele, mas alguma coisa de nós. Aquilo que nunca poderá ser primeiro permitia-lhe perceber, difusamente, o vislumbre de um início. Damáscio levantou por um instante a mão e olhou a tabuinha sobre a qual ia anotando o curso dos seus pensamentos. De repente, lembrou-se da passagem do livro sobre a alma em que o filósofo compara o intelecto em potência a uma tabuinha sobre a qual não está escrito nada. Como ele não pensou nisso antes ? Era isso que, dia após dia, tentara apreender, era isso que, sem descanso, tinha perseguido no breve lampejo daquele halo indiscernível, cegante. O limite último que o pensamento pode atingir não é um ser, não é um lugar ou uma coisa, mesmo despojados de qualquer qualidade, mas a própria potência absoluta, a pura potência da própria representação : a tabuinha para escrever ! Aquilo que até aí julgara pensar como o Uno, como o absolutamente Outro do pensamento, era, pelo contrário, apenas a matéria, apenas a potência do pensamento. E todo o longo volume que a mão do escriba tinha enchido de letras não era mais que a tentativa de representar aquela tábua perfeitamente rasa sobre a qual ainda se não escreveu nada. Por isso não conseguia levar a bom termo a obra : aquilo que não podia cessar de se escrever era a imagem daquilo que nunca cessava de não se escrever. No uno espelhava-se o outro, inatingível. Mas tudo era finalmente claro : agora podia quebrar a tabuinha, cessar de escrever. Ou, antes, começar verdadeiramente. Julgava agora compreender o sentido da máxima segundo a qual conhecendo a incognoscibilidade do outro, conhecemos não alguma coisa dele, mas alguma coisa de nós. Aquilo que nunca poderá ser primeiro permitia-lhe perceber, difusamente, o vislumbre de um início.
  
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